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Primeira Epístola Aos Hipócritas

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Barata Cichetto


“No pecado dos lábios há uma cilada funesta , mas o justo livra-se da angústia.” Provérbios, 12-13

Queria agradecer a todos aqui presentes nesta hora em que estou muito feliz e vocês infelizmente estão muito tristes mas, por força das circunstâncias e de meu estado, não consigo balbuciar um único som sequer.

Certas atitudes de um ser humano são as vezes extremamente dolorosas à aqueles que não as compartilham e entendem, mas as atitudes de um homem, desde que não prejudiquem a outrem, devem ser encaradas como um direito dele e, neste momento como em nenhum outro de minha existência, atribuo a responsabilidade de meus atos certos ou errados sobre as costas de outras pessoas.

Gostaria que entendessem que a necessidade, principalmente a social, de estarem aqui presentes, é fruto de sua relação comigo. De sua relação de amor e ódio comigo, como toda relação o é. Alguns de vocês estão aqui porque gostaram ou gostam de minha fraca pessoa, outros porque desejam aplacar sua fraca mas pesada consciência.

Mas o que importa mesmo é que estão todos aqui, um pouco tristes com minha felicidade, mas estão fingindo que não é este o motivo, razão ou circunstancia. Fingindo, porque a hipocrisia é coisa tão humana quanto o egoísmo e o amor, só que mais forte. Fingindo que estão infelizes por estarem junto a mim.

Minha felicidade nunca lhe causou felicidade e, caso eu pudesse, olharia bem dentro de seus olhos e lhes perguntaria porque meu desejo de felicidade tanto lhes incomodou, porque condenaram minha alma a uma prisão sem crime. Se pudesse lhes perguntaria, mas sei de antemão que sua resposta seria totalmente hipócrita.

Queria mesmo lhes agradecer por estarem aqui presentes mas, tomem antes uma fumegante xícara de café, contem uns aos outros as mais recentes piadas de humor negro que aprenderam, pois afinal eu estou lhes proporcionando uma reunião que há muito tempo não tinham. Há quanto tempo vocês não se viam, não se tocavam, não se conversavam, não se odiavam? Mas não, não precisam me agradecer por lhes proporcionar mais um momento de hipocrisia plena em suas vidas plenas de hipocrisia. Aproveitem esse momento!

Queria sorrir. Gargalhar, mesmo de suas caras de falsa tristeza! Mas como disse, não consigo emitir um som sequer. A emoção extrema causada por esse fato inédito em minha existência, causou-me um torpor e uma inércia tão grandes que não é apenas som, mas nenhum movimento sou capaz de fazer. Rio então por dentro e minha alma se compraz de sua hipocrisia.

Eu não sei bem para onde irei quando todos que aqui se encontram retornarem às suas belas casas, mas de uma coisa estou certo, jamais em suas casas e em companhia de vocês. Jamais iremos sentir falta, nem eu de vocês nem vocês de mim. Talvez fique em vocês uma sensação hipócrita de uma culpa que seu egoísmo nunca permitiu-lhes sentir, pois era sempre muito mais fácil atribuir-me a culpa por sua infelicidade, com a desculpa de que seu jeito, era o único jeito certo de agir. Eu, com certeza, neste momento, estou livre.

E de qualquer forma, ao partirem gostem ou não estarão levando consigo pedaços fedorentos de mim, guardados em suas hipócritas consciências, porque alguns de vocês eu conheço muito bem, por dentro de suas entranhas estranhas, conheço o útero, os intestinos e cada gota de sangue, mas nenhum de vocês me conhece, porque nunca admitiu conhecer.

Queria lhes pedir perdão mas seria hipócrita de minha parte, pois como não existe crime sem perdão, muito menos existe perdão sem crime. E crime algum contra vocês eu cometi. E se alguém crime algum cometeu, foram vocês que, se não apertaram nenhum gatilho, ao menos colocaram a arma em minha mão.

Queria lhes falar sobre todas essas coisas, mas a língua não responde. Mas lhes peço que, antes que fechem meu caixão, olhem bem em meus olhos fechados pela morte e guardem bem dentro de suas mentes pequenas, a lembrança de suas culpas. Porque nesse momento não somos iguais, não. Eu estou vivo, e vocês hipócritas estão mortos.

E não toquem as minhas cinzas com as suas mãos sujas do meu sangue!

22/02/2001

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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