Poesia: Barata Cichetto – Alucinação Barata na Hora do Almoço

Barata Cichetto

1 – Mote, Glosa e Alucinação

Eu era um garoto, amando Beatles e Rolling Stones em setenta e seis,
Quando um canto torto feito faca a minha carne cortou naquele mês.
A alucinação foi suportar o delírio cotidiano, e naquele ano colorido,
Cantei como se fosse morrer de alegria, como se não tivesse morrido.

 

Eu, que nunca tinha achado nada divino, e nem nada maravilhoso,
Corri pelos cantos declamando minha poesia com olhar lacrimoso,
Aguçando meu canto e meu sonho no rádio de pilha com meu bem,
E forte e tão moço, na hora do almoço, fiquei só na estação de trem.

 

E eu era um garoto amando as coisas do passado, armando o futuro,
Uma velha roupa colorida, tomando Cuba Libre e mijando no muro,
Poe tinha me dito, com seu corvo no umbral, nevermore nunca mais,
E não era por bem, nem foi por mal, mas lhe disse: o passado jamais.

 

Naquele tempo, eu nem via e nem sentia a mudança a me acontecer,
Mas sabia de cor que não podia esperar o dia inteiro até amanhecer.
Tinha aprendido nos discos like a rolling stone, Dylan e Woodstock,
O que era cruel, sonho de mel, e a vida apenas um concerto de Rock.

2 – Coração Selvagem

Faltava algum tempo para um nove oito e quatro em setenta e sete,
Populus cão fiel mordeu minha mão e eu o matei com um canivete.
Selvagem meu coração, e fui clamar pelo Luar nas areias do deserto,
Pensando ser errado o que era injusto, e imortal aquilo que era certo.

 

Sem ter aonde ir, e dentro da noite sem fim morri em oitenta e dois,
Mas agora entendo o que somente poderia entender mesmo depois,
Aqui Jazz meu coração, disse à mulher que nunca foi companheira,
Enterrando no peito um punhal, e sangue escorrendo pela banheira.

 

Ainda queria ser poeta, ainda queria ser artista, e com bolsa de couro,
E dúzias de poemas rasgados depois, troquei as rimas com um touro.
Foi-se minha lira dos vinte, foi-se a foice, o martelo e a elegia obscena.
Tinha a conta do florista, do analista e os próximos capítulos da cena.

 

Um dia sumi, uma noite ele sumiu, e era o fim do mundo da ditadura,
E o guarda-roupas e o carro na garagem ficaram olhando a fechadura.
Santa Cruz ou Maria ou em qualquer lugar ao norte de lugar nenhum,
Basta o nada para ser o tudo, e tudo o que é preciso é ser humano um.

Antes do Fim

Eu não era mais tão moço, e na hora do almoço tive uma alucinação:
Bechior e eu bebíamos vinho tinto, e cantávamos uma velha canção,
Uma balada falando de coisas assim, de money, de lua, e de nós dois,
Ele comentou sobre John, sobre America Latina e desapareceu depois.

 

Fiquei sentado à mesa posta, pratos vazios e a cabeça cheia de ideias,
E não pude nem lhe contar sobre Angela Maria e suas latinas medeias.
Belchior seguiu o caminho da morte, que traz justiça e nos faz irmãos,
Mas com palavras ainda traço o destino com o suor de minhas mãos.

 

05/11/2019

Barata Cichetto é Fundador do BarDoPoeta

 
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2 Comentários
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LuGenez

eu viajei nessas linhas. um bom passeio … obrigada.

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