O Natal e o Dia Em Que Fomos Um

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Walter Possibom


Quando eu era criança, e as festas de fim de ano se aproximavam, São Paulo sofria uma mudança drástica em seu clima. A famosa “Garoa de São Paulo” chegava até nós criando na cidade um clima londrino, a visibilidade sofria uma grande reduzida como se fossemos abraçados por uma imensa nuvem, um frio que, embora não muito intenso, vinha junto e obrigava a que nós usássemos roupas mais “reforçadas”. Junto com a garoa o meu espírito se enchia de magia e expectativa, que cresciam à medida que os dias passavam e nos aproximávamos da Data de Natal.

Tudo era diferente, pelo menos sob a minha visão de criança: as pessoas estavam mais felizes, elas eram mais corteses, o sorriso estava mais presente nos rostos delas do que de costume, as crianças brincavam mais intensamente e com mais ansiedade, pois esperavam a data do Natal para receberem os seus presentes.

Para mim e minha irmã essa data, pelo aspecto dos presentes, era mais que especial, pois devido às dificuldades financeiras pelas quais passávamos, representava a última esperança de ganharmos algo naquele ano, pois nunca recebíamos presentes em nosso aniversário e muito menos no dia das crianças. Mas tirando de fora a questão dos “presentes” eu olhava para tudo com um encantamento quase que inexplicável, imensamente pueril, eu achava que algo descia do céu e fazia com que tudo se modificasse, tudo ficasse mais calmo, mais feliz, mais esperançoso.

Eu via as pessoas se cumprimentarem desejando coisas boas uma para as outras, não havia espaço para palavras de desânimo ou de desesperança, só havia espaço para a alegria e a certeza de que dias melhores estavam por vir. A televisão nos inundava com filmes com histórias sobre o Espírito Natalino, me recordo de que eram histórias maravilhosas cujas narrativas permeavam histórias de pessoas comuns em situações de grande sofrimento e dificuldade, mas que ao final conseguiam superar essas agruras e conseguiam criar horizontes mais felizes.

Eu me emocionava muito com essas histórias, raras eram as que eu não chorava ao final pelo desfecho feliz. Tudo isso misturado criava esse “encantamento” que me tomava o corpo todo.

Eu me recordo que nessa época eu ficava as noites deitado no quintal de casa olhando para o céu, um sorriso inevitável sempre tomava conta de meu rosto.

Eu imaginava que deveria haver outros mundos fora o nosso, e me perguntava: será que eles também tinham Natal? Não ter Natal era algo impensável para mim.

Mas esses momentos não eram só de magia e felicidade, eu também me lembrava das crianças que moravam em cidades onde a fome era o “bem comum” entre os seus cidadãos.

Eu me lembro de que nessa época, em especial, havia várias campanhas para arrecadar fundos para lugares que viviam em estado de absoluta pobreza, então eu tentava imaginar o que as crianças desses locais deviam pensar sobre o Natal. De certa forma eu conseguia ter alguma ideia sobre o que se podia passar na cabeça desses afortunados, pois eu também vivia numa situação muito ruim, embora eu tivesse uma casa onde me abrigar.

Mas eu tinha certeza de que essas crianças não conseguiriam ver o Natal como uma época de presentes como nós entendemos, eu achava que o presente que eles desejavam era composto por doces e guloseimas, pois eu tinha certeza que isso era algo absolutamente inexistente na vida delas.

Eu tinha o conceito de que uma criança normal consumia doces e guloseimas, de que isso fazia parte de sua vida e de sua criação (de certa forma eu não estou errado, hoje, frequentemente, eu participo de discussões sobre os doces que comíamos em nossa infância, o que quer dizer que os doces são fatos marcantes na infância, pelo menos de minha geração).

Eu amo a Maria Bonita (um doce que parece um sanduíche, feito com duas bolachas quadradas de côco com recheio de Maria Mole). Ou serão dois biscoitos de côco recheados com Maria Mole?

A cidade ficava toda enfeitada, por onde você passava tinha sempre algumas lâmpadas coloridas acessas atestando que estávamos numa época especial. Nós montávamos a árvore de Natal no mês de novembro, desde o início desse mês eu e minha irmã ficávamos ansiosos por esse dia, e ajudávamos na montagem felizes por saber que estávamos nos aproximando do Natal.

Certa vez eu fui com minha mãe ao centro da cidade, fomos para comprar algo que não me recordo do que se tratava, mas foi um dia com imagens inesquecíveis, nós terminamos as compras já no final da tarde, a noite estava chegando, com ela havia a famosa garoa, e me lembro de passarmos diante do Mappin, com todos os seus enfeites.

Aquela visão daquele prédio enorme todo iluminado para o Natal me deixou quase paralisado de emoção, fui tomado por sentimentos inexplicáveis, me senti como se ali fosse outro lugar, um lugar encantado, e de que a qualquer momento gnomos, fadas e elfos saíssem de dentro dele sorrindo e cantando para abraçar a todos que por ali passassem.

Eu acabei ficando com a imagem daquele prédio todo enfeitado por muito tempo em minha mente e associando aquilo a algum castelo mágico. Imaginem como fiquei triste quando da notícia do fechamento daquela loja!

Conforme os dias iam passando eu via uma modificação maior nas pessoas, era visível que certa ansiedade também tomava conta dos adultos, eu me recordo de que na casa de meus avós paternos havia a preparação para a ceia e para o almoço de Natal, sempre com comidas diferentes, acrescidas de coisas que só comíamos à essa época. Meus avós maternos voltaram à Pátria Espiritual quando eu era ainda um bebê de colo, e quase nada me recordo deles.

