Vídeo | Nevermore: Um Gato Chamado “Nuncamais” | Poesia: Barata Cichetto – Música: Amyr Cantusio Jr.

Barata Cichetto e Amyr Cantúsio Jr.

No dia 3 de Outubro de 1849, com 40 anos de idade, Edgar Allan Poe foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, em estado de delirium tremens, e levado para o Washington College Hospital, onde veio a morrer apenas quatro dias depois. As circunstâncias exatas de sua morte nunca foram devidamente conhecidas, e muitas teorias e muita mentira, algumas por interesses escusos de médicos, testamenteiros. Suas obras mais conhecidas são O Gato Preto e O Corvo, a primeira um conto e a segunda um poema, que foi traduzido, somente em português, por mais de 50 tradutores. Poe é considerado um dos maiores poetas americanos de todos os tempos, e sua obra serve de referência a inúmeros movimentos culturais mundo a fora.


Agora imagine uma obra que se passe no dia do enterro de Poe, e em que as personagens dessas obras e se misturam? Um gato preto com o nome de “Nunca Mais“, ou “Nevermore“, e um Eu Lírico ouvindo atarantado as suplicas desse animal que pode ser o próprio espírito do próprio escritor. Todos esses componentes compõem esta peça escrita em 2016, pelo poeta, escritor, e artista plástico Barata Cichetto, e que agora a musica genial do pianista, compositor, multi-instrumentista e também artista plástico Amyr Cantusio Jr..


Inicialmente planejada para ser uma “Ópera Rock”, a quarta da dupla, optou-se por algo minimalista, com Barata fazendo  todo o trabalho de edição, narração, e por fim a edição do vídeo.

Amyr Cantusio Jr, fez a composição e instrumentação, 

 

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Parte 1 – A Aparição

I –
Uma vez, a meia-noite sombria, enquanto eu, fraco e cansado
Ponderava sobre os destinos da existência de um fracassado
E maldizia a enfermidade que sobre os ombros tortos me caia
Percebo ao redor, na gelada noite, um vulto que não se mexia.

– Que figura é essa que ousa perturbar a quem poderia jamais?
E em minha mente, concluo que não seria aquilo nada demais.


II –
Ali absorto, penso nas cismas infortuitas do meu desidério
Por entre as tumbas imundas de um abandonado cemitério
Onde o que resta da beleza e da vaidade são apenas odores
E o humano recebe o exato pagamento por seus desamores.

– Que estranha figura é aquela que das sombras herda a cor?
E dentro de mim, penso que aquela é a visão da minha dor.


III –
Tremendo sobre um tumulo adornado de mármore escuro
Penso sobre o quanto tenho sido frio, imperfeito e obscuro
E enquanto aquele vulto da escuridão sobre mim avança
Minh’alma covarde e pequena treme diante da esperança.

– Quem és, oh criatura da escuridão, que impedes-me de sorrir?
Mas nenhuma resposta daquela sombra poderia hora me servir.


IV –
Mas, antes mesmo que o medo se apoderasse de minha mente
Turvando-me a visão e fazendo-me ver o que desejo somente
Eis que a figura toma forma, fazendo-me gelar até o pescoço
Pois senão noutra é um gato preto, com o rosto de um moço.

– Quem sois, oh criatura das trevas, a enganar-me a percepção?
E penso que aquela coisa é apenas fruto da minha imaginação.


V –
Passos depois, o felino solta um ronronado tanto abafado
E mesmo eu, acostumado ao som de gatos fico atordoado
Pois que não é um ronronado suave, parecido a um motor
Mas um misto de fala humana, coisa que me causa pavor.

– Quem és, criatura estranha, que abusa da sua própria sorte?
E aquieto, ao pensar que minhas mãos lhe causariam a morte.


VI
E eis que então, percebo claramente a imagem daquela sombra
Que por hora faz o meu corpo tremer e meu espírito assombra
Pois ergue-se a criatura, e contra a tênue luz revela sua aparição
Que é de um felino negro com marca parecida com um cordão.

– E que criatura é tal saída das páginas de literatura de horror?
E concluo que a desgraçada é apenas personagem de um autor.

Parte 2 – A Assombração

 

Diante da minha surpresa, e porque não dizer, desconfiança

Assenta-se o animal a meu lado e diz, com enorme confiança:

 

– Apesar do que engana teus sentidos, não sou um negro gato 

Sequer um felino sou, e é preciso que deixe bem claro tal fato

Pois que diante de seus olhos incrédulos e de sua visão torta

Digo sobejamente que sou a encarnação de uma alma morta.

 

Uma gargalhada sai de minha garganta sem consciência

E a ideia de enlouquecer apavora-me, diante da ciência.

 

– Pensas estar enlouquecendo, caro bardo de odes pervertidas

E que sua mente está a prega-lhe peças, com veias invertidas

Mas o que te peço, é que fujas da armadilha da realidade vista

E entenda que sou somente fruto da tua percepção imprevista.

 

Diante de um gato falante, que juízo poderia ainda eu ter?

