Poesia: Barata Cichetto – Sabonetes, Putas e Poesias

Barata Cichetto

 – FUNDADOR

Estou fumando feito um condenado. Condenado a que? Condenado por quê? Condenado! Apenas condenado e pronto. Que importa por qual motivo, pouco importa qual o crime. Não existem inocentes. Que o réu levante para escutar sua sentença! A sentença, escrevi uma agora e escrevo outra na sequencia: os condenados abriram seus braços e morreram todos abraçados na praça da revolução. Foram torturados e mortos a golpes de tesoura. A tesoura lhes cortou a língua, violentou a poesia. O golpe de misericórdia veio do meio da multidão. A fome era próspera naqueles dias de muito chumbo e pouca poesia. O poeta ergue a bandeira e o general bate continência. Em que contingência? Nas celas da carceragem, ainda existem vidas secas e ramos de oliveira. Estou prestes a cometer suicídio. Bombas caindo sobre a Praça, pombas cagando sobre a catedral da Sé corroem o concreto. E de concreto apenas a deterioração da alma humana, feito o concreto corroído pela merda dos pombos da liberdade. Estou em paz com minha consciência. Eu lutei, estabeleci as metas da minha revolução e parti em meio à tempestade. Não reconheço sua autoridade e nem a paternidade de filhos que não a aceitam. Atirei em mim, corri pelas trincheiras e acabei morto atrás das linhas inimigas. Não conheço sua austeridade nem me esqueço dos tiros em minhas costas. Alteridade! Bosta! Que fui fazer da minha vida? Agora não tem mais tempo e o tempo ruge e o leão branco me devora as carnes. Queimem tudo, ordena o general. Ontem não dormi, era a ultima noite de um condenado. Mas não perca seu tempo comigo, General, venda meus olhos, venda minha carcaça aos pedaços, os urubus pagam bom preço no mercado negro. Rock’n’Roll era a revolução, não a numero 9, mas uma revolução sem números nem nomes. Mas tomou o poder e não existem revolucionários no poder. Tenho saudades do tempo, tenho saudades do tempo em que acreditávamos no vento, do cheiro das ventas e das bucetas encardidas das meninas dos puteiros da São João. As putas de São João fediam a mijo, mas tinham bucetas cheirando sabonete. Não se fazem mais sabonetes como antigamente e não tem mais putas na São João. Nem na Ipiranga. Não se fazem mais putas como antigamente. Suas bucetas cheiram a perfume e suas axilas estão depiladas com um aparelho de 10 lâminas afiadas. E agora elas gozam. E riem. De mim! Ah, tenho saudade das putas, dos sabonetes e da poesia. Esqueça, maldito, dos cheiros das putas, dos sabonetes e do cheiro da poesia. Toque a marcha nupcial, que a fúnebre não presta a essas horas. Nada mais tem importância, porque o mundo que eu conheci acabou faz tempo. O tempo acabou. E eu, encostado no paredão, estou fumando que nem um condenado.


25/10/2012

 
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1 Comentário
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Lu Genez

Tão atemporal. Parece que os olhos vêem há tempos, e sentem demais.

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