Ibrahim Khouri – Avanço e Retrocesso (1)

Foi lá que morreu o meu sonho… Num chão batido, deu seu último suspiro, mas ainda ecoa o barulho do tiro, que meu vizinho não ouviu pela televisão, – nossa única janela de acesso -, por onde não recebo seu cumprimento, ele não vê o sorriso que dou, o aceno de mão que eu não faço, mas nós sabemos da nossa existência, só que a certeza, corre por conta do acaso; ora uma luz se acende, ora outra que se apaga, o barulho da água da torneira, o lixo na lixeira no dia certo, – é a moderna e velada forma de comunicação -, fortes indícios de que há vida: como ele, da minha janela eu ganho o mundo, basta um movimento da mão, um simples esticar do braço, e o planeta ajunta-se em pouco espaço. Sem abrir a porta eu ganho a rua, vejo praças, pessoas, violência, guerra, crimes e tudo que acontece na terra, às vezes em edição extraordinária; participo de palestras, encontros e debates e sofro com a luta da triste classe operária. Diante de minha janela sou um estúpido livre, uso tão pouco a inteligência… Solitário, não faço julgamentos, nem tiro conclusões: não há alternativas, pra que criar suposições? Não deixa dúvidas, nem preciso valorizá-las, sem com quem falar, por que pensar? Tudo se resolve, quase sempre acaba bem, e como se fosse uma eterna oração, fecho a janela, vou me deitar dizendo amém…

 

Continua

Ibrahim Khouri, poeta, escritor. Guarulhos – SP

 
Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
Assinar
Notificar
guest


Atenção: O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais ao autor, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

 

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Site Criado Por Barata Cichetto - (16) 99248-0091