Relato de Um Leitor

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Barata Cichetto

Eu sou um leitor. E leitores nunca aparecem nas histórias de escritores. Esses caras são sempre autocêntricos e egoístas, e só sabem escrever sobre eles mesmos. Não conheço um escritor sequer que não tenha escrito alguma estória em que não haja um escritor como protagonista. Então, quando a gente lê, pensa assim: porra, esses sujeito são mesmo é frustrados, e parece que não são capazes de ser nada além de suas próprias histórias. E eu, leitor, como fico nessa?

Então decidi que não leio mais nenhum conto ou romance em que o autor retrate a si mesmo como personagem. Que coisa mais sem graça. Poesia em comento nada, porque poemas são estritamente egocêntricos e a poesia é basicamente uma grande ode ao ego do poeta, mas em conto e romance, cacete, esses autores poderiam ser menos autoindulgentes, autocondescendentes e auto qualquer coisa.

Andei pensando que eu poderia eu mesmo contar uma história, mas ai eu deixaria de ser leitor, e me tornaria um escritor, especialmente se nessa eu contasse a história de um leitor que quer ser escritor. Confuso isso, não? Mas eu poderia simplesmente contar a história de um leitor, um que de nenhuma maneira deseja ser escritor, mas quer mesmo falar sobre si e contar suas experiências. Creio que leitores como eu têm muito mais historias para contar do que os próprios escritores.

Pois bem, deixe— me contar uma história sobre um leitor, um daqueles que não estão minimente interessados no escritor, mas sim no que ele conta, alguém que nunca foi a feiras literárias, lançamentos, e nunca pediu uma dedicatória a um escritor. Um que acha mesmo uma perda de tempo esse negócio de ficar adulando escritores, que de fato não merecem toda a pompa que possuem.

Desde bem pequeno, quando ganhamos um sofá— cama usado cuja parte inferior continha uma porção de livros, que me encantei em ler. Aquele móvel, encardido e fedorento continha mais do que marcas de uso, mas a história de seus antigos donos. Primeiro pensei por que aqueles livros tinham sido doados junto com o sofá, se teria sido esquecimento ou desprezo, mesmo. A primeira coisa eu entendia, mas a segunda não.

E dali, a partir da história do herói gay da independência americana, Alexander Hamilton, e exemplares da “Seleções do Reader’s Digest” e gibis do Superman, eu descobria o que eu queria ser: um leitor. Tenho até agora, devidamente anotados num caderno onde registro nomes e datas de leituras, mais de cinco mil livros lidos, numero alcançado em quase cinquenta anos, o que dá uma média de cerca de cem livros por ano, ou quase dez por mês. Não entendo como muito, pois gostaria que fosse bem mais. Acontece que existem outras necessidades que precisam ser satisfeitas, como trabalhar, beber, dormir, transar e até criar filhos, que demandam muito tempo. Um tempo desperdiçando, de fato, já que todas essas coisas não me causam tanto orgulho e prazer como ler.

Detesto dormir e não tem coisa mais irritante que querer terminar uma leitura e ser atrapalhado por um sono insuportável. No outro dia, o fio da meada foi rompido, e é preciso reler alguns trechos para retomar. Queria não precisar dormir, pois assim poderia ler ser interrompido. Aliás, queria não precisar comer, trabalhar, trepar, nada disso. A leitura satisfaz todas as minhas necessidades, e não percebo qualquer outra coisa que possa me oferecer tanto prazer, nem mesmo sexo. A maior parte da humanidade mata e se mata por causa dele, e parece que toda a história humana é baseada em pênis e vaginas, não necessariamente com essa combinação. Por que dão tanta importância a sexo, eu nunca entendi. Particularmente passo muito bem sem.

E isso me faz pensar que nunca entendi por que decidi por me casar. Não sei ao certo, mas possivelmente na época imbuído e influenciado por histórias românticos que lia que, aliás, também são preponderantes na literatura. Mesmo em relatos de guerra, crimes e até em ficção científica, lá está o par romântico, a paixão, e tudo que disso decorrente. Então, é bem provável que tenha sido esse o motivo de eu ter ido parar numa igreja e a um cartório e colocado meu nome ali, e depois estar morando na mesma casa que outra pessoa, e por fim estar com mais pessoas, os filhos, numa casa onde não consigo tranquilidade para ler. Uma tortura.

