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Samizdat 10 – Da Prensa de Gutenberg à Censura Moderna: A História Revelada dos Livros Proibidos

Barata Cichetto

A censura é o imposto da inveja sobre o mérito.
— Laurence Sterne 1713–1768

Desde a invenção dos tipos móveis por Johannes Gutenberg por volta de 1440, que possibilitou a impressão em larga escala de livros, jornais e outros meios de comunicação, a censura aos livros sempre foi uma das mais fortes, intensas e cruéis. Não que antes disso, quando livros eram copiados à mão por monges, ela não existisse, mas era mais por uma conotação exata de censura, já que esses não tinham o objetivo de serem colocados ao público, mas reservados a algumas classes.

Da mesma forma que atualmente muitos combatem as redes sociais, com até escritores como Umberto Eco ecoando um Ministro do Supremo por “darem voz aos idiotas”, o mesmo aconteceu com a popularização da literatura escrita, pois se antes, como acima descrito, a produção literária era restrita a pouquíssimos, a impressão de livros e jornais passou a dar oportunidade para muitos mais terem acesso não apenas a informações, mas a pensamentos antes praticamente impossíveis.

Claro que isso desagradou muitos setores poderosos da sociedade, como a Igreja e os governos, porque afinal, muita gente com informação e acesso a pensamentos pode ser muito perigoso ao sistema. E assim, com certeza, os livros foram o primeiro alvo de censores, pois até pela natureza dos jornais, que eram tidos apenas como transmissores de notícias e logo descartados, os livros, impressos e encadernados, passaram a ser lidos, guardados e novamente consultados.

A censura de livros tem uma longa história, um fenômeno antigo, frequentemente ligado a conflitos religiosos, políticos e ideológicos. Um dos primeiros livros notavelmente censurados foi “As Aventuras de Telêmaco”, escrito por François Fénelon e publicado em 1699. Esta obra foi alvo de censura devido ao seu conteúdo político e social, enfrentando restrições em vários lugares devido às críticas implícitas ao regime francês da época.

No entanto, em termos de um dos primeiros livros amplamente reconhecidos e documentados como censurado, a “Biblia Sacra Vulgata”, a tradução da Bíblia para o latim por São Jerônimo no final do século IV, também enfrentou várias formas de censura e restrição ao longo dos séculos, particularmente em contextos onde a interpretação das escrituras era rigidamente controlada pela Igreja.

O livro mais censurado da história da humanidade é frequentemente considerado a Bíblia. Ao longo dos séculos, diferentes versões da Bíblia foram proibidas, queimadas e suprimidas em diversos contextos culturais, religiosos e políticos. A censura da Bíblia ocorreu em várias épocas e lugares, desde a Idade Média até tempos mais modernos, devido a disputas teológicas, políticas e sociais.

Quanto ao Brasil, o primeiro livro censurado foi “O Parnaso Obsequioso” (1705), uma coletânea de poemas eróticos, satíricos e burlescos, publicada anonimamente. A censura ocorreu devido ao conteúdo considerado obsceno e moralmente inadequado para a época.

Barata Cichetto, 09/07/2024

A seguir uma matéria interessante, que faz um resumo da Censura de livros mundo e tempos à fora, publicada no site “Quatro Cinco Um”, e uma listagem de livros Censurados no Brasil, feita pela IA do ChatGPT

Arte Por Leonardo AI

Um Recorte da História de Livros Perigosos

Redação Quatro Cinco Um | 24/02/2023 | Edição #67

Cronologia de violações à liberdade de expressão e censura de títulos no Brasil e no mundo

Desde que uma parte considerável da população mundial passou a ser alfabetizada e ter acesso à leitura, detentores de poder identificam a força das palavras e lançam tentativas de suprimir a liberdade de expressão e o acesso a livros e ideias. Por anos, a Bíblia não pôde ser publicada em outra língua que não o latim, para evitar que os leigos fizessem suas próprias interpretações do texto religioso. Ao longo do século passado, diversas perseguições estavam relacionadas ao conteúdo religioso ou ao posicionamento político das obras. Infelizmente, essa mentalidade persecutória não ficou no passado — desde julho de 2021, cerca de 1.650 títulos foram banidos em alguma instância pública nos Estados Unidos, atitude que repercute também no Brasil, principalmente em relação a obras que abordam temas como racismo, sexo, sexualidade e gênero.

1637 – 1º Livro Banido nos EUA

The New English Canaan“, do advogado inglês Thomas Morton, é considerado o primeiro livro a ser explicitamente banido na história dos Estados Unidos. A obra traz críticas severas aos costumes puritanos e aos colonizadores da América do Norte e é considerada pelo governo um ataque aos bons costumes e desafiador às autoridades vigentes, além de herético. Um exemplar da primeira edição foi leiloado pela Christie’s por US$ 60 mil em 2019.

