“Sob a Luz do Farol” e “De Espantalhos e Pedras Também Se Faz Um Poema”

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Barata Cichetto


É muito triste o que políticos interesseiros e interessados fizeram conosco. Quando resolveram criar o “nós contra eles”, e toda essa política nojenta de apartheid humano e cultural, unicamente visando seus próprios interesses, e usando a velha tática do “dividir para conquistar”. Lembro bem quando isso começou, e veio quase junto com a onda do “politicamente correto”. Até então, não tínhamos problemas com pessoas que tinham visão política diferente. O que importava era nosso trabalho, nosso pensamento como indivíduo. Aí eles chegaram com suas patas fendadas de bodes fedorentos que são, e jogaram-nos uns contra os outros. O preço foi alto, especialmente dentro da cultura.

Neste caso especificamente, uma pessoa que eu admirava pela qualidade de escritor e poeta, e por sua visão de mundo, e a quem convidei para escrever colunas dentro do site A Barata, ainda em 2002, que na época era extremamente bem lido. Prezava tanto que lhe pedi que escrevesse um prefácio à minha “Autobiografia Não Autorizada”, que ele fez, tecendo inúmeros elogios à minha escrita e pessoa. (Claro que entendo que ninguém convidado a escrever um prefácio iria espinafrar o autor).

O tempo passou, e chegamos a 2018, e as antigas conversas e visualizações de postagens desse meu amigo desapareceram. Até que um dia posto no Facebook um texto falando sobre esse meu livro e… Marco o autor do prefácio. Para minha surpresa, ele me envia uma mensagem muito raivosa, dizendo coisas como “quero que esqueça e apague tudo que eu disse sobre você. Você critica o PT e sou filiado ao Partido”. E toda essa conversa que todos sabem como termina. Apenas disse a ele que, virtualmente eu retiraria, mas que o livro havia sido impresso e vendido, e que muitas pessoas o tinham, portanto, aquilo estava, como se diz, gravado.

Respeitei seu pedido quanto a coisas na Internet que ele escreveu sobre mim, e o tal prefácio está mesmo somente no livro, mas, querido Viegas Fernandes da Costa, não podes me impedir de mostrar o que escrevi sobre seus livros que, aliás, eu ainda tenho e jamais me desfaria, porque são maravilhosos. Ainda sou o mesmo, que ama a poesia, a literatura, e especialmente, os amigos. E espero, sem muito esperar, que toda essa cisão um dia acabe.

Seguem duas resenhas que fiz sobre dois livros de poesia. Não tenho anotado as datas que foram escritas.

BC, Março, 2024

Sob a Luz do Farol

Conheci Viegas Fernandes da Costa em 2002 e do mesmo jeito que muitos dos colunistas de A Barata: não lembro direito. O que lembro bem foi que lhe pedi, após a idéia de ele ter uma coluna periódica, um texto de apresentação da mesma e ele chegar com uma aula sobre o que era crônica. A partir daí foram um monte de aulas de crônica, do que é ser um cronista, do que é poesia em forma de prosa.

Perdemos o contato por um tempo, não por culpa dele, mas minha, e quando o retomamos, Viegas me conta sobre seu livro “Sob A Luz do Farol”. O Correio Brasileiro é ingrato e demorou um pouco, mas enfim chegou. Abri rápido o envelope e encontrei um volume com uma capa que logo chama minha atenção: um “acrílico sobre tela”, com nome homônimo, de Daiana Schvartz.. Percorro as 130 páginas e depois retorno ao começo: “Porque Lua”. Sim, Viegas, Porque Lua?. Duas páginas de pura poesia, em forma de crônica, emocionante quanto uma despedida, clara e cristalina quanto uma paixão, dura quanto uma saudade. O restante do livro deve ser lido não apenas sob a luz do farol, mas também sob a luz da emoção e da arte. É, sob a luz da razão também pode, se você achar necessário.

E “Sob a Luz do Farol” é assim: emoção e arte. E não existe emoção que resista á arte, e não há arte que resista à emoção. Entre as duas, Viegas ficou com ambas. Bígamo, ele ama e entende tanto a uma quanto a outra. E ficamos nós, a lastimar e invejar porque também não fomos abençoados pelos Deuses com as mesmas bênçãos. Mas eles sabem porque, e apenas os que foram agraciados pelas honras da Arte e da emoção conhecem o caminho e a razão dos deuses.

