Crônica: Barata Cichetto – Memórias Plenas de Um Esquecido

Barata Cichetto

Eu queria ter esquecido. De ter aparecido. Esquecer de ter sido. Esquecer de ter ido. Esquecer de ser. Até não ter mais nada por esquecer. Queria ter esquecido que o dia tenha amanhecido. Queria ter esquecido de nascer quando não me quiseram viver. Queria ter esquecido de crescer quando me quiseram pequeno. Queria ter esquecido de esquecer quando me quiseram sem memória e sem história. Quando rasgaram minha certidão. Queria ter esquecido de ter feito tudo que fiz. E ter sido apenas que eu tinha esquecido de ser. Esqueceram de mim feito um brinquedo depois de crescido. (Esqueci-me de mim e não poderia ter esquecido.) Esqueceram de mim feito um cavalo de pata quebrada. Queria ter esquecido. De ter sido pai. De ter sido marido. Queria ter esquecido de não ter traído. Queria ter esquecido de não ter morrido. Queria ter esquecido de ter sofrido. A carne é fraca grita a vaca. Do boi só se perde o berro grita o dito. E qualquer fruto maldito do teu ventre esquisito. De teus pés tortos e de tua boca imunda e vagabunda. Queria ter esquecido. De ter sido. O que não fui. Queria ter desaparecido. Nas trevas. No meio das ervas do quintal. Queria ter ferido. Com metal quem avançou meu sinal. Quem quebrou minha confiança e matou minha esperança. Queria ter enfiado um punhal na tua garganta. Na hora da janta. Logo depois do Carnaval. Te enterrado no matagal. O mesmo onde enterrou tua calcinha. Ter enfiado tua cabeça torta na mesma privada onde jogou minha filha. Queria ter esquecido o que era certo. Honrado e não ter chorado tanto. Queria ter esquecido que era bom. E ter feito das tuas tripas um coração. Queria ter esquecido de não ter te matado enquanto podia. Pasto de covardia. Poço de hipocrisia. Queria ter esquecido. De ter sofrido. De não ter morrido. De ter matado. O que podia. Enquanto podia. Enquanto fodia. Queria ter esquecido. A carteira. E ter voltado. Antes da feira. Da segunda. Ou da sexta. Queria ter esquecido. De ter ido ao trabalho. A semana inteira. Queria ter morrido atropelado. Na Paulista. À vista. Antes da entrevista. Queria ter esquecido de ser gente. E te deixar doente. Morrendo à míngua. Não ter recolhido tua sujeira. De não ter espremido. Tua cabeça feito um tubo de pasta de dentes. Queria ter esquecido. De tomar o comprimido. Antes de ter ido ao psiquiatra. Queria não ter esquecido. De ter ferido. O impreterido. Queria não ter esquecido. E ter fodido. Quem queria foder. Queria ter comido. Traído. E ter sido. Chamado de perdido. Antes de me perder. Queria não ter sabido. Ter saído. Antes da hora. Queria não ter sentido. O estômago moer. Queria ter ido ao teu enterro. Não ao meu. Queria ter carregado a alça do teu caixão. Não ir sozinho ao cemitério. Queria ter te matado. Mesmo que em sonhos. E não ficar atado. Ao meu próprio pesadelo. Queria ter querido. Queria ter preferido. Morrer. Antes de ser morto. Queria não ter parido. Queria não ter esquecido. De ter partido. Quando fui partido. Em pedaços. Tão pequenos. No teu liquidificador. Queria não ter arrefecido. Meu ódio. E não ter perdido minha ira. Queria ter esquecido de ir a missa do meu próprio casamento. De ter ido ao culto ao teu deus de mentiras. De ter lido. Teu livro de mentiras e traições. Teu evangelho escaravelho. Queria ter esquecido. De ter sido extraído a força do meio do jogo. E ter sido jogado no fogo. Queria não ter queimado. No Inferno. De terno E gravata. Queria ter dito bravata. Te comido na mata. E jogado fora minha cueca. Cheia de meleca. Queria ter esquecido de ter te conhecido. E agora não precisaria querer esquecer de ter nascido. Nem lembrar de não ter morrido. E antes que eu tenha esquecido. Quero ser grato. Por ter comido no seu prato. O resto da comida. Que eu paguei. E que outro comeu. Queria não ter esquecido. Queria não ter vivido.


04/11/2019

 
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