1922 – Ulysses Proibido

A obra-prima de James Joyce, Ulysses, tem a sua publicação e venda proibidas nos Estados Unidos. Segundo os censores, o romance tinha teor obsceno, além de conter pornografia e blasfêmia. Somente em 1933, por decisão do juiz John M. Woolsey, a proibição foi revogada. Na decisão, o juiz afirma que embora descreva relações sexuais, mesmo que desagradáveis, a literatura séria deve ter a permissão de expressá-las.

1937 – Jorge Amado na Fogueira

Em Salvador, Bahia, as autoridades do Estado Novo, ditadura comandada por Getúlio Vargas, queimam em uma fogueira 1,8 mil livros supostamente simpatizantes do comunismo. A maioria era assinada por Jorge Amado, incluindo 808 exemplares de seu recém-lançado Capitães da Areia.

1953 – Fahrenheit 451

Publicado em outubro de 1953, no auge da campanha de caça aos comunistas liderada pelo senador Joseph McCarthy, o romance de Ray Bradbury é um retrato distópico da sociedade norte-americana, no qual o pensamento crítico é reprimido e os livros são proibidos e queimados. O título é uma referência à temperatura de combustão do papel — 451º Fahrenheit (ou 233º Celsius) — e inspirou o nome da revista dos livros.

1968 – Ditadura Militar

É instaurado no Brasil o AI-5. Durante a vigência do Ato Institucional, são censurados no país cerca de quinhentos filmes, 450 peças de teatro, duzentos livros, cem revistas e quinhentas letras de música. No ano da criação do Ato, uma bomba explode contra o portão da editora Civilização Brasileira, no Rio de Janeiro. Os autores do atentado são simpatizantes da Aliança Anticomunista Brasileira, segundo panfletos encontrados no local. A editora teve dezenas de livros apreendidos pela polícia do Rio de Janeiro.

1970-76 – Censura no Brasil

1970 –  É aprovado o decreto-lei que permite a censura prévia no país.
1972 – O jornal O Estado de S. Paulo passa a ser censurado previamente por uma equipe instalada na redação.
1974 – Rasga coração, última peça escrita por Oduvaldo Vianna Filho, é censurada.
1976 – O romance Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, considerado atentatório à moral e aos bons costumes, é proibido de circular no Brasil. O jornal Opinião, que teve 221 dos seus 230 números feitos sob censura prévia, sofre um atentado a bomba.

1982 – Resistência às Proibições

A Semana dos Livros Proibidos é criada nos Estados Unidos. O evento surge como reação a um aumento repentino de ameaças à liberdade de expressão em escolas, livrarias e bibliotecas. Durante a Semana, até hoje realizada no mês de setembro, o Departamento de Liberdade Intelectual da Associação Americana de Bibliotecas apresenta listas de livros ameaçados compiladas a partir de reportagens e de denúncias de professores e bibliotecários de todas as regiões do país.

1986 – Um Nobel em Chamas

Durante a ditadura de Pinochet, no Chile, 15 mil exemplares do livro A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile, de Gabriel García Márquez, são queimados após serem confiscados no porto de Valparaíso. Os livros apreendidos deveriam ser entregues à editora chilena que publicava as obras de García Márquez, vencedor do Nobel de Literatura em 1982. A reportagem literária conta as complicações do cineasta Miguel Littín, que estava exilado desde o golpe de 1973.

1988-93 – Versos Satânicos

1988 O romance de Salman Rushdie é publicado.
1989 O aiatolá Ruhollah Khomeini emite um edito religioso recompensando quem matasse o escritor e seus editores por cometerem blasfêmia. Rushdie sofre tentativa de homicídio em Londres.
1991 O tradutor italiano de Versos satânicos, Ettore Capriolo, é atacado em sua casa em Milão. O tradutor japonês Hitoshi Igarashi é esfaqueado e morto na Universidade de Tsukuba, onde lecionava.
1993 O editor norueguês William Nygaard é baleado ao sair de sua casa, em Oslo.

2019 – Beijo Gay na Bienal

Na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, então prefeito da cidade, manda fiscais da prefeitura recolherem a HQ Vingadores: a cruzada das crianças, que traz na capa dois homens se beijando. O prefeito anuncia que censuraria o livro, mas o STF derruba a medida que autorizava a prefeitura carioca a censurar obras no evento.

2021 – Estados Censores

Autoridades de 26 estados norte-americanos lançam ações para banir livros em escolas e bibliotecas públicas. Desde então, cerca de 1.650 títulos foram censurados. De acordo com a ong de defesa à liberdade de expressão Pen America, proibições atingem principalmente livros que abordam identidade racial e de gênero, sexualidade, temática LGBTQIA+, justiça social, racismo, violência e suicídio. Defensores dos vetos alegam que os banimentos protegem as crianças.

2022 – Ano Desafiador

Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie, é banido de salas de aula em Hudsonville, Michigan. A HQ Maus, de Art Spiegelman, sofre proibições no Tennessee. Gender Queer, graphic novel de Maia Kobabe em que ela conta se descobrir não binárie e não bissexual, torna-se o livro mais banido dos Estados Unidos. Em agosto, Salman Rushdie é esfaqueado no palco de um festival literário em Chautauqua, Nova York, prestes a falar, justamente, sobre liberdade de expressão.