Quanto á mim, resta apenas agradecer aos Deuses da Arte e da Emoção por proporcionarem o prazer de poder, com um pequeno trabalho, ajudar a mostrar a um planeta tão carente, mesmo que não perceba, de arte e emoção, o trabalho de Viegas Fernandes da Costa. Algumas pessoas nascem para brilhar… E outras para acender a luz.

Sob a Luz do Farol
Viegas Fernandes da Costa
Crônicas
2005
Hemisfério Sul
136 Páginas

De Espantalhos e Pedras Também Se Faz Um Poema

As emoções em “de espantalhos e pedras também se faz um poema”, novo livro do historiador, professor e escritor Viegas Fernandes da Costa, começam quando a gente apanha nas mãos o volume de 66 páginas. E a primeira delas é a emoção causada pelo olfato: o livro tem um cheiro diferente, pois foi impresso em antigas máquinas de tipografia, cujas tintas têm um odor característico; continua com o tato, com as depressões e relevos provocados pelo “esmagamento” das fibras do papel pelos tipos de chumbo. As letras são tridimensionais, não apenas impressões digitais sem identidade, frias, estampadas a laser. As emoções não param e prosseguem com a visual, causada pela imperfeição e falhas na impressão no processo quase que manual, sem aquela “perfeição tecnológica” dos modernos – e frios – sistemas ligados à computadores. Portanto, antes mesmo de começarmos a ler “de espantalhos e pedras também se faz um poema”, somos conquistados pelas emoções, antes de saborear os poemas, sentimos o gosto da humanidade, tendo claro que foram seres humanos, gente, que construíram aquele livro. Tudo muito quente.

Então começamos a folhear e logo na introdução, escrita pelo próprio poeta, outro nocaute emotivo, nos alertando que estamos em uma sociedade de poucos sentimentos e muita tecnologia. Tecnologia demais, emoção de menos. “Já cansei de ouvir os arautos do fim do livro em seu porte tradicional: com páginas de papel, capa, autor e cheiro de mofo. Há de se instaurar o império do código binário, dos bits e chips, dessa coisa amorfa que ainda chamaremos de livro, mas sem o fetiche que este sempre carregou, sem este apelo tátil de pele sobre papel – ou vice-versa.” Escreve Viegas, para em seguida relatar a emoção sentida por ele ao acompanhar o processo de nascimento do livro, à emoção de “estar na presença física do livro”, que toma forma pelas mãos hábeis do tipógrafo experiente, que ali é uma espécie de comparsa do poeta, reescrevendo letra a letra seu poema.

Tipos de chumbo, invertidos, segurados delicadamente com a pinça e encaixados um ao lado do outro em uma placa de metal. Letra por letra, símbolo por símbolo, os poemas tomam forma, corpo e fazem com que o sentimento e a verdade criadas pela mente e o coração do poeta, se transformem em sentimentos e verdades palpáveis com olfato e cor. “Sim, este livro existe além do livro.” Prossegue o poeta, repórter do nascimento de sua própria criação, para depois assumir o papel de revolucionário que cabe a todos os poetas que o sejam por dom e ofício, a pretensão de ostentar tal título: “Este livro, impresso na linotipo, é uma afronta aos livros pós-industriais, pós-modernos, pós-livros. Que assim seja!” Amem!

No final da apresentação, Viegas sugere ao leitor um exercício de sentidos…. E assim fizemos e desta forma retornamos ao início do presente texto. Cumpramos, portanto sua sugestão e amemos “de espantalhos e pedras também se faz um poema”, façamos-lhe amor, “pois que ainda existe!”.

Quanto aos poemas em si, sendo eu também um pedreiro das palavras, poeta também de ofício, que irei comentar. Poemas não são para serem analisados, nem criticados, nem entendidos: poemas são para serem sentidos. E no caso de “de espantalhos e pedras também se faz um poema”, os poemas são para serem sentidos não apenas pela emoção causada pelas palavras que criam sensações, mas pelo tato, pelo olfato, pela visão. E a uma única frase possível: de tipos e chumbo também se faz um poema… ou vários… não é mesmo Viegas? Não é mesmo, Sr. Bernardo?

De Espantalhos e Pedras Também Se Faz Um Poema
Viegas Fernandes da Costa
Poemas
2008
Cultura em Movimento
66 Páginas

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e Livre Pensador.

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