Poesia: Barata Cichetto – Solemnias Verbas

Barata Cichetto

 – FUNDADOR

(Lê-se: solêminia vérba.) Palavras solenes. Solemnia Verba, encontra-se em Ovídio, com o sentido de “palavras pronunciadas nos sacrifícios solenes”. Alexandre Herculano já a empregara como título de um dos seus opúsculos. Título de poema de Antero de Quental (1842-1891). Solemnia é a palavra em latim que deu origem ao nome feminino Solange.

Penso ao pé da letra, em pé, na porta do Paraíso. Solemnias verbas, querido Antero. Não quero entrar, mas um anjo torto me convida para um vinho e uma maconha, e eu o sigo até a porta da saída. Ficamos bêbados e rolamos no colchão da Aurora. Aquele anjo tem asas finas que cheiram alecrim, e ai de mim, é um anjo sacana, de pernas finas e peitinhos minúsculos. Eu beijo seus seios, e na calada da noite calada fala que ama. Sua vagina é quente e espera por mim. Penso em latim “naturale eius debent” e digo em português: vagina. Penso ao pé da letra: “litterali”. Penso em pé, dentro da letra “V” que forma as pernas abertas daquele anjo pornográfico. Sua literalidade molhada com o suor de desejo. Há um anjo de saída do paraíso, e nós fumamos e bebemos vinho barato numa cama de hotel na beira do Ribeirão. O anjo é Sol. Sol é anjo. Sol angel. Sou Lua, luz, Luiz. Apenas aprendiz de anjo, mestre de demônios. Somos feiticeiros enfeitiçados. Bruxos esdrúxulos. Santos que não. Meu anjo torto me chama de seu, eu a chamo de sua. E nós dois, exaustos nos deixamos ser nossos, por momentos preciosos quanto preciosas são as palavras que dizemos, mesmo quando indecorosas. Somos é boa palavra. Nós também. Mas a palavra revolucionária é Eu. De meu Eu ao seu Eu, do seu Eu ao meu Eu. E se sou Seu, por premissa e com permissão, permito gozar na porta do Céu, urinar no Paraíso e ejacular na boca do Inferno. Sou Virgílio sem Caronte, mirando o Aqueronte. Às portas do Inferno de Dante há um elefante. Elegante e efervescente. Um elefante indecente, tão inocente quanto senciente. E o elefante toca o sino, Hell Bell, e eu lembro que é hora de partir. Sem ir a nenhum lugar. Quem sabe ao mar. Pegar sereias pelo rabo. Sou Lúcifer em tarde cinza, ou apenas um idoso ranzinza, que teima em pensar? Penso ao pé da letra, literalmente propenso a pensar, que se não há mais pensamento, penso eu, não há o que chorar. Choro de pensar nisso. Não oro, que não sei orar. Penso ao pé da letra. Em pé, à frente daquele anjo que chupa meu pau, solene. Solan. Soland. Sol. Angel. Um anjo de Sol. Sol Anjo. Angel Sun. So long, so longer. Penso ao pé da letra, aos pés de uma letra qualquer, com jeito de mulher. Uma letra que quer ser ponto. Final. Ou de exclamação, mas é um ponto de interrogação. Penso, ao pé da letra, que já não existem letras em que pensar. Esgotei o abecedário, de Ângela a Zulmira, todas as letras, todas as tetas, todas as bucetas. E que letra ainda não? Lembro do “S” e penso que não. O “S” é uma serpente se contorcendo. E penso se, ao pé da letra, o “S” sabe que é serpente ou somente sedução? Se o “S” sabe que sabe, com “S”, ou se somente sacode a cauda e subjuga o sofredor. Ah, a letra “S”, é de safada, sem-vergonha, mas também de solene e de satisfação. Serpente não, ser gente. E a letra que penso agora, de pé, enquanto ela se dobra em forma de “L” curvada com as mãos na cama é a letra de uma música que esqueci a melodia, mas conheço o arranjo e o tom. “Vicious”… E ela me bate a toda hora. E está fazendo isso agora. Ela é viciada. E eu viciado nas letras do seu nome. Ela tem nome de escritora, de poeta, e o meu ela apenas soletra, como quem bebe vinho e fuma maconha. E sonha com um príncipe barbudo que faça tudo. Sobretudo sobreviver. Viciada nunca saciada, uma tarada. Ah, letras, letras, letras… Quero soletrar ao pé da letra, no pé do teu ouvido, palavras solenes sem explicação. Solemnias verbas sem condição. Ah, minhas palavras, que tanto te causam tesão! Quero declamar meu abecedário de besteiras, meu dicionário de sacanagem no seu ouvido. De “A” a “Z”, uso todas as letras para pensar. E penso. Ao pé da letra. Aos pés do anjo. Solemnias verbas. Solenes palavras ditas dentro da tua boca. Palavras lambidas, palavras engolidas. E ejaculadas na tua língua, meu anjo, de pernas finas, canelas esfoladas e peitos pequenos, deitada na cama da Aurora, e eu agora sei apenas que penso ao pé da letra, que solenes são as farpas da sua língua, enquanto eu, poeta pequeno, na minha fala fálica, apenas falo, sem jeito, que quero apenas teu leito, e em nada mais, com efeito e por direito, pensar.

 

11/12/2019

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