Censura - Criado Com Leonardo IA

Samizdat 08 – Samizdat: Resistencia Literária na União Soviética

Barata Cichetto

A censura é a inimiga feroz da verdade. É o horror à inteligência, à pesquisa, ao debate, ao diálogo. Decreta a revogação do dogma da falibilidade humana e proclama os proprietários da verdade.
— Ulysses Guimarães – Político Brasileiro, 1916–1992

Quase tão antiga quanto a censura, é a capacidade humana de resistir a ela. A liberdade, sendo a mais humana das necessidades, sempre foi o motor que fez avançar contra a tirania de ditadores tempos a fora. Embora também tenham sempre existido os conformados e os conformistas, os inconformados com qualquer tipo de censura sempre conseguiram uma maneira de burlar, seja de forma pacífica ou de natureza violenta, porque não existe de fato violência maior contra um indivíduo e uma sociedade do que lhe ser tolhido o direito de ler, ver, ouvir o que aprouver, sem nenhum Estado, pessoa ou instituição, lhe dizendo o que pode e o que não pode.

Muitos dirão que censura é algo relativo, outros afirmarão a necessidade de censura para resguardar valores sociais ou morais, mas não acreditem nessa falácia, por parte de ditadores — sim, ditadores, porque qualquer um que cometa censura é um ditador, não importando os motivos e justificativas venham a dar para esse ato hediondo, que deve ser considerado como o que de fato é: um crime contra a humanidade.

Historicamente, há inúmeros momentos em que as pessoas usaram artimanhas e processos para burlar a censura imposta, quase sempre por líderes tirânicos dispostos a tudo para manterem seus postos, não poupando violência, expurgos, assassinatos, queima de livros, prisões, etc. E também nos diz a história que muitos desses resistentes sofreram com suas atitudes, até mesmo com a morte.

Historicamente, foram usados métodos e ferramentas diferentes de resistência à censura em diferentes partes do mundo. Esses métodos refletem a tenacidade e a criatividade das pessoas ao longo da história para resistir às tentativas de restringir a liberdade de expressão e o acesso à informação.

Impressão e distribuição ilegal: Em alguns casos, grupos ou indivíduos contrários à censura produziam cópias não autorizadas de livros, jornais ou panfletos e as distribuíam de maneira ilegal para contornar as restrições impostas pelo governo ou autoridades — no Brasil, por exemplo, durante os anos da ditadura militar, eram comuns os “jornaizinhos”, impressos em mimeógrafo à álcool e distribuídos em locais estratégicos, ou entregues via Correio.

O Boletim Baixa Silésia foi produzido em 1981 por ativistas do Solidariedade em uma impressora matricial

Protestos e manifestações: Movimentos populares e protestos são formas diretas de resistência à censura, onde grupos de indivíduos se organizam para demonstrar publicamente sua oposição às políticas ou práticas censoras. Isso pode incluir marchas, ocupações simbólicas de espaços públicos ou greves de mídia.

Litígios e desafios legais: Organizações de direitos humanos, jornalistas e indivíduos muitas vezes recorrem aos tribunais para contestar leis de censura ou decisões administrativas que limitam a liberdade de expressão. Esses litígios podem resultar na revogação de leis censórias ou na proteção de indivíduos contra perseguições judiciais.

Auto-censura criativa: Em situações onde a censura é forte e as consequências severas, alguns artistas e escritores desenvolvem técnicas criativas para comunicar mensagens ou críticas de forma indireta ou simbólica, utilizando metáforas, alegorias e subtexto para evitar detecção direta pelos censores — isso também era comum nos anos 1960/70 no Brasil, com principalmente compositores, usarem de metáforas em músicas para burlar a censura estatal.

Uso de tecnologias alternativas: Em tempos mais recentes, a internet e tecnologias digitais têm sido usadas como ferramentas de resistência à censura. Isso inclui o uso de redes virtuais privadas (VPNs), criptografia e plataformas de comunicação seguras para contornar bloqueios e restrições governamentais à liberdade de expressão online — a isso é o que chamo de Samizdat tecnológico, onde, em vez de usar papel carbono, máquinas de escrever ou canetas, usam-se ferramentas tecnológicas para afrontar a censura dos tempos modernos.

Publicação clandestina e distribuição subterrânea (Samizdat): Esse método foi amplamente utilizado em regimes totalitários, como na União Soviética durante o período da Guerra Fria. Dissidentes políticos e escritores produziam cópias manuscritas ou datilografadas de obras proibidas e as distribuíam clandestinamente entre amigos, familiares e simpatizantes.

Assim, finalmente, chegamos ao mote desta série, que é o Samizdat, uma prática nos tempos da União Soviética destinada a evitar ou burlar a censura imposta pelos governos dos partidos comunistas nos países do Bloco Oriental, sob a tirania de ditadores como Joseph Stalin, Nikita Khrushchev, Leonid Brezhnev, Yuri Andropov e Konstantin Chernenko. Ali, indivíduos e grupos copiavam textos que não podiam ser publicados, geralmente em máquinas de escrever, e os distribuíam clandestinamente.

