Erick Yoshiharu Takaki – A atual predominância das forças femininas no Ocidente

Erick Yoshiharu Takaki

É muito comum, atualmente, pessoas falarem coisas como: “já não fazem mais homens como antigamente”, em outras palavras, que características fundamentais masculinas foram perdidas. É fácil também perceber o quanto é difícil ter um debate sem as pessoas apelarem para os sentimentos ou perderem a cabeça por excesso de emoções. Para analisarmos essas questões, é importante lembrar que a razão e a racionalidade são forças fundamentalmente masculinas e a emoção e a intuição são forças femininas. É claro que estou falando aqui no sentido de forças primordiais, universais e arquetípicas e não no sentido de que isso é coisa de homem e aquilo é coisa de mulher. Nem quero dizer que as mulheres são incapazes de pensar ou pensam mal e os homens não têm sentimentos ou intuição. A tendência natural é que a forças masculinas sejam predominantes nos homens e vice-versa. Mas existem vários outros fatores, além do sexo da pessoa, que influenciam nessas questões, como a sua personalidade, sua historicidade, sua cultura e etc.

 

Basicamente, o arquétipo masculino está ligado à ordem, à racionalidade, à força e à eficiência. E o feminino, em oposição, ao natural, à intuição, à beleza e à emoção. O argumento biológico que explica isso é que o macho tem um arranjo evolutivo direcionado à produtividade e a fêmea à reprodução. O que mais distingue a mulher do homem é a sua capacidade de ficar grávida e amamentar. Com essa proximidade maior com os filhos, a evolução tende a selecionar capacidades mais ligadas ao cuidado, como a leitura de emoções, a sensibilidade e a empatia. Já para o macho, são selecionadas características ligadas à produtividade, à força, à competitividade e à segurança. Atividades como a caça, o trabalho manual e as guerras são bons exemplos. Proteger e dar suporte para a mãe que cuida do filho é a tarefa natural do homem, biologicamente falando.

 

Mas voltando à questão da predominância feminina, eu atribuo essa circunstância a duas causas distintas: uma socioeconômica e outra político-cultural. A primeira se dá pela seguinte situação: com a modernização da sociedade, atributos como a força física e a coragem deixaram de ser essenciais. Com uma sociedade muito mais segura, uma vida mais fácil e a tecnologia fazendo tudo por nós, esses atributos masculinos se tornaram obsoletos. É só pensarmos como a industrialização tornou a força física algo inútil. Ou como a arma de fogo, a polícia e os dispositivos de segurança tornaram a proteção masculina desnecessária. O papel da figura masculina de ser a principal fonte de produção e de gerar segurança foi excluído da sociedade. E somado a tudo isso, temos ainda a revolução sexual e a criação dos contraceptivos, que tornaram o homem muito menos presente na formação dos filhos e das famílias.

 

Mas analisemos então a questão político-cultural. A melhor maneira de analisar a cultura de uma sociedade, do ponto de vista simbólico, é entender quais arquétipos ela cultua. Minha tese é que tanto a direita quanto a esquerda, no Ocidente atual, cultuam um mesmo arquétipo primordial, o arquétipo do Santo. Quando pensamos em cultura de direita no Ocidente, a primeira coisa que nos vem à cabeça é o cristianismo, o que é esperado, já que esta é a única tradição sobrevivente da tríplice da herança européia: composta pela cultura greco-romana, o espírito germânico e a moral judaico-cristã. A cultura greco-romana pode ser representada pelo arquétipo do Rei Sábio, que é a junção do Grande Rei, representando a Ordem, e a do Velho Sábio, representando a Razão. O espírito germânico pelo arquétipo do Guerreiro, que representa a Força e a Coragem. A cultura judaico-cristã pelo arquétipo do Santo, que representa a Abdicação, a Pureza e a Compaixão. Os dois primeiros componentes dessa fórmula foram sistematicamente desconstruídos pela Revolução Cultural da esquerda. E junto com eles, os principais arquétipos masculinos do Ocidente: o Guerreiro, o Velho Sábio e o Grande Rei. Em outras palavras, a Coragem, a Racionalidade e a Ordem do Ocidente.

