Os Canibais Suicidas

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Barata Cichetto


Então ela me pediu: “me come!” E eu comi. Com açúcar e leite condensado. Comi com gosto, como gosto de comer. E comi primeiro seus braços, de carne mais seca, depois as pernas e o tronco. Depois comi os olhos que são bem salgados e o cérebro que é bem doce. Deixei por fim os seios e as nádegas, moles e suculentas, com um pouco de limão e umas gotas de gengibre. Comi tudo. Lambi o tutano dos ossos. As tripas joguei para os cachorros, que, aliás, eram dela mesmo e viviam me lambendo. Sobrou apenas a buceta, que guardei debaixo do meu travesseiro, e o coração que guardei na geladeira para comer mais tarde. A língua foi a única coisa que desperdicei: coloquei no triturador da pia da cozinha. Agora estou me sentindo mal, não sei se é indigestão, que aquela porra de mulher era uma criatura totalmente indigesta, ou se é por causa do leite condensado, que acho que estava vencido. Acho que vou vomitar. Preciso de um médico… Estou passando muito mal, acho que estou com febre. Oh…. Estou me torcendo de dor. Dói em tudo quanto é lugar. Já vomitei até as tripas. Os cachorros estão lambendo também. Desgraçada! Eu sabia que estava fácil demais quando ela me pediu para comê-la. Devia estar envenenada. Vai ver até tinha tentado suicidar e quis me levar com ela. Vagabunda de uma figa. Agora vou sair, vê se encontro alguma mulher bem filha da puta e dizer para ela me comer. Será que dá certo?

23/08/2019

Do Livro:
Pornomatopéias
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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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