Arte by Barata

Tumantes e Seus Cometas no País dos Boasmerdz

Compartilhe!

Barata Cichetto


Era um lindo dia de sol em um Jardim Atômico no País dos Boasmerdz. Sunshines penetravam nos cérebros rebeldes e baseado em uma série de motivos menos nobres, um par de irmãos siameses, Arnoldo e Sir Gil Noites Pagão decidiram que queriam ser músicos. Transformaram então uma tampa de privada em guitarra e partiram pelo mundo em busca de uma garota bonitinha que eles pudessem comer e às vezes deixar cantar. Assim conheceram Irrita Lixa e assim foi fundada uma das mais famosas, luxuosas, frescas e metidas bandas do Bra-Gil.

Mas precisavam de um nome e como não podiam pedir a Saint Exupéry pediram ao seu personagem. E o Pequeno Príncipe, aquele que é amigo de todos, de heróis a heroínas e inúmeros super-heróis inclusive o Ultra-Farma, sugeriu “Os Tumantes”, porque tinha assistido um filme. “Mas Os Tumantes não significa nada!” Bradaram. “Tudo bem”, falou o Príncipe, “Vocês também não tocam merda nenhuma…”

“Os Tumantes” foram ficando amigos de um pessoal esquisito e mais metidos que eles e começaram a ser chamados de gênios e aclamados como os introdutores da guitarra na terra do pandeiro. Mas não era mais uma guitarra de tampa de privada, mas a merda era a mesma. Compuseram umas musiquiquinhas com letras pseudo-cabeça, seja lá o que for isso; pseudo-alegres, meu Deus o que é isso? E pseudo-música, ah isso eles sabiam fazer bem. E passaram a correr o mundo. Eram idolatrados e chupados e encheram a bunda de dinheiro fácil com sua música e sua virtuose pseudo-roqueira.

Tudo parecia correr bem quando Arnoldo, o menos idoso dos irmãos, se apaixonou por Irrita Lixa e pirou, deixando seu irmão guitarrista de tampa de privada muito solitário. Irrita Lixa , no auge de sua glória abandonou e se transformou em uma cilibrina, mas Arnoldo, pobre Arnoldo, o que seria dele?

Decidiu então, o pobre Arnoldo que iria sair e que a partir dali seria astronauta. Chamou então algumas pessoas e montou uma banda que teria o privilégio, a honra e a glória de tocar com ele: “Ronda do Universo” era o nome. Tudo ia bem na vida de “Arnoldo Pagão e a Ronda do Universo”, com ele fazendo quilométricos solos em seu piano de calda de caramelo, até quem um dia, furioso porque “bolaram” um baseado com um folheto da banda, ele decidiu não brincar mais de astronauta nem de ser músico: “Caraca, bicho! Bolar um baseado? Se ainda tivessem limpado a bunda vá lá! Mas baseado é o fim.”

E assim se foi Arnoldo Pagão, deixando a deriva seus antigos companheiro de nave., entre eles um que tomou a honra, o poder e a glória para si, um tal Enrolando Casannova, servo mais que fiel, mas que em um determinado momento hasteou a bandeira pirata e tomou conta da aeronave,

Em um de seus não mais belos dias, Arnoldo acordou e lembrou que tinha sido astronauta e decidiu voar novamente. Pulou do segundo andar e deixou o cérebro esparramado pela calçada. Ficou triste, nunca mais voltou para buscá-lo. Mas nem tudo eram horrores na vida de Arnoldo, seus dias ainda seriam bem piores.

Ser Gil Noites Pagão, o mais idoso foi ser gênio em outro lugar, porque no Bra-Gil não cabia sua genialidade e seu ego, mas sem antes achar que era Steve Howe e John Lennon ao mesmo tempo. Brincou de ser David Gilmour e imitar o Brick Freud, mas nem tudo eram flores na vida de Sir Gil, seus dias ainda seriam bem melhores. O Bra-Gil era burro demais para um gênio presunçoso e prepotente e ele tinha que, não ir Portugal de Navio, mas á Neu Iorque de Avião. E assim se foi…

Mas a fama e a mística ao redor de “Os Tumantes” crescia e crescia. As pessoas se matavam e pagavam uma fortuna por qualquer um de seus discos. Os dois irmãos siameses se transformaram em mitos, deuses, ídolos a um monte de garotos e sonhadores. Todos queriam ser como eles. Mas eles, que não eram bestas nem nada, jamais quiseram ser igual àquele bando de babacas. Afinal, esse negócio de “todos reunidos numa pessoa só” era coisa de bicha ou de pobre porco. E eles elas gênios e gênios se bastam.

O tempo passou e o mito só crescia. E começou-se a pensar em desenterrar a banda. Mas de que forma, se o ego do mais idoso era tão grande que jamais caberia em um palco e o mais novo nem sabia mais soletrar o abecedário até o “b”. “Não faz mal. A gente contrata uns músicos de verdade e fica em cima do palco apenas mostrando nossos nomes. Vamos ganhar um monte de grana. “Mas e a Irrita Lixa ?” Perguntou Arnoldo. Ela não quer mais dar pra você. Vamos chamar uma sapata que assim não corre o risco de ninguém querer comer.” Mas a Irrita Lixa, ela vai fica puta da cara quando souber que a gente resolver reunir a banda pra dar uma faturada e não chamamos ela, é bem capaz de ela mandar tirar ela das fotos em que aparece junto com a gente.” Dane-se. Estamos na era moderna, Photoshop existe pra quê? Ademais a Rede Bobo ta botando uma nota preta, sem contar a gravadora e um bando de otários sonhadores vão sair correndo pra ver nossos shows, comprar o discos que vão ser outros músicos que vão tocar, é claro. Foda-se, Arnoldo meu irmão, o importante é faturar em cima dos babacas. Ce ta pensando que eu sou rock, bixo?.”.

E assim foi feito. E assim fomos nós todos, obrigados a engolir mais uma armação ilimitada do mundo do Rock. Sorry Baby, mas o que eu queria mesmo era ir a Portugal de Navio a ter a Vida de Cachorro de ter que subir a Rua Augusta e para ir a uma Balada de Louco. Vou fazer uma Bat Macumba e aproveitar e exorcizar o Ministro da In-Cultura.

Pano rápido e corta pra cena em que o apresentador falastrão do Show da Pica apresenta, com voz de locutor de partida entre mortos num cemitério a última apresentação de Os Tumantes. London London, Péris, Nil Iórque. “Onde é que está meu Rock’n’Roll?”, Hein, Arnoldo? Com certeza na Vila Nova Iorque não está. Nem na Vila do Sapo, nem no Jardim Abobrinha. Mas é que “Hoje percebi que venho me apegando as coisas materiais que me dão prazer. Será que eu morrer de dor?” Eu não com certeza. “Será que vou virar bolor?” Eu não!” Mas se eles são bonitos sou Luiz Carlos Cichetto, se eles são famosos eu sou Barata e se eles rezam muito eu já fui pro… Inferno. Mais louco é quem? Me diz! Desculpe, sei eu fiz você chorar… Mas é tudo Rock’n’Roll…

Esta fábula é dedicada a todos áqueles rebeldes de antão que não souberam envelhecer porque nunca foram rebeldes e a todos aqueles que entendem a rebeldia como condição artística sine qua non e não apenas um momento juvenil que depois será transformado em dólares que garantam sua velhice carcomida pelas irresponsabilidades que eles travestiam de rebeldia.

24/11/2006

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

5 1 Vote
Avaliação do Artigo
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários