Quando a Fome Invade os Palácios

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Genecy Souza


Nunca passei fome na minha vida, mas conheço gente que já passou. A alimentação é a necessidade número um dos seres vivos; em seguida, vêm as demais. É o estômago que determina o funcionamento dos demais órgãos. Sem alimento todo organismo enfraquece e morre. É líquido e certo. Trazendo o tema alimentação para o campo humano, por assim dizer, observa-se que, a comida sempre foi a causa da existência de guerras já nos primórdios daqueles primatas que vagavam pela África, dos quais descendemos. Foi assim, para ser bem sintético. A luta pela sobrevivência sempre teve a comida (ou a falta dela) como fator preponderante. Com o passar dos séculos, não apenas as guerras, mas fatores climáticos e pragas ocasionaram grandes ondas de fome e milhares/milhões de mortes delas decorrentes.

Outro fator que deve ser notado, ações humanas originadas da aplicação de ideologias/utopias, somadas a desequilíbrios ecológicos, também causaram desastres humanitários de grande envergadura, como, por exemplo, na China revolucionária do genocida Mao Tse Tung, na União Soviética de Lenin e Stalin, na Alemanha nazista de Hitler, no Camboja de Pol Pot, em grandes partes da África, no Nordeste brasileiro, na Venezuela de Nicolás Maduro, na Argentina de Alberto Fernandez, e por aí vai. Dê-se destaque, também, da aplicação da fome como arma política. Pensou bem quem se lembrou do Holodomor, sob o qual milhões de ucranianos morreram de fome, frio e violência, principalmente durante o reinado sangrento de Josef Stalin, um dos mais notórios carniceiros do século vinte.

A fome é só uma, mas os fatores que levam a ela são os mais diversos. Embora nos tempos atuais a fome não mate mais tanta gente como em um passado recente, ela continua sendo um agente que desperta medo, seja em pessoas ou em governos. Esse agente agora arreganha seus dentes no Sri Lanka, onde uma bem intencionada utopia ambientalista nos ensina que uma teoria nem sempre combina com a prática.

Deu na imprensa mundial:

“Presidente do Sri Lanka foge da residência oficial antes de ser invadida por manifestantes.

Gotabaya Rajapaksa é considerado responsável pela crise económica sem precedentes que atingiu o Sri Lanka e está a causar uma inflação galopante e faltas graves de combustíveis, electricidade e alimentos.

O Presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa, fugiu este sábado da sua residência oficial em Colombo minutos antes de esta ter sido invadida por manifestantes em fúria, disse à AFP uma fonte do Ministério da Defesa do país.

A cadeia privada de televisão Sirasa mostrou imagens dos manifestantes em fúria a invadirem o palácio presidencial, até agora fortemente protegido pelos militares.

A mesma fonte da Defesa indicou que Gotabaya Rajapaksa se mantém como Presidente do Sri Lanka e que está agora sob protecção pelas Forças Armadas num local secreto.

Dezenas de milhares de pessoas tinham participado antes numa manifestação para exigir a demissão de Rajapaksa, considerado responsável pela crise económica sem precedentes que atingiu o Sri Lanka e está a causar uma inflação galopante, e faltas graves de combustíveis, electricidade e alimentos (…).”

https://www.publico.pt/2022/07/09/mundo/noticia/presidente-sri-lanka-foge-residencia-oficial-invadida-manifestantes-2013072

Entenda a crise política e econômica do Sri Lanka.

O Sri Lanka vive um cenário de instabilidade. Manifestantes pró e contra o governo tomaram as ruas em protestos desde 9 de março. Os atos tem como pano de fundo a crise financeira e governamental. A principal reivindicação é a saída da família Rajapaksa do poder. Em 12 de maio, Ranil Wickremesinghe foi escolhido como primeiro-ministro do país e assumiu em um cenário de estado de emergência. É a 6ª vez nos últimos 30 anos que o político ocupa o posto.

A mudança no poder foi resultado de protestos violentos na capital Colombo. O antigo premiê, Mahinda Rajapaksa, foi forçado a entregar o cargo na em 9 de maio. O ex-primeiro-ministro está escondido em uma base militar. Até agora foram registrados ao menos 9 mortos e 300 feridos na onda de protestos que dura 2 meses. A ação tem como foco a saída de apoiadores do governo e a queda dos irmãos Rajapaksa do poder. Eles ganharam popularidade em 2009, no fim da guerra civil que durou 26 anos, mesmo sob acusações de crimes de guerra.

A fome causada pela escassez de alimentos, a série de apagões e a falta de combustível e medicamentos no país são os principais motivos para as inúmeras revoltas contra o presidente Gotabaya Rajapaksa, eleito em 2019. Esta é uma das piores crises desde que o Sri Lanka se tornou independente do Reino Unido, em 1948. O governo tem autorizado o uso da força para reprimir os manifestantes e estabeleceu toque de recolher e a restrição de veículos de comunicação (…)”.
https://www.poder360.com.br/internacional/entenda-a-crise-politica-e-economica-do-sri-lanka/

Dos trechos dos excertos das matérias acima, uma frase se destaca: A fome causada pela escassez de alimentos.

Para simplificar ainda mais, uma só palavra resume tudo o que se passa no Sri Lanka: FOME.

Como sempre, os “ispessialystas” costumam analisar crises como a que ocorre em uma ilha pouco maior que o estado da Paraíba, porém com uma população de cerca de 22 milhões de habitantes. Sim. É muita gente para um país tão pequeno. Falta terra e sobram problemas. É sabido que uma das principais fontes de renda da ilha advém do turismo, fortemente prejudicado pela praga chinesa, romanticamente chamada de pandemia da Covid-19, cujos efeitos se farão sentir por um período indeterminado, para mais ou para menos, conforme a reação de cada país afetado a esse flagelo. Naturalmente, a atividade turística traz dinheiro – dólares, sobretudo –, que faz a economia girar. A título de exemplo, Cuba, o paraíso comunista caribenho que a tantos encanta, inclusive os “ispessialystas”, depende da grana trazida pelos turistas para manter o povo feliz, nem que seja à força. No antigo Ceilão, a fonte de receita do turismo faz muita falta. Mas isso não é tudo. A crise na ex-colônia britânica possui vários ângulos, mas um deles chamou minha atenção, pois é um dos cavalos de batalha dos “ispessialystas” ligados ao que chamo de ambientalismo militante fofinho.

Voltemos à fome. Segundo matéria publicada no jornal Gazeta do Povo, um “experimento ambiental” piorou — sem direito a despiora a curto prazo — a já frágil segurança alimentar da população:

“O Sri Lanka, país situado ao sul da Índia, vive a pior crise econômica da história do país e, em maio, registrou inflação recorde pelo oitavo mês consecutivo, segundo dados oficiais publicados nesta quarta-feira (01). O índice de preços de consumo da capital do país (CCPI, na sigla em inglês) aumentou 39,1% no mês passado, contra 29,8% em abril. E a inflação dos alimentos atingiu 57,4%.

(…)

Especialistas apontam o principal erro na gestão da ilha de 22 milhões de habitantes: em abril do ano passado, o governo de Gotabaya Rajapaksa proibiu a importação e o uso de fertilizantes e pesticidas sintéticos e ordenou que a produção nacional seja feita exclusivamente de produtos orgânicos no prazo máximo de 10 anos. O experimento foi cancelado em algumas culturas, mas as consequências dele se manifestam na pior crise desde a independência da Grã-Bretanha, em 1948.

A ideia de tornar o Sri Lanka o primeiro país do mundo a ter uma agricultura totalmente orgânica fez parte da campanha eleitoral do agora presidente Rajapaksa, em 2019. Quando assumiu a presidência, ele nomeou vários membros desse projeto para seu gabinete, até mesmo no Ministério da Agricultura, excluindo a maioria dos agrônomos e cientistas agrícolas do país.

