Pilhas

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Barata Cichetto


Acordo domingo de manhã, pensando nas pilhas. Pilhas de palavras que formaram textos, e de tijolos que formaram paredes; nas pilhas de folhas que jamais serão lidas, e nas de tijolos que foram demolidas; penso nas pilhas e pilhas de sentimentos duros aquecidos e de pensamentos puros esquecidos; penso nas pilhas de injustiças sofridas, e nas de carniças engolidas; penso nas pilhas de egos desarranjados e de pregos enferrujados; nas de madeiras serradas e esculpidas e de poesias escarradas e cuspidas; e ainda em tantas pilhas de coisas feitas, desfeitas e refeitas, que foram destruídas, prostituídas, possuídas. E nesse domingo de manhã, em que lembro de pilhas, refaço trilhas e lembro-me de filhas abortadas, e não me esqueço da injúria, da fúria, e da mentira e da traição; recordo das pilhas de livros escritos, dos trilhos presentes e dos filhos ausentes; lembro-me dos brilhos perdidos, da opacidade das almas, e das madrugadas cansadas que ficaram expostas ao tempo para serem corroídas por manhãs ácidas. Lembro-me das pilhas de putas fodidas, de esposas mal comidas e das mendigas fedidas; recordo de pilhas de orgasmos pedidos, de poemas perdidos e de amores proibidos. E por que não lembrar, na manhã de domingo, das segundas-feiras trabalhadas, e das terças aos sábados também, das pinturas, tinturas, frituras e um sem número de paredes pintadas, e de obras requintadas e bebidas requentadas; de cartas recebidas e rasgadas; das teses filosóficas, escritas teosóficas e tratados maltratados; e por que não contar, sobre pilhas de casas desenhadas, bulas resenhadas e unhas cortadas. E acima de todas as coisas, preciso lembrar, neste domingo de sol e de árvores que sacolejam na minha janela, de fraldas de bosta trocadas e lavadas, de mãos cortadas e de uma existência relegada; lembrar do que foi feito, mesmo sem jeito, das éguas encilhadas, caravanas pilhadas e ideias ilhadas. E agora que meu destino é apenas empilhar palavras, recorro à recordação, recordo a emoção e escorro feito um escorpião, entre pilhas de madeira podre, peçonhento e perigoso, apenas procurando sobreviver, apesar do meu veneno. E apesar das pilhas de feitos, entre perfeitos e imperfeitos, encaro por defeito, pilhas de ingratidão.

13/01/2019

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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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