O Planeta das Baratas

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Barata Cichetto


O solavanco na pequena espaçonave fez com as portas das câmeras criogênicas se abrissem e jogassem no solo os três astronautas. Ainda atordoados eles olham pela escotilha e percebem que o veiculo se aproxima do solo de algum planeta. Correm aos procedimentos de emergência e conseguem livrar a si próprios do desastre, pousando com segurança.

Ao descerem as escadas, após a análise da atmosfera, caminham por um terreno cheio de vegetação comum. Tudo ali parece extremamente familiar, comum, embora eles não tenham a menor ideia a respeito do lugar onde o controle automático da nave os levara. Em que planeta estariam, perguntaram uns aos outros.

Após poucos quilômetros de caminhada são surpreendidos e aprisionados por monstruosos seres do espaço. Nas celas rústicas de pedaços de madeira, surpreendem-se ao perceber que todos os prisioneiros ali são seres humanos, ao menos na aparência, embora mudos e rastejando pelo solo feito insetos. Todos ali eram escravos, e seus algozes gigantescas baratas que se apoiam nas patas traseiras e conversam entre si falando uma linguagem que àqueles três astronautas é totalmente familiar: a língua da Terra.

Durante os meses que se seguiram, dois dos astronautas morrem. O remanescente resiste e tenta entender que espécie de planeta seria aquele, onde parecia que a espécie humana tinha involuído e a dos insetos tinha andado muito rápido na escala da evolução. Seria isso mesmo? Ou naquele planeta sempre teria sido daquela forma?

A sociedade das baratas era extremamente organizada, embora ainda numa escala de desenvolvimento tecnológico que seria o equivalente terrestre á Idade Média, escreveu o astronauta no que restou de seu diário roubado da espaçonave que fora tomada e escondida pelas baratas.

Seus próximos anos foram de perguntas sem respostas e muito trabalho escravo. Acabara formando com uma das pseudo-humanas mudas uma espécie de família. Espécie, pois descobrira que todos os humanos eram estéreis e, portanto não poderiam ter descendentes. Durante muito tempo ele tenta em vão fazer com sua parceira pronuncie alguma palavra, até descobrir que isso seria impossível, pois as cordas vocais dos humanos também eram arrancadas por médicos-baratas.

O único objetivo do astronauta era fugir daquele lugar, embora sempre pensasse para onde iria. Um dia, aproveitando-se da distração dos soldados-baratas, consegue apanhar a esposa e fogem em direção a algum lugar onde poderiam ter ao menos liberdade. Roubam um dos cavalos do exército das baratas e cavalgam dias sem comida nem água até que, ao chegar a uma praia deserta encontram o que parece ser uma estátua enterrada na areia. Com as mãos, cavam até conseguirem retirar a escultura. Colocam-na em pé e o astronauta, após limpar a base da estátua e ler a inscrição é fulminado por ataque cardíaco, caindo morto sobre a areia quente.

E a inscrição, na base da estátua podia ser traduzida do alemão para: “Em homenagem a Gregor Samsa, que um dia acordou transformado em um ser glorioso.”

/2010

Universo Expandido Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo da Metamorfose de Kafka
Registrado no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional sob Nº. 6849/10 

Luiz Carlos Giraçol Cichetto, Araraquara, SP, é escritor, poeta e Livre Pensador, um dia acordou de sonhos intranquilos e se transformou em Barata.

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