Samizdat representa uma forma de resistência literária contra a censura, destacando a flexibilidade e adaptabilidade dos escritores e leitores em contextos repressivos. Apesar das dificuldades, essas práticas mantiveram viva a circulação de ideias e obras literárias, deixando um legado duradouro na história da literatura e da liberdade de expressão.

Barata Cichetto, 08/07/2024

Artistas de Minsk visitando Łarysa Hienijuš em sua casa em Zelva, 24 de junho de 1981. Fonte vytoki.net

A seguir, pedi à IA do Chat GPT um breve resumo sobre Samizdat:

Origem do Nome e Definições
Etimologicamente, a palavra samizdat deriva de sam (por si mesmo) e izdat (editora), significando publicado por conta própria. O poeta russo Nikolay Glazkov cunhou uma versão do termo como um trocadilho na década de 1940, quando digitou cópias de seus poemas e incluiu a nota Samsebyaizdat (publicada por eu mesmo) na primeira página.

Definir Samizdat não é simples, já que uma variedade de formas de distribuir literatura sempre existiu. Segundo o Dicionário Oxford, é a cópia e distribuição clandestina ou ilegal de literatura (originária e principalmente na URSS). Yuri Andropov, então presidente da KGB, chamou-o de literatura fora da censura, geralmente manuscrito datilografado ou manuscrito, passado de mão em mão e reproduzido em fotocopiadoras e duplicadoras. Vladimir Bukovskii descreveu-o em termos cômicos: Samizdat: eu mesmo escrevo, edito, censuro, publico, distribuo e passo tempo na prisão por causa disso.

Variedades de Samizdat
Termos parecidos foram cunhados para se referir a variantes do Samizdat. Tamizdat refere-se à literatura publicada no exterior (tam significa lá), geralmente a partir de manuscritos contrabandeados. Magnizdat refere-se a reproduções de áudio. Essas práticas fazem parte do que se chama Guerra Fria Cultural, onde livros e materiais eram usados como propaganda contra a União Soviética.

História e Evolução
Na Rússia, textos que circulavam de forma autônoma existem desde os tempos czaristas. Samizdat como uma prática de massa começou com a cópia da poesia de escritores como Anna Akhmatova e Boris Pasternak, inacessíveis para leitores soviéticos. O historiador Peter Steiner sugere que Samizdat realmente começou após o fim do stalinismo, no ambiente menos repressivo do Degelo. O termo é usado retroativamente para descrever práticas anteriores, com proto-Samizdat referindo-se aos tempos pré-soviéticos.

Técnicas de Produção e Distribuição
A maioria das cópias de Samizdat foi feita manualmente, em máquinas de escrever, ou fotografando e imprimindo páginas. Os textos frequentemente apareciam como folhas de papel soltas, lidas coletivamente. A falta de padronização era comum: textos eram alterados de copista para copista, resultando em versões com variações significativas.

Controle Literário e Repressão
A criação da União dos Escritores Soviéticos em 1934 foi um passo importante no controle da produção literária. Casos famosos de repressão incluem o julgamento de Joseph Brodsky por parasitismo social e o Processo Siniavskii-Daniel, onde ambos foram condenados por enviar obras de ficção ao exterior. Em 1966, novas leis foram criadas para abordar a questão da publicação clandestina, dificultando ainda mais a distribuição de Samizdat.

Análise Cultural
Samizdat gerou práticas próprias entre comunidades alternativas. Autores excluídos da imprensa oficial realizavam leituras em voz alta em ambientes privados, revivendo formas de interação literária que haviam desaparecido com a tiragem em massa. A professora Ann Komaromi define Samizdat como uma cultura Extra-Gutenberg, destacando a ausência de padronização, disseminação e fixidez típicas da impressão tradicional.

Legado
Samizdat continuou ao longo dos anos 1980, distribuindo obras de autores como Bulgákov, Tolkien, Akhmátova e Vissótski. Com o fim da União Soviética nos anos 1990, a prática deixou de ser necessária para burlar a censura.

Os Homens Que Copiavam
Russia Beyond | Ekaterina Aleeva

Obras de "samizdat", feitas feitas e distribuídas de maneira clandestina para burlar a censura soviética. Nkrita (CC BY-SA 4.0)

Leitores ávidos, os soviéticos não se restringiam aos títulos que encontravam nas livrarias. O ‘samizdat’, cópias caseiras de livros proibidos, foi o método de realização encontrado por muitos escritores que não seguiam as linhas do “realismo socialista”.
Os romances “Doutor Jivago”, de Borís Pasternák, e “Arquipélago Gulag”, de Aleksándr Soljenítsin podem não ter um conteúdo muito parecido, mas uma coisa eles têm em comum: ambos só eram conhecidos pelo público soviético como “samizdat” na União Soviética.

Se hoje eles figuram no ranking dos 20 livros mais importantes do século passado, entre os anos 1960 e 1980 eles eram os proibidões das livrarias soviéticas, mas passavam de mão em mão em cópias caseiras apenas graças às cópias caseiras, tão desejadas por burlar o sistema de censura do país.

