Uma Savana Africana Em Brasília

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Genecy Souza


Todos já viram em algum de suas vidas como se dá o equilíbrio de forças em uma savana africana. Em outras palavras, como funciona o mecanismo da lei do mais forte, naquele ou em qualquer outro ecossistema — Amazônia, Pantanal, Sibéria, Patagônia, Himalaia, Alaska, Antártida, Sumatra… — O mais forte se alimenta do mais fraco. Ou do mais lento. Ou do menos esperto. Mas, é na savana africana – talvez por ela ser muito mais divulgada que os demais ecossistemas – que observamos todos os pormenores da luta pela sobrevivência, para deleite dos turistas a bordo de seus jipes.

Não há espaço para gentilezas, tampouco o sentimento de culpa. Os leões caçam e matam, por exemplo, uma zebra. Por serem os primeiros, somado ao fato de serem mais fortes, mais velozes e, claro, mais ferozes, eles se alimentam das melhores partes do animal até se saciarem. Ao redor do banquete estão, esperando sua vez, hienas, chacais, cães selvagens, abutres, cobras… Seguindo a hierarquia da lei do mais forte, eles vão brigar entre si para assegurar o seu quinhão. Aos predadores menos capazes caberá o resto dos restos. Por fim, os insetos e os vermes da terra se encarregarão de limpar os ossos da infeliz zebra. É cruel, mas é assim que funciona, desde que o mundo é mundo.

Esse cenário é metaforicamente reproduzido no mundo político, não importa o país. No Brasil não é diferente e, mais especificamente, em Brasília, centro do poder político que afeta a vida de todos os pagadores de impostos (ou não), gentilmente chamados de “contribuintes” — ou, guardadas as devidas proporções, zebras —. Vive-se uma luta renhida pelo poder de reinar sobre a savana brasiliense. É nesse cenário, no meio do cerrado, que a lei do mais forte é subvertida, o topo da hierarquia não cabe ao mais forte, e sim, quase sempre, ao mais esperto. Alcança a zebra quem for o mais esperto, que nem precisa ser veloz, mas que é capaz de criar armadilhas, subterfúgios, estratagemas; formar bandos, principalmente com seres naturalmente antagônicos, algo como leões se juntando às hienas. Somos as zebras.

Na savana brasiliense, o “rei da selva” é o atual presidente eleito contra a vontade de uma certa elite acostumada a ordem natural das coisas, como na savana africana. O rei tem o poder, mas não pode usá-lo da maneira como deseja, pois, se assim o fizer, poderá ser deposto e devorado. Ele já fez demonstrações de força, e poderia tê-la aplicado, mas a fauna brasiliense é complexa, de forma que o rei tem que se valer, também, de armadilhas, subterfúgios, estratagemas; formar bandos, principalmente com seres naturalmente antagônicos, formar um bando no mínimo fiel, mesmo com seres naturalmente antagônicos. É um jogo, tão limpo quanto o chão de uma pocilga.

Na savana brasiliense, três outras espécies de animais são acrescentadas à fauna: os porcos, os burros e os cães. Há outras espécies presentes nesse ecossistema, mas é desnecessário nomeá-los. Nem George Orwell fez isso em seu livro A Revolução dos Bichos; o elenco principal e alguns coadjuvantes bastam para dar o devido sentido à história, e dela tirarmos as devidas conclusões.

A savana brasiliense possui um rei que é escolhido por meio de uma votação para reinar por quatro anos, o qual pode ter seu reinado renovado por mais quatro anos, se a maioria da fauna votante assim o desejar. O atual rei da savana brasiliense é uma espécie de pária, um ponto fora da curva, um acidente de percurso, um penetra numa festa de bacanas, o aluno mais impopular da escola. A fauna brasiliense já tentou matá-lo, antes mesmo que ele fosse aclamado (eleito) rei. Ele joga outro jogo, subverte regras, sobe por onde se desce; urra na hora errada, pensa com o fígado, que não se comunica com o cérebro, que por sua vez não controla sua língua. O rei é tosco, mas, dizem que é cheio de boas intenções, que é honesto, sincero e que ama seu povo. Seus inimigos não pensam assim.

Os inimigos do atual rei nutrem por sua figura um misto de ódio, repulsa e medo. Embora tenha sido escolhido para reinar por quatro anos (ele já está no terceiro ano), há o risco de ele ser escolhido para reinar por mais quatro longos anos. O rei é popular para uma parte considerável da fauna, embora seus muitos e poderosos inimigos neguem isso peremptoriamente.

Um desses inimigos é um leão velho, que possui um séquito de seguidores fieis. Esse leão não possui um dedo em uma de suas patas. O velho leão já foi muito mais esperto, urrava alto e forte, e reinou na savana brasiliense por um longo tempo. O velho leão prometeu um mundo de maravilhas mesmo antes de assumir o trono e, já de posse dele, viu-se que o tal mundo de maravilhas não passava de uma farsa. Para piorar, o desejo dele era – e ainda é – reinar para sempre, tendo toda a fauna brasiliense sob seu poder absoluto, graças a seu fiel exército de hienas, chacais, abutres, serpentes, gralhas, e vermes da terra. Além do mais, ele tem ao seu dispor, para o que der e vier, uma trupe de porcos, burros e cães.