Penso antes de analisar sobre o que possa aquilo remeter.

 

– Se teus olhos me enxergam apenas como felino de cor negra

Sinto desapontá-lo, mas estás cego feito uma prostituta grega

Então, nada mais me resta que desaparecer em meio às tumbas

Deixando que penses que sou apenas tolices feito a macumbas.

 

 

Ao que penso, que tal visão diante de meus olhos ateus

Bem poderia ser a de um anjo ou até do Rei dos Judeus.

 

– Não, querido poeta, de hostes vadias e de espírito atormentado

Deixe de confusão na mente, pois não sou do medo alimentado

Nenhuma crença que possa ocorrer-te explicará minha aparição

E nem me tomes apenas por loucura ou fruto de sua imaginação.

 

 

Deixo que as cortinas escuras se abram por um momento

E que o ser que agora vislumbro, conte-me seu tormento.

 

– Mas antes que te contes sobre quem sou e revele-te a identidade

Quero demonstrar que não existe de fato nada que seja a verdade

E que se teus olhos são incapazes de aceitar ao sonho e a ilusão

Estarás hora em diante, condenado à morte por plena desilusão.

 

 

Diante daquilo, sinto-me próximo a um ataque de coração

E não fosse eu ateu, teria me ajoelhado e feito uma oração.

 

– Afasta-te, criatura sem pudor, que mostrar-te-ei meu rosto

E que a morte, a quem tanto procuras, não te mostre o gosto

Pois o que tenho a mostrar-te é algo que nem a deuses revelo

E se a ti faço, é por adornares o mesmo cadáver a quem velo.

 

Parte 3 – A Revelação

 

Ergue-se então o animal, eriça a pelagem e quase num gemer
Declama quase num canto, que faz até minha espinha tremer:

– Quem eu sou, pergunta o vate envolto pelas trevas da solidão
Sou aquele que teus medos serve e já fui chamado de escuridão.


E eis que agiganta-se o animal, tornando-se à minha altura
Enquanto que eu, apequeno-me na minha moral estrutura.

– Aquieta-te, que sombra alguma te trará algum malefício
E nem mesmo eu, que da escuridão construí meu edifício.


Curioso e confuso, ainda penso se não seria lógico um corvo
A servir a minha imaginação e a causar-me tamanho estorvo.

– Que te importa a minha aparência, poeta de iniquidade demais
Mas se desejas meu nome saber, podes-me chamar “Nuncamais”.

Parte 4 – A Alucinação

 

E eis que, ai de mim, depois de um piscar de olhos lento
Tenho a minha frente uma lápide, e nada de monumento
Num cemitério anexo à igreja, eu e o gato em um funeral
Onde o bichano negro conta-me, com a pose de general:

 

– Perceba, vate curioso, que poucos choram minha morte
E leia o jornal que recita a minha embriaguez e a má sorte
Passe os olhos pelo laudo de Moran, o monstro mentiroso
E ao obituário de Ludwig, a criatura vil, cruel e ardiloso.

 

E o gato, rodeando-me, miou soturno:
– “Nunca mais!”
E deitou-se na grama quieto e taciturno.

 

– Perceba meu esquife barato onde faltam as alças
E ninguém no cortejo, ou que me troque as calças

E nesse dia de Outubro ameaçador, escuro e sombrio
Só a forração de pano no caixão me protegerá do frio.

 

Diante de mim um enterro, com o sacristão calado
E na tarde fria, nenhum corvo tinha comigo falado
Mas ainda pensei em Lenore, em Sarah, em Elmira
E em todas as belas mulheres mortas pela mentira.

 

Então o gato, que Nuncamais era o nome, miou robusto
– “Nunca mais, nunca mais!”
E a tarde se fez noite, sumindo ele por atrás do arbusto.

 

– “Arqueados céus me rodeiam, e Deus tem seu decreto
Sobre as frontes de todo ser humano, um escrito secreto
E se há esperanças a um miserável após esta existência
Pergunto a vós, pedindo perdão por minha desistência.”

 

Além do médico, discurso algum no séquito proferido
E nenhum som, além do vento nas árvores, foi ouvido
Havia silêncio na cidade, e vozes no Salão do Atirador
E lembrei-me de Elizabeth, com seu sorriso encantador.

 

Com eriçada pelagem, da noite escura retorna o felino
– “Nunca mais, nunca mais, nunca mais!”
Enquanto descia o caixão e ria o testamenteiro ferino.

 

Mas, e eu agora recordo, que era num Outubro glacial
Éramos eu e o gato que tinha humana expressão facial
Sem saber ao certo o que era real ou fruto de alucinação
E o que era o conto de terror ou o que era predestinação.

 

– Há muitos relatos sobre as causas do meu falecimento
Mas certo é que nenhum consiste com o acontecimento
Pois que zombaram de minha lira, mentiram sobre mim
E agora, conto-te que foi a angústia a razão do meu fim.

 

E em mim, a melancolia ronronava feito negro gato:
– “Nunca mais, nunca mais, nunca mais, nunca mais!”
E eu sabia que nada me restava a não ser o contrato.