 

Com a morte dessas duas grandes tradições, o que sobrou foi o cristianismo em oposição a uma versão materialista e ateísta de si mesmo: o marxismo. Não são poucos os autores que tratam o marxismo como uma religião ateísta, produto da moral cristã, algo como um filho bastardo. De onde veio a preocupação com o pobre e o oprimido? Do amor ao próximo cristão. O ideal marxista de igualdade? Da ideia de que “todos somos iguais perante Deus”. E a demonização da pessoa rica? Do pecado da ganância. Citando a Bíblia: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus (Lucas 18:24-25). A “Sociedade sem classes” ou o Paraíso Socialista, é nada mais que uma projeção materialista do Reino de Deus aqui na terra. É óbvio que ambas as tradições possuem dogmas e raciocínios antagônicos e distintos, já que os meios e a finalidade de uma tradição é materialista e da outra espiritualista. Contudo, a moral, os ideais e a cosmovisão marxistas possuem a mesma estrutura do ideal cristão. A esquerda combate os dogmas e as instituições cristãs, mas não o espírito cristão. Ela apenas tenta concretizar esse mesmo espírito em termos puramente materiais, sociais e temporais, o que faz dos cristãos seus inimigos, mas não o seu oposto. Basta observar que o marxismo cultural domina completamente o Ocidente hoje, enquanto que nos países asiáticos e do Oriente Médio, ele nem sonha com isso. A cultura marxista não floresce em países que o cristianismo não tem força.

 

Ambas cultuam o arquétipo do Santo, que é o desapego aos bens materiais, a compaixão com o outro e a pureza. O Mártir, que é a junção do arquétipo do Santo com o do Herói, é personificado na figura de Jesus Cristo, que faz o ato heróico de se sacrificar para nos salvar de nossos pecados. Da mesma forma são os “Social Justice Warriors” ou “Guerreiros da Justiça Social” esquerdistas, são aqueles que pregam salvar a humanidade dos desastres ecológicos, da pobreza e das desigualdades sociais. São “mártires” que querem salvar o mundo material e social e pregam contra o “pecado” da poluição, do preconceito e da riqueza. Eles buscam um outro tipo de pureza, não a espiritual, mas a material/social.

 

Pelo fato de ambos os espectros políticos cultuarem um arquétipo feminino, que é o do Santo, qualquer coisa que remeta às forças masculinas se torna negativa e moralmente incorreta no Ocidente hoje. Vejam que ambas as culturas, marxistas e cristãs, são contra o egoísmo e o consumismo, sendo o Ego uma força masculina. Ambas são pacifistas, apesar da tendência do marxismo à violência e ao genocídio, no final das contas ele busca acabar com todos os conflitos, “a luta de classes” e seu pensamento aceita essa contradição, já que ele é formalmente dialético. Ambos defendem o auto-sacrifício, um pela abdicação da vida consumista, da riqueza e da individualidade e o outro através da abdicação dos pecados. É por isso que a individualidade e o egoísmo, características masculinas, são mal vistas por ambos dos lados. De um lado temos o policiamento do “politicamente correto”, do outro, o policiamento da moral cristã. O culto ao arquétipo do Santo exige que você se abdique, seja dos seus “privilégios capitalistas e de classe”, seja de seus pecados. Não é coincidência que o Rock tenha morrido e toda a cultura tenha se tornado chata. Todas as forças ativas, espontâneas e criativas, que são masculinas por natureza, são reprimidas ou mal vistas.

 

A solução aqui vai numa direção bem simples, mas de difícil execução: o reequilíbrio das forças masculinas e femininas a nível arquetípico na cultura. Como a direita é formalmente contrarrevolucionária, ou seja, ela se opõe à revolução proposta pela esquerda, que neste momento é um igualitarismo coletivista, a direita deveria propor não uma cultura que é a origem da cultura adversária, que cultua o mesmo arquétipo primordial, mas uma cultura e arquétipo realmente opostos. Que seria a defesa de uma hierarquia de valores universal, em contraposição ao igualitarismo universal. A defesa da soberania do indivíduo, antagonista ao coletivismo. A restauração dos arquétipos masculinos como o do Guerreiro, do Grande Rei e do Velho Sábio deveriam ser feitos, mas não necessariamente apenas com as culturas ocidentais, pelo fato da esquerda ser um movimento de amplitude mundial, a direita deve também ser, se adaptando ao mundo globalizado e multicultural de hoje. O liberalismo, que estava à esquerda na Revolução Francesa, hoje deve ser incorporado pela direita, já que as propostas da esquerda de hoje são contra a liberdade econômica, política e filosófica (de pensamento). A direita precisa se adaptar e saber se opor ao novo movimento de esquerda mundial dentro de um mundo globalizado e multicultural e não apenas repetir a única tradição que sobreviveu à desconstrução esquerdista. Várias tradições estão sendo perdidas ao longo das últimas décadas, mas só há uma que vejo sendo defendida de verdade pela direita.

 

Publicado Originalmente no Grupo Direita Liberal-Conservadora:

https://www.facebook.com/groups/519680739106144

Erick Yoshiharu Takaki é Membro do grupo Ayn Rand Brasil – Objetivismo

 
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