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Sem Eira Nem Beira

Renato Pittas

Caminhava pelas ruas da cidade, onde os arranha-céus de vidro tocavam as nuvens artificiais e drones zumbiam como abelhas, entregando pacotes a uma população sempre conectada. Ele se sentia um estranho, um deslocado, como se estivesse preso entre duas realidades.

Refeito, mas ainda o mesmo. Essa era a sensação que o acompanhava desde o acidente. Havia sido um dos primeiros a passar pelo processo de reconfiguração corporal, uma tecnologia revolucionária que prometia consertar qualquer dano físico. O projeto-piloto, chamado de “Renascimento”, garantira-lhe um novo corpo, mas não conseguira apagar as cicatrizes de sua alma.

A cada passo, ele sentia o metal sob a pele, uma mistura de biotecnologia e nanotecnologia que mantinha seu coração batendo e seus pulmões funcionando. Porém, a dor da perda e a sensação de vazio eram partes que a ciência ainda não conseguira preencher.

Parou diante de uma tela holográfica que exibia notícias em tempo real. As manchetes falavam de avanços na terraformação de Marte, novos recordes de velocidade em veículos hiperloop e a descoberta de uma possível cura para o envelhecimento. Suspirou, sentindo-se cada vez mais desconectado do mundo ao seu redor.

Sem eira nem beira, pensou. A frase ecoava em sua mente como um mantra sombrio. Ele havia perdido sua família no acidente que o reconfigurara, e apesar de ter um corpo novo, sua alma ainda estava presa ao passado. Tentava encontrar um propósito, algo que lhe desse razão para continuar.

Foi então que viu um anúncio discreto no canto da tela holográfica: “Recrutamento para Missão de Reconstrução em Altair IV. Precisamos de pioneiros com coragem e determinação.” Algo naquele anúncio chamou sua atenção. Era uma chance de começar de novo, longe das memórias dolorosas.

Decidiu que essa era a oportunidade que precisava. Partiria para Altair IV, um planeta em processo de colonização, onde poderia recomeçar de verdade, talvez encontrar uma nova família, um novo propósito. Sem eira nem beira, mas com a esperança de que, em um novo mundo, poderia finalmente deixar o passado para trás e se encontrar.

Não perdeu tempo. No dia seguinte, estava no terminal de transporte interplanetário, observando a frota de naves que aguardava para partir rumo ao desconhecido. O brilho das estrelas artificiais iluminava seu rosto enquanto ele segurava seu pequeno pacote de pertences – algumas roupas, um diário velho e uma foto desbotada de sua família.

A nave, chamada de “Novus,” era um colosso de metal e tecnologia avançada. As paredes internas brilhavam com luzes suaves, projetando uma sensação de calma e segurança. Encontrou sua cabine e se acomodou, tentando afastar a ansiedade que sentia. O salto para o hiperespaço seria sua passagem para uma nova vida, e ele estava determinado a fazer com que desse certo.

Durante a viagem, conheceu outros colonos. Havia cientistas, engenheiros, agricultores e aventureiros de todos os tipos. Cada um carregava suas próprias histórias e esperanças, e encontrou consolo em saber que não estava sozinho em sua busca por um novo começo. Ele se aproximou especialmente por ela, uma botânica que tinha um sorriso gentil e uma visão otimista do futuro.

Os dias na nave eram uma mistura de treinamentos e preparativos. Se dedicou a aprender sobre os sistemas de suporte de vida e as técnicas de construção necessárias para estabelecer a colônia em Altair IV. Sua mente estava focada na tarefa à frente, e aos poucos, ele começou a sentir uma centelha de propósito crescendo dentro de si.

Quando finalmente chegaram a Altair IV, o panorama que se desenrolou diante deles era ao mesmo tempo deslumbrante e desafiador. O planeta tinha vastos campos de vegetação exótica, montanhas majestosas e um céu tingido de cores vibrantes. Contudo, também havia perigos. As tempestades elétricas e a fauna local eram ameaças constantes que exigiriam vigilância e adaptação.

Junto com os outros colonos, começou a trabalhar arduamente. Cada dia era uma batalha contra os elementos, mas também uma vitória pessoal. Ele se sentia vivo de uma maneira que não sentia há muito tempo. A colaboração com a bióloga se intensificou, e eles encontraram uma sinergia inesperada que resultou em avanços significativos na preparação do solo para cultivo.

Em uma noite estrelada, após um dia exaustivo de trabalho, sentaram-se ao redor de uma fogueira improvisada. O calor da chama os aquecia enquanto observavam o céu, um espetáculo de constelações desconhecidas.

“Você acha que conseguimos?” perguntou ela, com os olhos refletindo as chamas.

“Sim,” respondeu, com um sorriso que ele não sentia há anos. “Estamos construindo algo real aqui. E acho que, finalmente, encontrei um lugar onde posso ser eu mesmo.”

Os dias se transformaram em semanas, e as semanas em meses. A colônia prosperou e cresceu, e com ela, o espírito dele. Havia encontrado não apenas um novo lar, mas uma nova família e um propósito que preencheu o vazio que carregava.

Assim, novamente refeito, mas desta vez com eira e beira, construiu uma nova vida, onde as cicatrizes do passado se tornaram as bases para um futuro brilhante.

Os meses continuaram a passar, e a colônia transformou-se de um amontoado de tendas e estruturas temporárias em uma comunidade vibrante. Tornou-se uma figura central na colônia, respeitado por sua resiliência e dedicação. Ele e ela continuaram a trabalhar juntos, suas habilidades complementando-se perfeitamente.

Certa tarde, enquanto caminhavam pelos campos que agora floresciam graças aos seus esforços conjuntos, ela parou e olhou para ele. “Você fez mais do que apenas sobreviver aqui. Você ajudou a criar algo que vai durar. Isso é incrível.”

Ele sorriu, sentindo um calor profundo em seu peito. “Não poderia ter feito isso sozinho. Todos nós contribuímos para isso.”

Os dias de trabalho eram longos, mas havia uma satisfação crescente em cada tarefa completada. Os colonos começaram a construir lares permanentes, e a comunidade se uniu em festivais que celebravam suas conquistas. Ele, que antes era um homem sem eira nem beira, agora encontrava-se cercado por amigos e por uma nova família.

Uma noite, durante um desses festivais, João pegou seu diário antigo. Ele abriu na última página e encontrou a foto desbotada de sua antiga família. Olhou para a foto por um longo tempo antes de fechar o diário e olhar para as estrelas no céu. Sentiu uma paz que não sentia há muito tempo. Seu passado não o definia mais. Em vez disso, ele era definido pelo presente que havia ajudado a construir.

Ela se aproximou e sentou ao seu lado, segurando sua mão. “Você está bem?” perguntou, com um sorriso caloroso.

“Estou,” respondeu, olhando para ela. “Estou realmente bem.”

No coração dele, as cicatrizes do passado haviam finalmente se transformado em uma força que o impulsionava. Ele havia encontrado não apenas um novo mundo, mas também um novo propósito e uma nova família. Aqui, ele tinha um lar.

Assim, concluiu sua jornada de ser alguém sem eira nem beira para um pioneiro e líder em uma nova fronteira. Seu renascimento não foi apenas físico, mas espiritual. Ele havia encontrado sua verdadeira essência em um planeta distante, onde as estrelas iluminavam não apenas o céu, mas também seu caminho para um futuro repleto de esperança e realização.

Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador.
Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs

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