Poesia: Barata Cichetto – Inocência, Cristo e a Graça

Barata Cichetto


– Não atire em mim! Sou apenas o escritor.

– Poeta não é escritor!

– Bang-bang-bang!

Acabou! A falência múltipla dos órgãos excluiu outro parágrafo, e uma linha de sangue escorre pela folha de papel que recobre o corpo. Já era! Foi. Finitto! Onde anda a filosofia? Debaixo de sete palmos nalgum túmulo de cemitério parisiense construído no século dezenove. Ai de mim ser filósofo, pensou Freud antes de morrer. E então, com quantas canoas se faz um pau? Basta destruir a canoa e tem um monte de madeira molhada.  Autofalência. Demência e dormência. Onde anda Inocência? A inocência encontrei há uns anos num puteiro do centro da cidade. Ela sabia chupar um pau como ninguém. E tinha também um crucifixo preso com uma corrente de prata no pescoço, que balançava enquanto ela sorvia meu mau com gosto. Ela sorria, eu gemia. E o Cristo pregado naquela cruz me olhava pensativo sobre o que tinha feito. Eu sabia o que ele pensava. Eu via nos olhos daquele Cristo de prata toda a angustia da santidade. Mesmo quando ele estava parado, no meio daqueles peitos enormes de Inocência, sabia que tinha errado. Por isso ficava ali, brilhando e sonhando, sem encostar-se àqueles mamilos que eu chupava com gosto. Jamais ousaria arrancar aquele crucifixo. Seria pecado mortal. Mas um dia Inocência me deu aquele crucifixo e eu o pendurei na minha cama. Batia punheta e ele ficava me olhando. Eu pensava em Inocência e na sua buceta que pegava fogo. E dos olhos daquele Cristo torto de metal precioso, esculpido numa máquina operada por um operário mal pago, estava escrito: “Vai se danar, seu pecador de merda. Eu me fodi todo e tu ai, batendo punheta e pensando numa puta”. E eu, que nem sabia o que falar, apenas joguei a joia no vaso sanitário e dei descarga. Inocência que me perdoe pelo presente que me deu. E por Inocência virei escritor. E por indecência minha virei poeta. E se nem escritor nem poeta, virei homem, não quero saber quem morreu por mim, a não ser eu mesmo, que morro por mim todos os santos sete dia da semana. Inocência morreu logo depois disso. Foi assassinada por um pastor evangélico com jeito de galã de nove, com um fedor de urina e suor. Pobre Inocência, ainda penso eu. Nunca mais bati punheta. Nem comprei outro crucifixo.


– Guarde sua arma! Fique com minha alma! – Gritei ao pastor.


– Sua sina é estar vivo! – Vociferou o maldito, do alto do púlpito de cristal.


Mostre sua arma. Mostre sua alma. Com quantos pensamentos maus a gente vai para o Inferno? Pergunto eu ao Demônio com jeito engraçado que aparece todos os dias em meus sonhos. – Eu tinha que falar que são pesadelos? Afinal sonhos seriam com Anjos… –  Quando eu morri o sonho acabou. O pesadelo nem sei onde anda. Inocência, querida inocência… Tenha clemência, senhor Demônio. Minha carne ainda precisa borbulhar. Ainda preciso ter do que me orgulhar. Bobagem essa coisa de se sentir homem depois de plantar árvores, ter filhos e escrever livros. Balelas.  Essas coisas não fazem de ninguém um homem. Nem mulher, nem merda nenhuma. Escrever poesia muito menos. Todos escrevem poesia… Mas onde anda mesmo a Poesia? Ah, a poesia, aquela vagabunda satânica, preguiçosa e chupadora de pau? Morreu? Inocência era a Poesia. Ou estava a Poesia naquele crucifixo que joguei na latrina? Acabem com a família, com a autoridade e com a tradição. Não há perdão. A mim, não! Fui condenado à morte desde o nascimento. Claro, todos fomos. A sentença será cumprida no dia da sua morte. E por sorte ainda terás um tempo, preso no Corredor da Morte, esperando a ultima oração de um padre pedófilo pederasta, que acabou de chupar o pinto de um moleque de dez anos na sala ao lado. Malditos padres! Malditos moleques.  E a Santa Madre Igreja, nem por um minuto que seja, ensejará punição. Mas sou eu, que no Corredor da Morte, espera a execução na cadeira elétrica. Mas estou com fome. Tenho direito a última refeição. Tragam carne, muita carne. Tragam presunto, bacon, batatas fritas e uma bela buceta. Quero comer antes de morrer. Aquela bunda enorme que baila na esquina e que me pede, feito uma criança por um doce, que eu a foda de quatro. Mas agora é tarde, estou faminto e nem dormi. O padre com o crucifixo nas mãos – Seria o mesmo que joguei na privada? – Reza baixinho por minha alma e eu nem sei o que falar. Ele pergunta se me arrependo de meus pecados. E eu lhe digo que pecar é algo que nunca fiz. Quem é meu juiz? Eu mesmo, Luiz! Foda-se padre. Apertem logo o interruptor e acabem com essa agonia. É meu dia. De morrer.