Casamento e família são torturas a um leitor feito eu. Obrigações como aluguel, educação de filhos, podar plantas no jardim, ajudar na louça, ter que receber parentes no final de semana, levar cachorros para passear, e todas essas coisas torturantes que fazem o cotidiano de casados não poderiam fazer parte da existência de um leitor. A mim, pouco importa se algum filho tem dor de barriga ou tirou notas baixas na escola, pouco importa se minha sogra sabe fazer macarronada e o time de futebol que meu sogro torce. E sendo muito franco, pouco importa também se minha mulher quer transar, especialmente quando estou no meio de uma leitura. Irritante, muito irritante isso.

É claro que por agir e pensar dessa forma um casamento não duraria muito, e o meu creio que até durou muito mais do que poderia, e aliás, mais do que eu queria: três anos, três meses e três dias. Quase quinhentos dias, em que minhas leituras se reduziram a metade do usual. Mais de dez mil horas em que eu poderia ter lido algumas centenas de livros e não o fiz. Fraldas cheias de coco, mamadeiras, choros de criança, sogros em almoços barulhentos, e especialmente uma mulher que queria apenas que eu estivesse no meio de suas pernas em todos os outros momentos.

As circunstâncias derradeiras do fim do meu casamento seriam descritas como absolutamente deslumbrantes por qualquer escritor, nas não por mim, mero leitor de histórias fascinantes. Estava eu, absorto, completamente entregue ao torpor da leitura de uma obra de Huxley, sentado numa cadeira ao lado do leito conjugal, quando minha esposa entrou no quarto completamente nua e perfumada e se estirou sobre a cama, e esticou o braço tocando em minha coxa, sobre a qual repousava o tal livro. Retirei— lhe a mão imediatamente, com um gesto brusco, e retornei à leitura. Irritada com minha afronta ao seu desejo sexual, ela se trocou rapidamente, apanhou as duas crianças que dormiam no quarto ao lado fechou a porta atrás de si. Foi a ultima vez que a vi, senão na audiência de divórcio, onde ela alegou falta de cumprimento de meus deveres conjugais como motivo da separação. Eu não me importava se ela alegasse que eu era criminoso em série, e que isso pudesse me jogar numa cela de prisão, eu queria apenas ficar em paz e ler, sem ser importunado por uma megera sexual.

Eu, finalmente, me sentia do jeito que queria: podia ler o tempo todo, a não ser pelo despendido às voltas com clientes horrorosos que se acotovelavam no balcão de caixa do Banco Federal onde eu trabalhava, querendo pagar contas, receber cheques e reclamar que suas contas não tinham o saldo que acreditavam existir. Uma gente sem a menor paciência, sem um pingo de cultura, sempre com pressa por fazer algo que nem sabiam direito o que era. Nas filas portavam guarda— chuvas, bolsas, telefones celulares, casacos, blusas floridas e sacolas, mas raramente livros. Eram realmente tolos e insuportáveis.

Tirando essa horrenda necessidade de trabalhar e ganhar dinheiro, afinal sem ele eu não poderia comprar mais livros, nada mais ocupava meu tempo além de sentar— me na agora particular cama de casal e passar todas as horas lendo toda a espécie de literatura. Nunca tive preconceitos com gêneros nem estilos literários, mas nunca também tive qualquer preferência por autores. Conforme relatei, nunca dei importância a escritores, pois não são eles que importam, mas sim o que escrevem. Suas existências mesquinhas e medíocres não me interessam absolutamente, então, surge o único estilo que nunca leio: autobiografias. Alguém disse que toda a literatura é autobiográfica, e o é no ponto em que um autor sempre usa por referências suas próprias existências, mas o que realmente importa é o que e como as relata, não ele ou ela.