Arte do Site: Que Bicho Te Mordeu

Obras Literárias Censuradas no Brasil
— Chat GPT

Período Colonial e Imperial

• O Uraguai – Basílio da Gama (1769): Censurada por críticas à Companhia de Jesus.
• Primeira República (1889-1930)
• O Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto (1915): Enfrentou resistência por suas críticas sociais e políticas.

Era Vargas (1930-1945)

• Capitães da Areia – Jorge Amado (1937): Censurada por suas descrições realistas da vida de crianças de rua.

Ditadura Militar (1964-1985)

• O Que É Isso, Companheiro? – Fernando Gabeira (1979): Censurada por relatar a luta armada contra o regime militar.
• Zero – Ignácio de Loyola Brandão (1975): Censurada por críticas ao regime militar e por seu conteúdo considerado subversivo.
• Roda Viva – Chico Buarque (1968): Censurada tanto a peça de teatro quanto a publicação, por críticas ao regime.
• Feliz Ano Novo – Rubem Fonseca (1975): Censurada por seu conteúdo violento e realista.
• O Caos – Carlos Heitor Cony (1965): Censurada por suas críticas políticas.
• Memórias do Cárcere – Graciliano Ramos (1953): Embora escrito antes da ditadura, foi alvo de censura pela descrição da vida prisional durante o Estado Novo.
• Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez (1967): Embora não fosse uma obra brasileira, foi censurada no Brasil por ser considerada subversiva.
• As Meninas – Lygia Fagundes Telles (1973): Censurada por abordar temas políticos e sociais sensíveis durante a ditadura.
• A Moreninha – Joaquim Manuel de Macedo (1844): Relançada durante a ditadura e censurada por insinuações políticas nas novas edições.
• Mar Morto – Jorge Amado (1936): A censura perdurou durante a ditadura militar por seu conteúdo considerado subversivo.

Redemocratização e Período Contemporâneo (1985-Presente)

• Cidade de Deus – Paulo Lins (1997): Enfrentou resistência e tentativas de censura por descrever a violência nas favelas.
• O Doente Molière – Rubem Fonseca (1994): Tentativas de censura por conteúdo considerado violento e impróprio.
• Chatô: O Rei do Brasil – Fernando Morais (1994): Temporariamente censurada devido a processos judiciais por familiares de personagens retratados no livro.
• Roberto Carlos em Detalhes – Paulo César de Araújo (2006): Censurada após uma decisão judicial favorável ao cantor Roberto Carlos, alegando invasão de privacidade.
• Aparelho Sexual e Cia – Hélène Bruller e Zep (2007): Recolhido das escolas públicas em 2011 pelo MEC após críticas de grupos conservadores.
• Minha Luta – Adolf Hitler (1925): Recolhido em 2019 devido à sua natureza ideológica.
• Livros LGBTQ+ na Bienal do Livro do Rio de Janeiro (2019): Tentativa de recolhimento pela prefeitura do Rio de Janeiro, barrada pelo STF.
• O Meu Menino Vadio – Luiz Fernando Vianna (2018): Recolhido das escolas públicas por apresentar críticas à gestão educacional e à inclusão de alunos com deficiência.
• Vamos Comprar um Poeta – Afonso Cruz (2016): Tentativa de censura em escolas do Rio de Janeiro, alegando que a obra criticava o consumismo.
• Revista Crusoé (2019): Alvo de censura judicial após reportagem envolvendo o ministro do STF Dias Toffoli, posteriormente revertida.
• Livros escolares em Rondônia (2020): Tentativa de banimento de 42 obras clássicas da literatura de escolas públicas, revertida após protestos.

Leia Também:
Os Que Derrotaram a Censura“:

Este é o número 10 de uma série de textos sobre Censura, no Brasil e no mundo. Alguns escritos por mim, alguns serão apenas listas, outros tantos retirados de outros sites com os devidos créditos, e alguns até elaborados com ajuda de Inteligência Artificial.

Publicado em: 09/07/2024

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e co-fundador da Editora Poetura. Um Livre Pensador.
Contato: (16) 99248-0091

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genecysouza@yahoo.com.br
09/07/2024 22:46

Mais um texto dos bons!
Dando uma olhada no site Quatro Cinco Um, no tópico que cita a queima de livros de Jorge Amado em 1937, cabe observar que o escritor era um entusiasta do regime soviético, que não apenas censurava, mas perseguia e prendia escritores considerados incômodos ao regime comunista. Então, a incineração criminosa de seus livros acabavam denunciando a hipocrisia de JA.

Barata Cichetto
Administrador
Responder a  [email protected]
09/07/2024 23:14

Sim, que Jorge Amado era um comunista ferrenho é de conhecimento (quase) público, mas nesse caso, quando o assunto é Censura, deixo de lado as preferências políticas de cada um, o que importa é que tiveram livros censurados.

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