Parte 5 – A Servidão

 

Retira tuas garras do meu coração, felino amaldiçoado
Deixa-me a sós, bicho que à morte é demais afeiçoado
Rogo-lhe que afaste-se de mim com a tua intenção vil
Pois que não desejo de tua vontade imunda ser servil.

 

Ao que o gato, de pescoço ereto e bigodes iluminados
Repetia intensamente, ecoando seus próprios miados:

– “Nunca mais! Nunca Mais! Nunca Mais!”

 

Deixe-me, que não desejo ser teu láudano, nem tua cura
Esqueça-me, por que tenho por mim a própria amargura
Permita que eu seja de minha profecia meu próprio poeta
E que minha poesia me permita ser chamado por profeta.

 

Mas o gato, sobranceiro e fornido, em tom ameaçador
Lambeu aos bigodes e lançou um miado abominador:

– “Nunca mais! Nunca Mais! Nunca Mais!”

 

Não permito que arranhes minha mente já tão lanhada
Fuja, e me deixe à própria sorte, já um tanto arranhada
Sumas com teu passo leve do mesmo jeito que aparecestes
E que o meu corpo morra da mesma forma que perecestes.

 

E entretanto o bichano, que nas negras eras foi um selvagem
Cerrou os olhos, decerto estranhando minha súbita coragem:

– “Nunca mais! Nunca Mais! Nunca Mais!”

 

Desprenda-te dessa aparição sinistra, felídeo maldito
Que em teus torpes e miseráveis miados não acredito
Entregues teu legado a outro que não seja um covarde
Mas partas logo, antes que o tempo te seja muito tarde.

 

E, no entanto, teimoso e impávido feito ao herói de uma saga
Mia o gato num som ensurdecedor, rogando-me uma praga:

– “Nunca mais! Nunca Mais! Nunca Mais!”

Parte 6 – A Transmutação

– Tinha quarenta anos ao ser encontrado com roupas sujas
Que eram de outro, e encharcadas de bebida as ditas cujas
E, mesmo antes de poder falar, morri diante das garatujas.


Então o gato, negro feito a peste
Soltou um miado ao vento leste:

– “Nunca mais!”


– Fui atestado morto, sem paz e nem flores em minha palma
Apenas: “Oh, Senhor, por favor, ajude a minha pobre alma.”
Que não sei se disse, e é o que não permite que tenha calma.


E eis que aquele som parecido a gemido
Fez com que eu de pavor tenha tremido:

– “Nunca mais!”


– Ao contrário, desde o nascimento nunca fui abandonado
A desgraça era pouca a um homem pelo talento adornado
E que me perdoe, Virginia, por eu ter da morte retornado.


E num ronronar triste, e enfurecido
Soltou o felino um tanto endurecido:

– “Nunca mais!”


– “Um sonho dentro de um sonho”, e dentro deles escuridão
E nessas noites, vermes vencedores devoram-me a podridão
Enquanto um tropel dos atores se forma dentro da multidão.


E para que não pareça apenas ilusão de um fremido
Soltou o gato um som que mais parecia um bramido:

– “Nunca mais!”


– Mas para que não pareça idiota àqueles que me consomem
E que esse meu drama, tão tétrico e patético é de um homem
Digo que sou a glória dos vermes vencedores que me comem.


Mas para que não paire nenhuma apreensão
Seu miado era baixo buscando compreensão:

– “Nunca mais!”


– Se o grasnar do corvo a teus ouvidos soavam como maldade
Apenas a Berenice e a Annabel foram feitas minhas vaidades
E delas os gritos que ouço, sinos repicando minhas vontades.


E agora era um choro de criança o miado
Que o gato repetia quase como um chiado:

– “Nunca mais!”


– Por onde andará Lenore, pergunto ao vate que ouve-me chorar
E por onde caminha Ligéia, juro-lhe por minha alma não lembrar
Pois apenas sinto um par de damas minha alma fria atormentar.


E um lamento, acompanhado de soluços
Soltou o bichano quase deitado de bruços:

– “Nunca mais!”


– Rogo-te, homem, que liberte-me desse meu sofrimento
Vede, que hoje é a noite de gala de meu desaparecimento
Deixe que solucem os anjos, e alivia-me deste tormento.


Ouviu-se, então, um som angustiado e reprimido
E era eu, não o gato, a soltar um miado deprimido:

– “Nunca mais!”


– E por fim, imploro que tua alma a minha se resuma
Livrando-me da maldição até quando dela se presuma
Ou até o tempo em que outro predestinado a assuma.


E do fundo do tumulo, uma voz ouvida jamais
E não era o gato, eu, e nem era outros demais:

– “Nunca mais! – Nunca mais! – Nunca mais!…”.


22/09/2016

Erro: visualização 5b9c7836f7 pode não existir
 
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2 Comentários
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Smile Delacoeur

Finalmente escutei essa opera-rock. Sua em parceria com mestre do piano, teclado, orgãos… O Amyr. Muito bom.

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