Em 2021, Rajapaksa colocou o projeto em prática: de um dia para o outro, o governo proibiu a importação de fertilizantes. De acordo com a analista de mercado da AgRural, Daniele Siqueira, o experimento reduziu a produção agrícola, obrigando o país a importar alimentos que antes não importava e a reduzir as exportações de produtos agrícolas que até então garantiam a entrada de divisas. “O experimento reduziu a atividade econômica e criou despesas extras, reforçando problemas econômicos e, de quebra, aumentando a insegurança alimentar”, explica.

Para Siqueira, a imposição do novo modelo a um país inteiro de forma repentina é ilógica e irresponsável, porque reduz a produtividade drasticamente e eleva os preços. A transição para práticas ambientais é mais lenta e complexa, de acordo com a especialista (…)”.

Pergunta-se: onde estão os “ispessialystas” que aconselharam o governo do Sri Lanka a adotar essa utopia, quando, na verdade, o governo deveria ter consultado especialistas? Por ora, não há respostas, só gente faminta e furiosa. Não há governo que resista a isso.

Enquanto isso, bem longe do Sri Lanka, o Brasil se vê envolto nessa utopia ambientalista, que tenta estabelecer, por todos os meios possíveis, mecanismos que visam a defesa do meio-ambiente, substituindo fontes de energia poluente pela energia limpa, proibição do uso de defensivos agrícolas considerados agressivos demais, fertilizantes orgânicos substituindo os químicos, técnicas de cultivo, entre tantos outros, que, a princípio, visam melhorar substancialmente a vida da Humanidade.

Essa preocupação com o meio-ambiente está inserida na chamada Agenda ESG (Environmental, Social and Governance), a qual está avançada em alguns países, atrasada em vários, ou inexistente em tantos outros. E o Brasil, por causa de sua diversidade florestal, bem como o gigantismo do seu agronegócio, está na mira, tanto dos especialistas, quanto dos “ispessialystas”. E é da influência destes que devemos ter medo, haja visto o espectro ideológico-partidário que contamina o debate sobre a política ambiental, pondo em risco o desempenho da economia, principalmente, em razão de que, os alimentos exportados pelo Brasil enchem a barriga boa parte do mundo. O prolongamento da guerra na Europa ocasionará maior demanda por alimentos, haja vista que, tanto a Ucrânia invadida, a Rússia agressora, bem como o resto da Europa, bastante afetada pelas retaliações russas às sanções impostas por causa da guerra, necessitarão importar alimentos seja de onde for.

Com o advento da invasão russa à Ucrânia, em fevereiro deste ano, o tema dos fertilizantes ganhou corpo no Brasil, visto que o país não é autossuficiente nesse importante insumo. Com a sábia decisão de não se envolver nessa guerra, o governo brasileiro negociou com o presidente Vladimir Putin a garantia de poder continuar importando, sem embargos, os fertilizantes russos, ao passo que o Brasil tenta se garantir também importando fertilizantes de outros países. Isso não é uma ação entre nações amigas. É geopolítica.

Por fim, e não necessitando adentrar tanto nos temas da Agenda ESG, a crise vivida no Sri Lanka serve de alerta para, principalmente no que tange ao tema alimentação, certas inovações, utopias e políticas ambientalistas bem intencionadas, mas cujos efeitos práticos podem redundar em desastres humanitários de consequência bastante previsíveis.

Não dá para ser contra ideias e iniciativas de proteção ao meio ambiente, contudo, deve ser dado um passo de cada vez, para evitar resultados catastróficos. É notório o assédio de “ispessialystas” nos assuntos relacionados ao agronegócio brasileiro e nas pautas ambientais, atendendo a interesses obscurantistas ou nem tanto. Quem tem fome tem pressa. Caso o governo tivesse dado ouvidos aos “ispessialystas”, especialmente na política do “fique em casa, a economia a gente vê depois”, e não tivesse distribuído ajuda financeira a população no período mais agudo da praga chinesa, o caos social teria se instalado de maneira irreversível, o que teria causado a queda do governo. Combinadas, a fúria e a fome não possuem cor ideológico-partidária e não reconhecem a autoridade.

No Isri Lanka, a invasão do palácio presidencial tem um forte simbolismo. A História mostra que, não há nada que atemorize tanto os detentores do Poder do que pessoas tomando as dependências da principal residência do país.

10/07/2022

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.

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