Foto: Barata Cichetto na Exposição Fernando Pessoa, Museu da Língua Portuguesa, SP - Foto Bell Giraçol.

Poesia: Barata Cichetto – Barata Em Pessoa

Barata Cichetto

 – FUNDADOR

(Rock in Poetry, Fuck’n’Roll)

 

1 –

Sou um idiota. E nem pensem em defender a mim

Esperem que eu chegue da minha história ao fim

E saberão que estariam perdendo tempo precioso

Ao defender um ser tão estúpido quanto perigoso.

 

2 –

O perigo que causo não é a outros ou a humanidade

Pois não sou eu capaz de cometer alguma atrocidade

Não uso arma alguma a não ser minha língua afiada

E não é meu feitio atirar numa multidão desconfiada.

 

3 –

Queria lembrar como era ser feto vivendo dignamente

Mas não se fazem mais lembranças como antigamente

E se me esqueço do que fui, recordo o que um dia serei

Mesmo que eu nada seja, ou apenas por um dia ser rei.

 

4 –

Se um dia fui poeta serei morto, é disso que estou certo

Não carece lembrar de mim, nem de longe nem de perto

Apenas tolo, espero fedendo em vida o reconhecimento

Que jamais chegará, disso também tenho conhecimento.

 

5 –

E se um dia minhas pernas não mais puderem se mover

E meus olhos escuros e turvos não puderem mais lhe ver

Saibam que foi por meus crimes de conduta tal punição

Um criminoso nato, o Lombroso da poesia sem redenção.

 

6 –

Nunca fui útil, nunca meus atos causaram a diferença

Aos seres humanos carentes de algo que lhes ofereça

E se não descobri nenhuma formula da tal de felicidade

Muito menos encontrei jeito novo de usar a eletricidade.

 

 

7 –

Ser desprezível que deixará por herança apenas perfídias

Pois que na desprezibilidade do seu ser provocou insídias

E fez vergonhas aos olhos de crianças com fraldas na mão

Trocando a incerteza do sim pela absoluta certeza do não.

 

8 –

Agora, forçado pela crueldade do momento de desespero

Misturo palavras idiotas num prato insosso sem tempero

Ainda insistindo em ser poeta ou algo acima da psicologia

E de todas as ciências rotas a quem chamam de ideologia.

 

9 –

E não creiam na maldição da família, na hereditariedade

Pois não há sobre a Terra um tratado sobre a severidade

Riam-se então do maldoso que coloca culpas na bastardia

E saibam que a maldade é egoísta e fruto de sua covardia.

 

10 –

Se em terras distantes, outra Pessoa falou estar perplexo

Diante de uma tabacaria num poema enorme e complexo

Eu, nessa terra miserável, coberta por injustiças e medos

Falo diante do puteiro, que não há na vida dois segredos.

 

11 –

Xingo aos mendigos que pedem um cigarro e um trocado

E se de drogas tenho medo, saibam que bebi um bocado

E nas angustias das madrugadas perdidas quebrei a sorte

Bebi caldo de desgraça e mijei na imunda cara da morte.

 

12 –

Desci escadas que subiam e subi ruas sem saída alguma

Mas no fim das contas sabia que não iria a parte alguma

E deixava que o ultimo ônibus partisse em direção a nada

Pois ficar na rua era melhor que morrer em uma calçada.

 

13 –

Há estrume preso debaixo das solas dos meus sapatos

Merda humana que gruda em mim feito mil carrapatos

E se caminho sobre a bosta, que serei eu senão fedido

Sem perdoar por mil vezes a quem tenha me ofendido?

14 –

Ah, poetas, malditos ainda mais quando ateus sem fé

Preferem o fedor da bebida amarga ao cheiro do café

Malditos desumanos que aos deuses não se entregam

Que a si próprios profanam e a alheia sorte renegam.

