Fernando Cavalcanti – Uma Discreta Lágrima

Fernando Cavalcanti  (Via Facebook)

Voltei há pouco de meu restaurante preferido.

 

Geralmente não o frequento às terças, mas hoje era um dia especial: o último antes do “toque de recolher” decretado pelo governador de meu Estado.

 

A partir de amanhã, só funcionarão até as 20 horas. Ou seja, Paulo Câmara decreta o fim da vida noturna exatamente a partir do horário que a inaugura.

 

É medida para “quebrar” os bares, boates e restaurantes focados em um público que não quer apenas matar a fome. Os que, como disse não me lembro qual conjunto dos anos 1980, além de comida querem diversão e arte. Isso num estado multicultural, poliartístico como este!

 

O governador estabeleceu um período de duas semanas de duração para o toque de recolher, advertindo que poderá ser prorrogado  se o índice de contaminações não melhorar.

 

Ninguém acredita que 15 dias mudarão a atual realidade. Sabem que PC tenta apenas “dourar a pílula”, diminuir o desespero dos apunhalados acenando-lhes com a possibilidade de retirar a faca se o sangue parar de escorrer.

 

Por isso meu gesto de solidariedade, hoje, foi carregado de tristeza.

 

Conversei com o sommelier, o mâitre e os garçons e garçonetes de lá. São meus velhos conhecidos, logo eu interpreto as mensagens de seus olhos, ombros, bocas e sobrancelhas, como quem lê um livro.

 

Eis o que li: “MEDO, DECEPÇÃO E PERPLEXIDADE.”

 

Medo devido à possibilidade de o restaurante não aguentar mais um toque de recolher, fechar e perderem seus empregos.

 

Decepção porque acharam que o pior havia passado.

 

E perplexidade porque, em face da frustração de suas expectativas passadas e presentes, não ousam mais crer no futuro.

 

Quase ninguém foi ao restaurante hoje, e a solidão ambiente aumentava a sensação de fim de linha para o staff da casa e para este habitué que vos  escreve.

Quase um velório.

 

A fim de animar-me, pedi um prato que amo: camarões com farofa de ervas finas amanteigada, arroz selvagem e batatas coradas. E a bebida sugerida pelo sommelier foi um vin d’Anjou de se beber rezando.

 

O próprio restaurante, com seus quadros e fotos estilosos, sua iluminação discreta, seu jardim elegante, sua música ambiente focada nos anos 1950 e 1960, estava mais encantador do que nunca.

 

Mas a sensação de que tanta beleza e bom gosto poderiam estar prestes a se extinguir envenenou o prazer.

 

Foi um jantar “de gala”, no pior sentido possível.

 

Ao final, fiz questão de me despedir de cada membro da equipe, um por um. Sem falar em despedida, é claro. Mas todos entenderam minha intenção encorajadora, e meu desejo de que aquela NÃO fosse uma despedida.

 

A hostess, em particular, simpática moça e acadêmica de Direito, a quem já dei muitas dicas (não-remuneradas) em ações judiciais, marcou minha atenção.

 

Após as saudações, apertou minha mão com força e, com voz trêmula, mas fingindo tom brincalhão, disse: “Até LOGO! Afinal, o senhor não consegue deixar de vir aqui!”

Eu: “Não quero deixar de vir aqui, querida.”

 

Ela: “Eu sei… nem eu… nem nós… não queremos…”

 

Respirou fundo, apertou de novo minha mão e entrou.

 

Em cada intervalo de três pontos em seu comentário percebi, como diria Donizetti em sua famosa ópera, Una Furtiva Lagrima.

 

Que Deus faça os governadores também perceberem isso.

 
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