– O que você está escrevendo? – Pergunta minha mulher.


– Escritos. Proscritos. Descritos como tal. Por um tal… De… Sei lá.


Escrevo… Ainda escrevo… Mas parece que a palavra mágica é… Qual é a palavra mágica? Que abre portas, que encerra delírios? Que paga as contas? Qual é a palavra mágica para foder tantas bucetas quanto eu puder aguentar? Use a varinha de condão, Fada Safada! Anjo da Guarda dos Putos. Santa da Inquisição. Use a vara e puxe o cordão. De isolamento. Um lamento. Por mim. Lamente por não chupar meu pau. Experimente meu mingau. Tanta mulher querendo dar. E eu querendo ter dinheiro. Meus óculos quebraram. Ah, não, estou mentindo. Tomei um porre outro dia e deixei cair no banheiro público da estação de metrô. E não foi na Linha 743, que essa é do Raul. A minha é a Vermelha. Cor de Sangue. Periferia nojenta. Qualquer periferia é.  Barracos, cacos, favelas e novelas das oito. Quer um biscoito? Prefiro um coito. Com a atriz de pernas compridas da novela. Ela não fode comigo. Tem dona! Desgraçada! Maldita filha da puta que não quer foder comigo. Só na novela. Ah, vou escrever uma novela. Vai passar na Globo. Um drama lindo, daqueles de arrancar lágrimas de senhoras mal comidas que não tem coragem de arranjar um amante e ser comida enquanto o porco do marido arrota cerveja e assiste futebol nas noites de Quarta-feira. Nunca tive amantes. Casei com todas. E que tal foder com a atriz grandalhona de pernas longas nos bastidores na gravação da novela? Eu sou escritor, sou o autor. E posso melhorar seu personagem. Chupa meu pau que te dou um papel. Higiênico.


– Mas que graça tem isso? Pergunta o comediante.


– A Graça era outra. Era a irmã de Inocência. Era lésbica. – Respondo eu, do alto dos meus cinquenta e oito anos.


Alguém pode me dizer em que ano foi que eu morri? Como foi meu enterro? Qual foi meu erro? Tinha muita gente chorando? Quantas piadas foram contadas durante meu velório? Eram engraçadas? Qual era a graça? – Juro que não sei. Mas juro que pensei. Tem um tempo aí? Espera um pouco. Não vá embora. Agora. Fique mais um pouco. A solidão é ruim. Certo… Desapareça, mas não se esqueça de me lembrar de que estar só é bom. Fico com meus medos, fique com seus segredos. É cedo ainda para recomeçar. Mande embora o cachorro. Peça socorro. Queriam que eu fosse um cachorro abanando o rabo, mas sou um gato sobre seu telhado. Um gato malhado. Que te arranha a cara. Que te desmascara. Que te encara e te escarra. Um gato. Mas não fuja, não tenha medo de mim, só porque eu tenho. Eu tenho. De todos teus amantes não sou o melhor, nem o mais fiel, mas sou aquele que te faz jorrar. E o que importa? Perdi teus melhores anos, perdestes meus melhores planos.  E agora, restou o resto do tempo que eu tenho contigo. Quer um remédio? Meu tédio? Assedio? Quer minha experiência? Minha demência é de Graça. Dei de graça. E a Inocência, aquela que eu joguei na latrina junto com o crucifixo está morta. Chega de desgraça. De graça!


01/08/2016

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Lu Genez

Que texto bárbaro. Forte. Cru. Cruel… tão tapa na cara. Simplesmente, fantástico. Parabéns.

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