Poesia na Linha

Barata Cichetto

Eram 04h04min da manhã quando tocou meu telefone. Tínhamos dormido há pouco, às cerca de 03h59min. A noitemadrugada tinha sido fantástica. Eu e Izabel tínhamos feito sexo feito dois alucinados, desde as 22h22min quando ela chegou em casa, do trabalho. E tínhamos dormido instantaneamente depois de um gozo quase interplanetário. O meu de numero 3 ou 4. O dela, talvez o 33º. Nem sei…

Do outro lado da linha, quando atendi, uma voz feminina. Sensual, doce, bela, mas feroz:

― Barata?
― Sim!
― É a Poesia!
― Quem?
― A Poesia… Aquela que você abandonou, depois de tantas juras amorosas…
― Hahaha. Deixa de brincadeira, moça. Quem é você de fato?
― Não estou brincando. É a Poesia! Sua amada… Ou nem lembra mais de mim?
― Ah… Tá certo… Mas se sei bem, a Poesia que conheço nem tem celular. E mesmo que tivesse não teria meu numero.
― A Poesia usa todas as formas de comunicação, querido Barata. Desde facas entalhando árvores até tecnologia…
― Ah, sim, mas a Poesia, não alguém que se diz chamar Poesia. Um nome estranho para uma pessoa. Seu pai tinha senso de humor…
― Eu não tenho pai, Barata, sou filha de mãe solteira… Aquela que antigamente era chamada de filha bastarda.
― Ah, entendi… Mas então, quem é sua mãe? Qual é o nome dela?
― Arte de Tal…
― Hum… É, sua mãe eu conheço bem. Ela é linda.
― Sim. Linda… E já foi a Imperatriz do Mundo, mas hoje é tratada como uma prostituta… Ela anda triste demais, só chora…
― Entendo… Mas não creio que de fato nos conheçamos… Nunca fomos apresentados…
― Nunca precisamos ser apresentados. Nos conhecemos desde o seu nascimento…
― Ah… Então… Eu não acredito nessas coisas. Creio que a conheci já bem tarde, na adolescência, na época em que conheci as putas do centro de São Paulo.
― Sim, de fato. E acredito que eu seja mesmo uma delas. E posso ser uma puta de luxo, ou mesmo uma dessas que se vendem na esquina por uma dose de cachaça.
― Ah, mas de fato, minha querida, cê é assim mesmo. E digo mais, é uma adultera. Não tem escrúpulos, não tem moral, não tem nenhum controle sobre seu próprio sexo, nem do próprio corpo. É uma dessas que andam por ai, fodendo com qualquer um. É uma piranha, usando um termo um tanto ultrapassado.
― Sim, sou assim mesmo. Acaso quer a posse exclusiva de mim? Quer que eu seja apenas sua? Lembra de do que acabou de falar, sobre como de fato me conheceu?
― Mas…
― Sem nenhum “mas”. Foi assim e assim sempre será. Sou daqueles que me sentem, que me dão prazer, que gozam comigo, que me amam de uma forma absolutamente livre.
― Então… Agora não posso mais falar contigo, Poesia. A Izabel está aqui do lado, está dormindo, depois de a gente fazer amor durante horas…
― Seu tolo… Acha que existe algo que possa comprometer seu casamento? Acredita que estou entre vocês? Que gostaria de ser sua amante? Tolo!
― Não. Sei que não. Ela, aliás, sabe o quanto eu te amo. E que jamais existiria sem sua presença…
― Então, deixe de bobagem e me tome novamente nos seus braços, faça amor comigo como sempre fez. Sou sua e sempre serei, mas somente se me desejar muito. E não sou nenhuma prostituta, não. Muitos me querem, muitos me desejam, mas é preciso mais que isso para me possuir. Nenhum dinheiro pode me comprar. Sou uma Deusa de Cristal, frágil, mas rude quando quero. E sou apenas dos que sabem sentir-me, e se apodera de mim como a raiz de uma planta se apodera da terra e esta dela. Somente assim…
― Então está certo, Poesia… Estarei contigo agora mesmo…

Eram 06h06min da manhã. A linha caiu. Izabel me abraçou e perguntou com voz de sono:
― Com quem você estava falando?
― Ah, amore, era só a Poesia…
― Puxa, eu também tive um pesadelo horrível.

E voltou a dormir. Eram 06h07min da manhã. Eu não dormi mais.

09/08/2017

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e co-fundador da Editora Poetura. Um Livre Pensador.
Contato: (16) 99248-0091

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