 

15 –

Tolos. Todos eles tolos, esses meninos e meninas vadios

Que na vadiagem e na falta de peleja parecem ser sadios

Mas cujas doenças incrustadas sob as escamas da pele

São decerto a maldição que a torpeza da mente repele.

 

16 –

Pois cale-se, maldito velho de cabelos ensebados, imundos

Não há mocinhas querendo trepar com idosos vagabundos

As pequenas sujas preferem a metafísica do chocolate

E mentiras embaladas num papel de presente escarlate.

 

17 –

Quisera eu, ah, como eu queria, diante de tanta perversão

Ser pervertido e foder diariamente como forma de diversão

Mas sofro com a fidelidade, e morro perante a adversidade

Fazendo-me amante pelo prazer e não por sua necessidade.

 

18 –

Resta entretanto a amargura deste ser, escriba da luxuria

E do qual restarão apenas os versos e um tanto de injúria

Filosofar sobre a diferença entre a liberdade e a safadeza

Sabendo de antemão não haver limites para a malvadeza.

 

19 –

Sobre meus ossos calcinados no inculto salão crematório

Cairão lágrimas de arrependimento em tom insatisfatório

E na crueza dos sentimentos, nos desejos reprimidos a dor

De saber que nem depois de morto deixo de ser um traidor.

 

20 –

Canto agora à princesa enclausurada num castelo real

Sobre seus decotes generosos e sua calcinha no varal

Escrevo odes a rainha do desejo e seu cortejo de fêmeas

E lanço a ela a maldição de ter um par de filhas gêmeas.

21 –

Uma anã assombra meus pesadelos, melada e sórdida

Desejando que a foda no cemitério, a lésbica e mórbida

Mas mortos não sofrem e meu prazer agora é defunto

E se morri entre as suas pernas, gozar é outro assunto.

 

22 –

Eu, apenas barata tonta, sem eira e nem beira

Perco o amigo e a piada, a linha e a estribeira

E se não guardo mágoa, não aceito nem peço perdão

Chuto a bunda do manco e enforco puta com cordão.

 

23 –

Havia tanto de mim naquele copo cheio de liquido cristal

Mas agora vazio e trincado, estátua de vidro no pedestal

E não há nada que possa fazer para espantar os pombos

A não ser proteger das suas cagadas e dos meus tombos.

 

24 –

Agora, deixem-me rasgar o céu com minha língua afiada

Que não tem pudor ou limite, minha língua desconfiada

E se é portuguesa minha língua, na primeira pessoa fodo

Na terceira ela jorra na minha boca o liquido do seu todo.

 

25 –

Há ratos sobre o telhado, há pratos sujos na pia da cozinha

Então bato punheta na sala e minha mulher dorme sozinha

Feito crente amaldiçoo a maldade da natureza dos deuses

E ejaculo no cimento, sobre a imundice dos últimos meses.

 

26 –

Há uma mendiga parada na rua olhando por minha janela

E quiçá pense que sou bom e que algo possa fazer por ela

Talvez me inveje, deseje aquilo que tenho por propriedade

Sem saber que de mim mesmo invejo a falta de honestidade.

 

27 –

Olho para a rua ainda por outro instante, desfile de coxas

E fico a pensar sobre a natureza daquelas manchas roxas

Se foram chupadas e perversões ou uma doença sem cura

Mas há tempo de desejar uma foda no canto da rua escura.

28 –

Sou o idiota, e bem o confessei no começo, mas nem tanto

Que de tolo nada tenho a confessar, sou perverso portanto

Pois na dualidade dos adjetivos não posso ser nada de útil

E na realidade dos objetivos, aquilo que chamam de inútil.

 

29 –

E de tudo que acreditei, nem a crença tenho de sobra

Rastejando torpe e perdido feito o rabo de uma cobra

Pois se das portas que abri fui mantido do lado externo

Me resta apenas ser defunto, ser assunto ou ser eterno.

