Vozes

Renato Pittas


Ouço vozes do outro lado do mundo

eu ouço vozes se lamentando do rosto que tem

ou da vida que levam,

ouço vozes por aí me contando estórias

sem vírgulas ou qualquer outra acentuação

falando, respirando letras da maquinação

comum a qualquer um de nós,

coisas assim como as que usamos

quando queremos fazer charme

ou mostrar indignação.

 

Ouço vozes ao lado, afirmando que uma boa mulher

está difícil de se encontrar ou que não há um ideal de homem,

enfim elas falam o que tem para dizer, brincam com o verbo

como crianças alvissareiras brincam:

de construir castelos com blocos de lego.

….lego’n’roll… por aí.

 

Vou ouvindo rumores

sobre o que não aconteceu,

lendas urbanas difíceis de acreditar…

lamúrias de viúvas deserdadas de suas usanças…

passwords sussurrados ao pé do ouvido,

vou por aí ouvindo o que chega aos meus ouvidos

tentando adivinhar o que passa por outros

curioso, vou tentando ouvir tudo que posso

mantendo minha boca calada,

pronta para soltar o verbo, dizer qualquer coisa e,

passar como se nunca tivesse estado aqui

antes de querer me esquecer de que quis

estar por aqui num momento ou outro….

 

Qualquer dia desses, silenciosos

como aqueles em que você não fala com ninguém

fica, calado ouvindo vozes na cabeça

só para ter o que escutar,

para afastar a sensaboria escaldante

da tarde de mormaço primaveril,

falta d’água e vontade de ficar de falação fiada

com qualquer um que pareça simpático

….paranormal, paradoxal;

alguém para se jogar conversa fora,

ouvir um pouco do que as vozes oferecem durante o dia.

Quem sabe essência de sonhos….

recheio de idéias, caldeirão do diabo,

quem tem a cura para dor!….o sabor de tutti fruti,

a bossa nova…e, o samba de uma nota só?.

 

Quando você chama meu nome,

diz por vezes coisas que quero ouvir,

por outras o que não quero escutar agora…..

ainda não, cria a expectativa de quando sim…..

falar o que se tem pra dizer, desopilar-se de esquisitices

a rapping tongue falando pelos cotovelos…

falando o que quer e o que não quer,

sem noção de como acabar o verso,

fechar a canção, esquecer de vez o que veio dizer

calar-se como um túmulo,

e ficar por aí ouvindo vozes.

…que vem do outro lado do mundo!

Vozes
/ Poesia, Renato Pittas
 
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