(Rimas & Cenas) Domingos Carvalho da Silva – Apocalipse (Interpretação João Ângello)

Domingos Carvalho da Silva (Leiroz, Portugal, 21 de Junho de 1915 – São Paulo, Brasil, 26 de Abril de 2003) é um escritor brasileiro. Domingos nasceu em Portugal, na aldeia de Leiroz, 15 quilômetros ao sul da cidade do Porto, mas radicou-se no Brasil desde 1924, instalando-se em São Paulo, passando a ser considerado paulista.

 

Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo (1937), naturalizando-se nesse mesmo ano como cidadão brasileiro. Advogado, funcionário federal e jornalista, foi também poeta, contista e ensaísta e lecionou Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na Universidade de Brasília.


O principal mérito da sua poesia reside na versatilidade de formas, temas e tons. Importa destacar que, incumbido pessoalmente pelo próprio Pablo Neruda, fez a tradução de seus 20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, publicada em 1946.


Fez parte da Geração de 45 (grupo e movimento que ele assim batizou, da poesia brasileira).


Foi fundador da Revista Brasileira de Poesia e da Revista de Poesia e Crítica e recebeu o Prêmio Olavo Bilac, em 1950, oferecido pela Academia Brasileira de Letras, e o Jabuti, na categoria poesia, com o livro de poemas intitulado Vida Prática, em 1977.


Foi o redescobridor da obra de Maria Clemência da Silveira Sampaio, a pioneira da poesia do Rio Grande do Sul.


https://pt.wikipedia.org/wiki/Domingos_Carvalho_da_Silva

Apocalipse

Porque a lua é branca e a noite

é simples anúncio da aurora;

e porque o mar é o mar apenas

e a fonte não canta nem chora;

 

e porque o sal se decompõe

e são de água e carvão as rosas,

e a luz é simples vibração

que excita células nervosas;

 

e porque o som fere os ouvidos

e o vento canta na harpa eólia;

e porque a terra gera os áspides

entre a papoula e magnólia;

 

e porque o trem já vai partir

e o corvo nos diz never more;

e porque devemos sorrir

antes que o crepúsculo descore;

 

e porque ontem já não existe

e o que há de vir não mais virá,

e porque estamos num balé

sobre o estopim da Bomba H:

 

não marcharemos contra o muro

das lamentações, prantear

a frustração de tudo o que

sonhamos ousar, sem ousar.

 

Títeres mudados em gnomos,

enfrentemos o Apocalipse

como pilotos da tormenta

entre o terremoto e o eclipse.

 

Vamos dançar sobre o convés

enquanto o barco não aderna;

vamos saudar o sol que morre

e a noite que vem fria e eterna.

 

Vamos zombar deste universo

em nossos olhos reflectido;

quando os fecharmos, será como

se nunca houvesse existido.

 

Vamos crepitar entre as chamas

nosso último arrebatamento;

porque amanhã seremos só

um pouco de cinza no vento.

 

Domingos Carvalho da Silva, in ‘A Margem do Tempo’

 
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