Poesia: Barata Cichetto – Muito Antes do Fim, Pouco Depois de Mim

Barata Cichetto


Mas ainda antes de chegar o meu fim,

Tenho muita coisa a falar sobre mim.

 

Falar sobre o que paguei sem ser devido,

E o que emprestei e nunca foi devolvido;

Sobre os juros que foram cobrados a vista,

E sobre o que eu nunca falei na entrevista.

 

Mas ainda antes de ao meu final chegar,

Tenho muito a dizer sobre o que é negar.

 

Quero antes contar sobre fetos abortados,

E de caminhos retos que foram entortados;

Falar sobre coisas que jamais enxerguei,

E as sobre lágrimas que nunca derramei.

 

Mas antes ainda que eu comece a feder,

É preciso falar de mim sem lhe ofender.

 

Quero falar sobre mentiras e sobre verdades,

E a respeito de desejos e de meias vontades;

Das princesas que nunca foram rainhas de fato,

E rainhas que traíram com cachorro e com gato.

 

Mas, até que eu pare enfim de respirar,

Preciso poetar até a minha cota expirar.

 

E então quero vomitar pelos cantos da Terra,

Sobre como perdi lutas sem entrar na guerra;

Contar sobre as mulheres que nunca fodi,

E encontrar as coisas que eu nunca perdi.

 

Mas, e até que minha carniça desça à campa,

Quero te escarrar antes de fecharem a tampa.

 

Em meu último suspiro ainda gritarei por justiça,

Porque se ainda eu respiro é apenas por preguiça;

E se não lhes peço desculpas por ser o ofendido,

Também não imploro perdão por ter sido traído.

 

Mas enquanto o relógio não marca a minha hora,

Preciso contar sobre a maldição de uma senhora.

 

E eu não falaria de nenhuma, não fosse por ela,

Pois um felino não é cria amada de uma cadela;

E se apenas a porca pode gerar o porco fedorento,

Sou apenas um fruto pobre de um ventre nojento.

 

Mas insisto enquanto posso e resisto ainda vivo,

E quero foder muita buceta enquanto sobrevivo.

 

Foi de esperança que alimentei a peste do meu ser

A víbora maldita que todo dia via em mim crescer;

E quando a desgraça bateu em minha porta feito cão,

Dei de comer, e a sempre faminta mordeu-me a mão.

 

E antes de acabar de falar de mim, falarei dos putos,

Que ficarão depois que eu for, tal mortos insepultos.

 

Que tudo de bom que perpetrei lhes seja o tormento,

Pois será esse o real, e o meu verdadeiro testamento;

E que o mal que causaram abunde em suas memórias,

Pois morro, mas não poderão apagar minhas histórias.

 

05/10/2018

 
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2 Comentários
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Lu Genez

Absolutamente fantástica…. Essa poesia forte, sem trava na língua, despudora e desaforada. Acho que é para poucos…. Para aqueles que vêem o quanto de realidade e crueza ela trás.

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