 

30 –

Pessoas diante de tabacarias, perdidas com seus cigarros

Enquanto penso na mendiga esfarrapada e seus escarros

E nas bucetas não fodidas por falta de dinheiro e vergonha

Foda-se, que ainda quero foder a mendiga enquanto sonha.

 

31 –

Fiz um trato comigo, e nesse momento eu era o demônio

Exalando cheiro de enxofre, menstruação e do feronômio

Nesse contrato minha alma seria minha até a imortalidade

Desde que eu me desse de presente a própria paternidade.

 

32 –

Apareci a mim mesmo, numa visão infernal e quase santa

Era hora do almoço e eu ainda nem tinha vendido a janta

E prometendo que era segredo tal encontro às escondidas

Assinei o papel com o sangue de minhas unhas encardidas.

 

33 –

Eu era agora meu próprio bem e perfeito mal encarnados

Não era bom nem mau, à desculpa dos estados alterados

E ela demoníaca, refletida no espelho do motel suburbano

Então nos trocamos e nos tocamos sem ligar interurbano.

 

34 –

Feito ao homem que descobriu o fogo, abraço-me ao infinito

Atormentado e confuso, beijo seu ânus com acesso irrestrito

E nas pregas daquela bunda afundo todo o desejo insaciável

Ainda pensando no meu fracasso como poeta irresponsável.

35 –

E pelas janelas cinzas do sobrado amarelo

Eu sabia o que era burro, e o que era belo

Rostos opostos grudados em grades negras

De ricas senhoras loiras e suas faces gregas.

 

36 –

E eu, prisioneiro dos campos da cidade do pórtico

Pedia clemência aos anjos eunucos de olhar gótico

Transparente era o desejo, e incolor a fornicação

E os demônios rugiam à porta daquela edificação.

 

37 –

Agora, enquanto recordo dos tempos fatídicos

Perdido no tempo, em busca de fatos verídicos

E não há alegria que dure tanto quanto dura uma dor

Contrapontos de utilidade na manutenção do criador.

 

38 –

Há seguranças armados à porta do hospital geral

E doentes arrastados nos corredores pelo general

Broches de Che em lapelas de médicos especialistas

E mortos amontoados por salas brancas de legistas.

 

39 –

Bocarras sem dentes gritam palavras de ordem por paixão

Há tanta confusão nas mentes, pobres mortos sem caixão

Morremos aos poucos, e não falo agora de morte estética

Mas da real, da multidão classificada em ordem alfabética.

 

40 –

Agora enquanto lastimo noutra poesia matreira

E trato a arte com o fervor frívolo de uma freira

Penso na dor que sentiu Judas com suas moedas douradas

Ao saber que foi ele o traidor pelas histórias emolduradas.

 

41 –

A humanidade apodrece e morre a olhos vistos

Pois para cada cristão existem dois jesus cristos

Degenera numa orgia de auto-sacrificio

Com um leão soltando fogos de artifício.

42 –

Não se sacrifique por mim, não me sacrifico por ninguém

Sacrifício é a escravidão e servidão alimentada por alguém

Não é por pessoas que faço poemas, mas por meu prazer

E em minha poesia há muito mais que possam me trazer.

 

43 –

Não existe nenhuma sina em ser poeta

E estar morto é melhor que ser profeta

Aquele que assina a poesia é seu proprietário

E artista não é político, mendigo ou proletário.

 

44 –

Não traga a mim suas dores, não traga seus problemas

Que não posso curar e nem as transformar em poemas

A minha arte é a de lidar comigo mesmo sem segredos

Sem ter por mim as penas que lhe imputam seus medos.

 

45 –

Não lhe posso causar mal algum que já não tenhas feito

Mas se me afaga por desejo e me pede para ser perfeito

Solto minha fúria e a despejo sobre o resto que me sobra

Sabendo que foi sua a minha culpa, e foi minha sua obra.

