Poesia: Barata Cichetto – Devastação

Barata Cichetto

“Sabes quem sou eu?” – Perguntou a moça de tranças,

Assentada no dorso de um cavalo, com duas crianças.

Uma princesa, creio, respondi encolhendo os ombros,

E olhando a terra devastada que jazia em escombros.

 

“Mas como sabes que sou princesa, oh, nobre vate?”

Inquiriu a donzela, nem tão bela, e como quem late.

A princesa da morte, decerto; olhes bem o que cavalgas,

Um velho garanhão sem dentes e de patas muito largas.

 

“Falas de meu rocim, tolo plebeu de odes vadias?”

Quis saber a dama que nas mãos trazia covardias.

Falo de teu cavalo, de tua algibeira, e de teu chicote,

Disse eu, olhando-lhe os seios por debaixo do decote.

 

“Que ousadia tem o poeta chamando-me de sombria,

E não fosse eu acracia princesa, a tua sorte eu selaria.”

Disse a dama, se enroscando nas rendas do seu tecido,

Tropeçando nas pedras e rasgando inteiro seu vestido.

 

“Como ousas olhar para mim com olhares tão fogosos,

Pois não sabes que sou apenas dos nobres fragorosos?”

Enxotando o animal a possuí sobre a terra calcinada,

Sob os aplausos escandalosos de multidão alucinada.

 

“Que queres de mim, depois de ter minha virgindade?”

Perguntou a mulher, com sorriso de falsa ingenuidade.

Quero que montes no teu pangaré e sumas nas cinzas,

Respondi-lhe com o orgulho tolo de velhos ranzinzas.

 

“Sou uma princesa, por acaso terás disso esquecido?”

E sua pergunta era arrogante e me senti enfurecido,

Juntei-lhe pela garganta e atirei-a ao solo feito boneca,

E a peruca caiu ao longe, exibindo uma cabeça careca.

 

“Vês agora, inominável poeta, que selastes a teu destino,

Pois que posso com minha lança rasgar-lhe o intestino?”

E das brumas negras surgiu uma horda de maltrapilhos,

Brandindo foices e martelos sob as ordens de caudilhos.

 

“De que forma desejas morrer, oh poeta de ode pervertida?

Basta-me, no entanto um dedo, para sua pena ser invertida.”

E a perversa amparada pelos soldados pisou meus bagos,

Com o batalhão de famintos sucumbindo aos seus afagos.

 

“Posso arrancar-lhe tudo aquilo que tens de riqueza, poeta,

E jamais andarás pela terra devastada fingindo ser profeta.”

Resfolegando feito cavalo, gritei-lhe um insulto inauspicioso,

Enquanto a maldita gargalhava derramando liquido rançoso.

 

“Maldito poeta, eu te condeno em nome da estrela rubra,

E tua existência será esquecida antes que a terra te cubra.”

Ah, maldita princesa da morte, prostituta das camarilhas,

Teu sangue imundo um dia correrá junto com tuas filhas.

 

“Insolente pervertido, que a justiça te caia sobre a cabeça,

Por justo tenha que até teu filho pródigo de ti se esqueça.”

E por ultimo pude enxergar o tirano sem um dedo na mão

Cavalgando até mim sobre as costas vergadas de um anão.

 

26/09/2019

interpretação joão angello vieira

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