Ibrahim Khouri – Avanço e Retrocesso (6)

…Tortuoso caminho se deu meu retorno, numa cidade de armadilhas, trilhas, atalhos, onde há o marcado baralho, e a viciada roleta que gira, aqui a rede acaricia e fere embalando, num eterno vai e vem…Até quando? Lá atrás ficou a minha doce criança! Emotiva, cheia de contraste, vivia cercada de esperanças ― Uma frágil planta presa à Haste… Sempre preciso pari-la pra compensar meu “Eu ” adulto; fujo naquele recanto, onde só ela escuto; Ligados por um elo interno, somos dois -uma mesma pessoa ― Uma escondendo um inferno, outra travessa e à toa. Somos eu e meu lado menino, feliz, mal-educado, tão forte na sua impotência, longe do ser perfeito, é todo meu lado direito cantando o doce passado, aqui, pra mim, tudo é tão diferente, quanto a ele,… Nada o transforma, com seus olhos de novidade, vai quebrando as vidraças da norma. Por isso quando os males da vida, desfazem a vista bela, tornando a dor tão enorme. Juro! Eu acordo meu lado criança que dorme e choro junto com ela, portanto quando às vezes estou fatigado, meus pensamentos percorrem a distância e comigo vão buscar na minha infância, um fato alegre… Bem engraçado, ora uma cidade que aparece, outra, mais outra que se segue, até chegar na estação que me aquece, a feliz e inesquecível Campo Alegre, onde o trem ia embora dando gritos Piuí…Piuí…Piuí,  talvez tenha brigado com a Estação. Lenços sacudindo tão aflitos, tentando assim chamar minha atenção, Ah, mas eu sai correndo pela areia, sem imaginar sequer outra parada, sou o centro, tudo me rodeia, o araçá, a gabiroba, o campo, a manada, Mas agora, a não ser lembranças caras… Meu Deus do céu! O que restou dos meus costumes, do menino feliz das noites claras que corria atrás dos vaga-lumes, como vê o meu regresso enfrentando ora o Avanço, ora o Retrocesso… Hoje… Tudo é tão igual, sem olhos de novidade em meio as forças ocultas que agem, não há mais o grito livre, está preso na garganta, eu não sei descobrir o pássaro que canta, Defendido por uma densa folhagem… Que saudades! O menino via um potro, diferente de um cavalo, o cão dele, sempre foi o mais forte, as árvores, em gestação, davam frutos e eu amanhecia com o canto do galo Uuú Uuú , tudo tinha uma dimensão maior, mas era tudo tão de verdade, porque assim eram descobertos pelos meus olhos de novidade, À noite, não havia só lua, estrelas, era uma festa onde brilhavam os pirilampos, os vaga-lumes. Tudo era surpresa: O apito do trem na estação, ninguém sequer falava em contra mão, a Lei era o bom senso, o costume, e a gente sempre fazia folia, sem se importar com a surra, havia o reino da fantasia pra espantar o silêncio. Não! Não se sentava a mesa vazia, havia brinde, oração, companhia, e eu logo queria ter mais idade, sem imaginar que os anos cegariam meus olhos de novidade. Hoje sou este grande sem graça e não fosse, meu neto, meus sobrinhos com suas travessuras, resgatando-me na meia idade, tudo o que se foi, se perdeu ―  meus olhos de novidade ―  Que saudades… Que saudades…

Continua…

Ibrahim Khouri, poeta, escritor. Guarulhos – SP

 
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