São os porcos, os burros e os cães que vivem mais próximos do velho leão, os quais se prestam às mais diversas tarefas. São dissimulados e traiçoeiros. Cada um a seu modo e características se presta ao trabalho de sabotar o reinado do leão atual. Eles estão infiltrados em todos os setores da savana brasiliense, pois foram instalados durante o longo período de reinado do velho leão. Não é fácil expulsá-los, pois é uma tarefa que exige tempo.

Os cães, tal como se apresentam no livro de Orwell agem como uma tropa de choque, mais dada à violência e à intimidação. Geralmente estão sob as ordens dos porcos. Sãos os encarregados dos trabalhos sujos e à sabotagem, da execução dos estratagemas, da instalação das armadilhas. Os burros os temem. Obviamente, o atual monarca tem seus cães, e eles são muitos. Eles são disciplinados e, dizem, agirão no momento certo. E isso tira o sono de velho leão, pois, ele não conseguiu cooptá-los quando governava a savana.

Os burros são uma categoria diferenciada de apoiadores do velho leão. Eles o seguem aonde quer que ele vá, obedecem a qualquer ordem, choram e brigam por seu líder. Se necessário for, eles darão a própria vida por seu chefe maior. Não há na savana nada mais fiel e manipulável dos que os burros. Muitos deles são sábios, seja pela idade, seja pela experiência. Eles são cientes de que o velho leão é um animal desonesto, que cometeu crimes. Entretanto, para os burros, os meios justificam os fins, inclusive os esdrúxulos. Já os porcos são frios e calculistas. Para muitos desses suínos, a fidelidade ao velho leão está presa à concessão de benefícios, ao pagamento de recompensas e à troca de favores, para si ou para seus familiares e amigos.

O velho leão quer voltar a reinar, por quaisquer meios que justifique os fins. Há não muito tempo atrás, o velho leão fez a fauna escolher uma leoa para guardar seu lugar no trono. Entretanto, por essas voltas que a vida dá, a leoa, em razão de sua inteligência reduzida e estupidez pôs tudo a perder, inclusive o trono do chefe. O reino se viu metido em uma confusão nunca antes vista na savana, de maneira que foi derrubado e, logo depois, o velho leão foi posto em uma jaula, que não era bem uma jaula, mas que funcionava como tal. Foi isso que fizeram a fauna acreditar. O velho leão tem amigos importantes em todos os cantos da savana brasiliense.

A vida na savana brasiliense é regida por um extenso e complexo código de leis, o qual é guardado por um Conselho de 11 Sábios, um grupo de onze aves de rapina de diversas espécies, as quais, de certa maneira, se assemelham aos porcos e aos cães; nunca aos burros. Essas aves são escolhidas pelo monarca que estiver no poder, as quais, após um período de bajulação aos auxiliares mais diretos do rei, elas são nomeadas guardiães do tal código, permanecendo no cargo até a velhice. Nada pode removê-las do posto. Por causa disso, acumulam muito poder. São odiadas por boa parte da fauna da savana, mas fingem que são respeitadas, e adoram ser temidas. A maior parte desse conselho age sob influência do velho leão, em um misto de gratidão (por terem sido escolhidos) com interesses próprios e de outros, subverteram o livro das leis, de maneira que livraram da jaula o velho leão e, aos poucos, o vão livrando de outras acusações e condenações. Esses sábios sabem que seu futuro está ligado ao retorno do velho leão ao trono.

Um dos 11 sábios, um grande abutre calvo e de aparência mefistofélica, está empenhado em desafiar o atual leão. Para isso, ele toma decisões não previstas do código de leis. O atual monarca tem evitado ceder às provocações, pois, se assim o fizer, dará motivos para que seus muito inimigos o derrubem e o devorem. Evidentemente – e como não poderia ser diferente – no séquito do monarca também há porcos, burros e cães, inclusive aves de rapina. No entanto, e em razão de seu pouco tempo de reinado, ainda formam um grupo menos organizado e menos disciplinado que o do velho leão.

Nos últimos tempos a savana brasiliense tem andado em polvorosa. A situação está cada vez mais delicada e confusa, pois a fauna irá decidir se renova o reinado do atual leão, ou se traz de volta ao poder o velho leão. Os próximos meses serão de embates intensos, talvez até violentos, pois a muita coisa em jogo, interesses de todos os tipos e pouco ou nada de nobres. O atual leão prometeu acabar com muitos privilégios, mas ainda não cumpriu a promessa. Já o velho leão continua conspirando e planejando seu possível novo reinado, distribuindo promessas. Se ele irá conseguir, tudo vai depender do empenho dos abutres, porcos, cães e, claro dos burros.

Se o velho leão for o escolhido, não haverá garantia de paz. A savana poderá pegar fogo, e seu reinado será de pouca duração.

É que sem sempre as zebras aceitam fazer o papel de presas, para azar do predador. A lei do mais forte também possui exceções.

30/01/2022

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.

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