Vingança

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Barata Cichetto


— Confesse, Sr. Samsa! Foi o senhor que assassinou cruelmente o escritor.

— Sim, fui eu que o matei. Eu matei, sim, aquele ser monstruoso. E o fiz sem nenhuma dor na consciência e nenhum rasgo de arrependimento tenho comigo.

— Mas por que o fizeste com tanta frieza e tanta crueldade?

— O que entendes por “frieza” e “crueldade”, senhor Delegado, não é deveras o meu entendimento desses termos. Esses termos devem ser imputados ao Escritor, não a mim. Pois foi ele que sempre agiu comigo dessas formas hediondas. Foi comigo que aquele maldito sempre tratou dessas formas. Foi a mim que sua herança maldita, herdada de seu maldito pai, a quem ele sempre tratou de uma forma que nem ao mais reles inseto, nem ao mais vil dos vermes deveria trata. Foi eu que ele transformou em uma criatura mesquinha, egoísta, sem senso de humanidade e sem nenhum respeito a qualquer parâmetro moral. Foi a mim, Gregor Samsa, que aquele infeliz incapaz de consumar de forma leve e cristalina nenhum de seus relacionamentos amorosos, sempre tratou apenas com um reles e inútil ser, relegado às páginas dantescas de sua literatura. Foi a mim que ele sempre tratou por personagem secundário de uma existência medíocre, povoada por arquétipos de alienação e brutalidade física e psicológica, A mim, senhor Delegado, que sempre foi tratado com indiferença e mesquinhez, como se fosse eu apenas um medíocre cliente de um advogado também medíocre, que, aliás, ele era. A mim, somente a mim, foi dedicada toda sua paranoia, seus conflitos existenciais, com suas missões aterrorizantes, labirintos burocráticos e transformações místicas.

— Entendo, mas…

— Sim, senhor Delegado, fui eu quem assassinei aquele asquenaze maldito. Eu, com minhas patas o enforquei. E só precisei de duas das seis que possuo, para ver aquele maldito judeu estrebuchar e cair sobre aquela maldita máquina de escrever.

E Gregor Samsa mexeu as antenas, ajeitou as asas marrom-avermelhadas e caiu sobre a mesa da delegacia de Old Town Square em Praga. Estava morto!

/2012

Universo Expandido Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo da Metamorfose de Kafka
Registrado no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional sob Nº. 6849/10 

Luiz Carlos Giraçol Cichetto, Araraquara, SP, é escritor, poeta e Livre Pensador, um dia acordou de sonhos intranquilos e se transformou em Barata.

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