Na antiga União Soviética, o Glavit (Diretoria Geral de Proteção dos Segredos de Estado na Imprensa) era o órgão responsável pela censura e controlava tanto a literatura importada, como as publicações nacionais. Mas mesmo com a severa censura, o interesse por livros proibidos tornou o “samizdat” incrivelmente popular.

Filha de um dissidente, Ekaterina Poleschuk conta que seu pai era um dos que produzia e distribuía literatura proibida, a chamada “samizdat”. Apesar de significar, ao pé da letra, “autopublicação”, os esforços de muitos dissidentes que não necessariamente escreviam estavam envolvidos na produção física desses livros.

“Meu pai e seus amigos distribuíam os ‘samizdat’, que conseguiam, provavelmente, vindos do exterior. Foi assim que lemos [Vladímir] Bukóvski, [Borís] Solonovitch, o ‘Ivan Tchonkin’ de Vladímir Voinovitch… Eu sempre me lembro do cheiro de cola fervendo no nosso fogão. Ele fazia tudo, até a capa”, conta Ekaterina.

A novela “A vida e as extraordinárias aventuras do soldado Ivan Tchonkin”, de Voinovitch (1932-) só foi publicada em 1988, mas os leitores mais astutos já conheciam seu conteúdo muito antes, graças aos esforços de gente como o pai de Ekaterina.

“Uma tarde, o papai trazia as páginas de ‘Ivan Tchonkin’ para fazer o livro, colocou na sua mochila e foi para o trabalho. No caminho, um policial o abordou e pediu seu documento, que ele não trazia consigo. Ele o levou à delegacia e revistou sua mochila. Meu pai ficou a noite inteira sentado triste na delegacia, imaginando o pior, enquanto o policial lia as páginas. De manhã, o policial suspirou, colocou as páginas na mochila, cumprimentou meu pai e lhe desejou sucesso, advertindo-o para que fosse mais cuidadoso”, diz.

Os “samizdat” eram cópias feitas, geralmente, a mão ou datilografadas, e o papel carbono facilitava essa produção. Nas cópias a mão, usavam-se canetas esferográficas e papel jornal. Com o papel carbono, era possível produzir três cópias legíveis a mão por vez e até cinco com a máquina de escrever.

Nos anos 1970, também algumas cópias também passaram a ser ´produzidas com impressoras e máquinas de fotocópia.

É paradoxal que até o famigerado discurso secreto de Nikita Khruschov no 20° Congresso do Partido Comunista da União Soviética, que pôs fim ao culto à personalidade de Stálin e iniciou o chamado “degelo”, foi impresso na íntegra apenas por “samizdat”, já que os jornais soviéticos só traziam partes dele.

Além disso, os dissidentes que queriam chamar a atenção para assuntos políticos também faziam uso do “samizdat”. A revista mais famosa desse gênero foi a “Crônica dos Acontecimentos Atuais” (Хроника текущих событий), que foi publicada intermitentemente por 15 anos. Nesse período, mais de metade dos editores da revista foram condenados e enviados ao exílio.

Havia também os “tamizdat”, ou “publicado lá”. Essas obras eram enviadas ao exterior para impressão e depois voltavam à URSS para distribuição.

Um dos casos de “tamizdat” que ganhou maior repercussão foi o julgamento dos escritores Andrêi Siniavski e Iúli Daniel, cujas obras eram publicadas no exterior sob pseudônimos que acabaram revelados na terra natal em meados dos anos 1960.

Os dois foram condenados com base no artigo n° 70 do Código Criminal de então “Sobre agitação e propaganda antissoviética”, que era frequentemente aplicado contra os distribuidores de “samizdat”, mas foram libertados depois.

Entre 1956 e 1987, mais de 8 mil pessoas foram condenadas com base nesse artigo e no n° 190-1, “Sobre a disseminação de invenções falsas difamando o sistema soviético”.

Mesmo obras não consideradas como políticas viam apenas no “samizdat” uma forma de ganhar público.

Foi assim que se publicaram na União Soviética, por exemplo, poetas da Era de Prata , que não ganhavam novas edições e já não eram encontrados nas livrarias do país.

“Publicamos a [Marina] Tsvetáeiva a mão, colávamos as páginas e dávamos para os outros”, lembra Mikhail Sereguin.

Até mesmo notas musicais eram distribuídas por “samizdat”, copiadas a mão. “A gente fazia as pautas musicais com uma máquina de escrever e escrevia as notas à mão. Aí, copiávamos as páginas e as costurávamos”, conta.

A tradição continuou ao longo dos anos 1980, quando Bulgákov, Tolkien, Akhmátova e Vissótski eram distribuídos dessa maneira, e só deixou de ser necessária para burlar a censura nos anos 1990, com o fim da União Soviética.

Este é o número 8 de uma série de textos sobre Censura, no Brasil e no mundo. Alguns escritos por mim, alguns serão apenas listas, outros tantos retirados de outros sites com os devidos créditos, e alguns até elaborados com ajuda de Inteligência Artificial.

Publicado em: 07/07/2024

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e co-fundador da Editora Poetura. Um Livre Pensador.
Contato: (16) 99248-0091

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