 

46 –

Mas se é a dor algo que deseja que eu sinta

Deixe que pegue no armário a minha cinta

Marcando sua pele com as chagas das sevícias

Certo de que são suas não minhas as delícias.

 

47 –

Mas se se apega às barras da minha barba grisalha

Ou afaga o meu pinto com o fio afiado da navalha

É seu prazer que te guia, e é por deleite o seu risco

Então ouça a canção que Lou Reed cantou em disco.

 

48 –

Consagro a mim mesmo num altar de veludo vermelho

Sou meu rei, o meu senhor e o único mestre no espelho

E defronte ao meu individualismo, e avesso ao egoísta

Decreto a republica do prazer e a sociedade hedonista.

49 –

Deixe eu contar, quando chego quase ao fim da linha

Sobre o que eu quero, sobre o que tenho e o que tinha

E se o não ter é um estado de absoluta consciência

Não ser é muito menos que uma resoluta ausência.

 

50 –

Perdi o que nunca tive e das minhas perdas feitas danos

Soube que perdia apenas minhas sobras e meus enganos

Entre perdidos nunca pedidos, fiz da perda ganho infinito

Dos lucros fiz minha fortuna no correto cálculo irrestrito.

 

51 –

Sou um flautista, encantador de sapatos e serpentes

Tenho língua ferina, boca ferida e quase sem dentes

Ignoro aos contratos, não mato ratos e gosto de cerveja

Reles poeta urbano e nunca o herói de que mim deseja.

 

52 –

Além de ter fodido com putas, contraído doenças venéreas

Fui pai de um par de filhos e de outras coisas menos sérias

Se guardasse o dinheiro que paguei àquelas filhas da costela

Poderia ter comprado o caminho de Santiago de Campostela.

 

53 –

Portanto se sou vil, nunca servil, nunca sirvo de lição

E fervo, queimo e devoro, sou o fogo de sua ebulição

Arrogante, não sou flor que se cheire e nem a cocaína

Nunca sua droga, jamais seu remédio ou sua xilocaína.

 

54 –

Aborte-me se quiser se livrar da culpa de ser estuprada

E se não puder vomitar-me, feto pela boca arrebentada

Guarde consigo meu esperma feito um livro na estante

Com a certeza que te abomino todo o tempo restante.

 

55 –

Jamais estaria agora de pijamas e jogando baralho

Ainda tenho muito a foder, ainda muito trabalho

E se na tabacaria da esquina é proibido fumar cigarro

Trago na rua e na vitrine da loja cuspo o meu escarro.

 

56 –

A plateia surda, enfastiada, sem poesia ou educação

Bebe, conversa e fala ao celular sem prestar atenção

Noto a tristeza da poesia em seus olhos marejados

E sinto a dor de escrever em meus dedos calejados.

 

57 –

Em forma de musica, teria a atenção dos preguiçosos surdos

Uma imagem mil palavras, uma musica mil poemas absurdos

Mas eu não canto, sou apenas um poeta, da palavra artesão

Então não encanto e me conformo com a sua falta de tesão.

 

58 –

Da janela do casarão, na esquina do fim do mundo

Fernando sorri e me diz: “Bom poema, vagabundo!”

E todos os seus heteronômios reunidos para a prosa

Riem com a paciência do lusitano e a poesia ruidosa.

 

59 –

Ao fim, poeta, grita a audiência sonolenta e pobre

Que ainda temos outros a recitarem na área nobre

E para quê tanta verbo e tanto verso desperdiçado

Quando ainda temos um objetivo a ser alcançado?

 

60 –

Grato a audiência por escutar sem ouvir, vir sem ver

Ainda há a rua, e a poesia precisa e há de sobreviver

E por sua pouca atenção ao que não é belo ou seduz

Pois é a poesia ciência e a ela meu universo se reduz.

 

11/06/2015

Do Livro:  ” Solidão é Uma Ratazana Cinzenta”, 2018

 
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