Trabalhando oito horas por dia, e somando o tempo que era gasto em transporte indo e voltando do trabalho, eu gastava cerca de metade do meu dia, e mais quase um terço dormindo, o que era um absurdo, pois me sobravam apenas cerca quatro horas por dia para ler, exceto nos finais de semana, que esse tempo quadruplicava. Era pouco, muito pouco para atender minhas necessidades de leitura, e consumir as pilhas de livros que se amontoavam, já que eu os comprava compulsivamente quase todos os dias. Era preciso que eu tomasse atitudes a respeito. E assim o fiz: primeiramente comecei a educar minha mente para necessitar de quantidades menores de sono a cada dia, assim reduzi em um mês de oito para quatro horas por noite. As quase quatro horas em transporte até o trabalho e retornando para casa eram aproveitadas com leitura dentro dos ônibus e metrô. Descobri maneiras de ler mesmo em pé, me equilibrando sem precisar me segurar nas barras. Reduzi também o tempo gasto no horário de almoço em alimentação, substituindo o almoço por lanches rápidos. Por fim, passei a carregar, escondido da chefia, um livro de bolso até meu posto de trabalho, encaixando— o na gaveta de dinheiro, de forma a poder ler sempre alguns trechos entre um cliente e outro, ato que vez ou outra causava reclamações de alguns clientes sempre apressados, revoltados com a demora em meu atendimento.

Por conta disso, em poucos meses acabei por ser demitido, após quase vinte anos de trabalho naquele Banco, entretanto, o fato de eu ter recebido uma gorda indenização pelos anos trabalhados, tendo assim dinheiro suficiente para comprar livros e alimentos, tendo finalmente a coisa mais preciosa que eu poderia almejar, que era tempo para ler. Assim, passei o ano seguinte sem colocar os pés para fora de casa, comprando comida e livros por telefone ou pela Internet. Habituei— me a cada vez menos horas de sono, de modo que passava mais de vinte horas por dia às voltas com todos os tipos de livros. Agora eu não precisava me preocupar com banho, barba, roupas, nada disso. Nada podia atrapalhar minha leitura, especialmente a sempre inoportuna presença de pessoas. Cheguei a arrancar o botão da campainha para que nenhum vendedor, vizinho ou qualquer outro tipo insuportável de ser humano pudesse me perturbar.

Um ano depois, o dinheiro acabou. Eu tinha lido quase trezentos livros naquele ano, alguns bem volumosos, quase que um por dia. Por outro lado, tinha emagrecido a ponto de não me reconhecer no espelho e todas as minhas calças precisarem ser apertadas com cintos para que não caíssem. Naquele ponto eu não dormia mais que duas, e nem sempre à noite, já que nem noção de dia ou noite eu tinha mais. Minha barba cresceu até o meio do peito e os cabelos até os ombros. Eu mal conseguia me erguer da cama, e as pilhas de livros, uma de lidos de um lado da cama, e de não lidos do outro aumentavam soberbamente. A casa tinha sido tomada por poeira e baratas, e havia pratos e panelas na pia que não eram lavados há meses, e a privada do banheiro tinha um aspecto marrom.

Sem dinheiro para pagar as contas, as fornecedoras cortaram primeiramente o telefone, e por fim a energia elétrica. Para ler agora, especialmente à noite, eu era obrigado a acender velas, que com certeza tinham sido deixadas na casa por minha antiga mulher. Mesmo com o fim da comida, e sem dinheiro para comprar, eu nunca sentia fome, e quando sentia me abastecia com pedaços de pão duro, alguns até mofados, molhados em água e qualquer coisa que ainda pudesse encontrar, mesmo podre, na geladeira.

Uma noite eu lia, e era o glacial Agosto, à luz de velas, a grande obra de Poe, quando o corvo do desgosto se apossou de meu destino. Debilitado, cai no sono em meio à leitura do escritor americano desgraçado, e decerto a vela entornou sobre a pilha de livros. Acordei com a cama e toda a casa consumida pelas chamas, e as sirenes dos bombeiros e gritos dos vizinhos. Antes de ser trazido a este hospital, ainda amaldiçoei a todos, por interromperem minha leitura.

Soube ontem pelos médicos que, além de ter quase todo o meu corpo queimado, e parte dos órgãos comprometidos, estou completamente cego, o que deixou profundamente revoltado, e não por outro motivo de não poder jamais ler novamente, até por que todos os meus livros foram transformados em cinzas, sem nem uma folha tenha resistido às chamas.

Agora, então, meu caro escritor, que tal falar sobre minha história, a de um leitor que jamais poderá ler um livro seu, em lugar de suas malfadadas picardias cheias de autoindulgência? Que tal contar a história de quem realmente importa a um escritor? Que tal falar de mim, um leitor?

07/05/2019

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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