Borrões

Barata Cichetto


Quero pintar. Com as tintas que tenho. Que de onde venho. Se chama tintura. Quero fazer da pintura. Meu retrato mais fiel. Da infidelidade literária. Pinto tão mal quanto escrevo. Mas não devo. Me preocupar. Que se preocupem os outros. Que não sabem escrever. Nem sabem pintar. Só lamentar. Um lamento frouxo. Feito piada de Grouxo. Marx. E eu. Que não sofro nenhum mal. Que possa lamentar. A não ser a respeito de não me respeitar. E agora ao completar. Sessenta e dois. Deixo o depois para depois. Antes de me lamentar. E se não for por dois. Que seja por outros dois. Ou quatro. Ou nenhum. Quero apenas pintar. Da cor que pintar. A dor. A flor. E o que for. De pintar. Um quadro esquizofrênico. Não acadêmico. Endêmico. Feito doença. Feito crença. Feito poesia de pintar. Sou pintor. Talvez ator. Quiçá um cantor. Desafinado. Cansado. Mas sempre inspirado. A pintar. A jogar merda no ventilador. Tinta na tela. E palavras no papel. Sou. E que não for que fique. Fico comigo. Ou como disse Pessoa. Com todos meus comigos. Na tela. Cheia de borrões. Sem sentido. Porque tenho sentido. Que preciso pintar. Seja o que for. De se pintar. Borrões!


25/06/2020

 
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