Sou a Coisa Que Lhes Pondera

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Barata Cichetto


Que coisa besta é essa? Pergunta o leitor que acabou de chegar. Eu respondo que sou a coisa que lhe pondera, e ele diz, pudera, já era tarde para chegar. E quem me dera ser a coisa que não era, coisa de outra Era, quando ainda era possível ponderar. Mas chega o idiota e diz que não foi chamado a ponderar. E eu lhe digo, é claro, pondere. E ele se põe a ponderar. E enquanto o idiota atira facas para todos os lados, fico sossegado no meu canto, esperando alguma delas acerte sua própria testa. E só o que resta é ser apenas a coisa, sentado no canto da sala a ponderar. Sou a coisa que lhes pondera, o fogo que lhes incinera; sua quimera; à vera; que não encera, apenas encerra. Sou a coisa que lhe causa coceira, urticária, dor de dente, e flatulência; a coisa que abomina, que te domina e extermina. Barata na mosca da sopa do coco do cavalo do bandido. Raul Seixas foi e nunca mais será. E eu, que não sou mosca nem mosco na beira, sou Barata em fim de feira, paro na beira do precipício e no muro do hospício, grito bem alto para todos os doidos escutarem, enquanto os médicos perguntam: que coisa é essa que incomoda tanto? E eu respondo, sem abrir os olhos, que sou a coisa que lhes pondera, e o fogo que lhes incinera.

18/09/2018

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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