Poesia: Barata Cichetto – Pudim de Pão

Barata Cichetto


Ou: Verdades Ditas Por Um Poeta Maldito Sem Dom Nem Talento

“Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer” – Mário Quintana

Mas eu que dos belos não sou aquele que estonteia

A não ser que por belo chames o que te despenteia

E talvez as minhas mãos te sejam grandes demais

Ou quem sabe o meu pau não te satisfaça jamais.

 

E ainda que eu te tenha apenas por desejo de sexo

Ou que minhas ideias pareçam idiotas e sem nexo

Ainda assim sempre serei aquilo que desejo de mim

E se não foi um bom começo, que seja o melhor fim.

 

Não mentir, o pacto que nunca foi cumprido a risca

E só há mentira nos teus lábios, uma verdade arisca

Há tempos eu perdi a minha esperança e paciência

E se apenas matemática explica, que viva a ciência.

 

Quatro horas da manhã, perdi meu sono de novo

Pensando sobre a origem da galinha e de seu ovo

E sobre um poema que deixei de escrever de tarde

Mas quem sabe o quanto dói aquilo que me arde?

 

Tento a sorte, mas ainda não há putas no puteiro

É ainda muito cedo, afirma na entrada o porteiro

E no bar a mulher tem um cachorro, uma cadela

Mas ainda não sei se a fodo ou se cuido bem dela.

 

A mulher olhando, tomando cachaça com groselha

Jeito de mendiga, é um tanto magra e outro velha

Um Cynar, um Marlboro vermelho e olhar sedutor

E com o copo na mão ela pergunta se sou o doutor.

 

Não comi ninguém, nenhuma puta afrodescendente

Nenhuma vadia politicamente correta sem um dente

Bato punheta sob os olhos de curiosidade das gatas

E sonho com as gostosas fodendo comigo nas matas.

 

E tuas mentiras repousam silenciosas nos teus lábios

Busco nas estantes a explicação por parte dos sábios

E nas respostas não há consolo, concluo entrementes

Não há verdade que alivie a dor que sinto nos dentes.

 

Na madrugada fria há muita tristeza e nenhum sono

Escrevo poesia, busco a catarse de um cão sem dono

E se um dia acreditei nas tuas mentiras foi por medo

Por acreditar que na tua verdade havia um segredo.

 

Não há sangue na lua, apenas em meus olhos fundos

E não há segredos, mas medos nos sonhos profundos

Ontem a noite eu me despi de mim dentro do banheiro

Pensando que não há o que pagar com o meu dinheiro.

 

Jogue enquanto eu escrevo, me desespero ou me mato

Nos teus jogos não há lugar para meu desespero nato

Sou fim de feira, uma fruta sem cor, um tanto amarga

E ontem a noite bebi, que a maldita dor não me larga.

 

Cinco da manhã e outro poema parido com muita dor

Poemas são sempre filhos bastardos de um torturador

E se não há traição nas tuas fugas chame de maldição

Pois na vida metade é gozo e a outra pura contradição.

 

Por que finges interesse em minha poesia mundana

Se já não há mais poesia dentro da espécie humana?

E por que finges ter uma satisfação que não lhe cabe

Fingindo não saber aquilo que todo mundo já sabe?

 

É o fim, tenho que reconhecer com tristeza e infelicidade

A despedida de mim, de meu caminhar torto pela cidade

Preparo meu café com veneno antes que o dia amanheça

E deixo a morte chegar antes que de mim eu me esqueça.

 

Se morri foi ontem, minhas mortes tenho todas na memória

E se um dia esquecer é porque é a ultima da minha história

É disso que fala minha poesia e sobre isso é tua diária lição

Sobre como minha morte será o palco de tua eterna aflição.

 

Fostes a ultima chance que dei a mim mesmo, a derradeira

E percebo que a mentira é a única coisa de fato verdadeira

Falo sobre mim, traço parábolas para que sirvam de alento

Verdades ditas por um poeta maldito sem dom nem talento.

 

9/4/2015

 
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