O panetone era algo que só comíamos no Natal, ele era algo exclusivo dessa época, então ele era sempre muito especial, nós só comíamos panetone no Natal, tínhamos que esperar essa época para comê-lo. Hoje o panetone pode ser consumido em qualquer época do ano, ele perdeu a sua “aura mágica natalina”. Eu adoro panetone de frutas.

Minha avó cozinhava castanhas, as quais eram todas devoradas por eu e pelo meu primo, acompanhadas, sempre, por um suco de limão cravo (aquele mesmo da crônica anterior).

Outra coisa que comíamos com muita vontade eram as nozes e as castanhas … deliciosas!

Minha família nem sempre passou bons natais, aliás, passamos poucos natais bons, a maioria foi ruim e decepcionante para eu e minha irmã.

As dificuldades financeiras eram extremamente limitantes e que se aliavam à algumas restrições impostas por minha mãe, numa época em que ela estava com sua mente confusa, repercutiram imensamente em nossas vidas.

Eu e minha irmã passamos vários Natais sentados ao lado da cerca que nos separava da casa de nossos avós apenas olhando a festa que se fazia ali (nós éramos proibidos de ir à casa de meus avós), quando então nós éramos chamados pelo nosso pai e voltávamos à mesa para cearmos, muitas vezes, arroz e ovo frito. Era o que tínhamos.

Eu me recordo de que certa manhã de Natal, eu e minha irmã levantamos correndo e fomos correndo à árvore de Natal, pois ali é que eram depositados os presentes, e nada encontramos.

Nós ficamos olhando um para o outro quando meu pai apareceu na entrada da sala, ele estava com os olhos vermelhos, sinal de que ele havia chorando bastante, então nos chamou, eu e minha irmã fomos à cozinha. Ali minha mãe nos deu uma cocadinha para cada um de nós e disse:
— Este ano é esse o presente que nós conseguimos dar a vocês.

Os dois saíram e eu fiquei ali com minha irmã, olhamos um para o outro, e após um tempo sem compreender o que se passava nós comemos o nosso presente.

Esse caso ficou, para eu e para minha irmã, apenas como mais uma passagem em nossas vidas, nós não ficamos bravos, revoltados, afinal de contas nós já estávamos habituados às agruras e à dureza de nossas vidas cotidianas que eram cobertas e recheadas com necessidades de todas as espécies.

Mesmo assim o Natal seguiu sendo para mim como uma época mágica, uma época em que as pessoas eram, de certa forma, estimuladas a mostrar todo o potencial do ser humano com que Deus quer que nós nos relacionemos.

A bondade, a caridade, a gentilidade, eram elementos que eu via por todos os cantos, e eu achava que o Natal servia para nos lembrar disso.

O Natal era o momento, também, para que as pessoas refletissem sobre os nossos relacionamentos, sobre a importância dos amigos e da família, do quanto é bom estarmos juntos sorrindo e vivendo bons momentos.

Àquela época nós mandávamos cartões de Natais os quais assinávamos, chancelávamos os nossos desejos e os entregávamos na mão de seu destinatário sempre com um sorriso e um abraço, hoje os cartões são virtuais, nem sabemos se a pessoa leu, ou que expressão ela teve na hora que o leu. Os tempos mudaram muito, e eu acho que para pior.

Muito mais que na minha época, hoje o Natal é anunciado como uma época de presentes, de compras, de preocupação das pessoas com a aparência física na hora das festas, dos luxos das mesas natalinas, dos enfeites e arranjos cada vez mais sofisticados e caros, numa ceia com cardápio exagerado e variado do qual sobram grandes quantidades de alimentos que são todos jogados no lixo no dia seguinte.

Porém, o importante no Natal não são os presentes nem tampouco o luxo das festas, mas sim relembrarmos o nascimento de Jesus Cristo, aproveitando esse momento para agradecermos por nossas vidas, por nossas famílias, pela saúde, pelo trabalho, etc.

Porém, na sociedade capitalista e consumista em que vivemos, esses princípios andam bem esquecidos, onde as festas perdem seu verdadeiro sentido: união, paz, amor, momento de reflexão e oração, agradecendo por tudo de bom que recebemos e conquistamos ao longo de mais um ano que se passou.

Certa vez perguntaram a um membro do povo Sioux Dakota sobre o significado do Natal para o seu povo, e ele respondeu assim:

Todo dia é nosso Natal. Cada refeição é o nosso Natal. Em cada refeição, pegamos uma pequena porção da comida que comemos e a oferecemos ao mundo espiritual em nome dos de quatro patas, dos alados e dos bípedes. Oramos, não da maneira como a maioria dos cristãos ora, mas agradecemos aos avós e ao Grande Espírito.
Somos ensinados, como crianças tradicionais, que temos abundância. O Criador nos deu tudo; a água, o ar que nós respiramos, a terra, assim como a carne e a nossa força energética além de nosso coração. Agradecemos todos os dias. Rezamos de manhã cedo, antes do nascer do sol, à estrela da manhã que nos guia no escuro. Oramos por nossos parentes que estão no universo, para que um dia eles voltem.
Não acreditamos em tirar sem pedir. As ervas recebem oração antes de serem colhidas, pedindo permissão à planta para colher algumas mudas. Uma oferta de fumo é feita à planta em agradecimento. A menos que a raiz seja o remédio que buscamos, nunca arrancamos a erva pela raiz, mas cortamos a planta até a superfície da Terra, para que outra geração nasça em seu lugar.
De maneira tradicional, explicamos às crianças que receber um presente é desfrutá-lo e, quando essa alegria acabar, elas devem passá-lo para outra criança, para que também elas possam desfrutá-lo. Se uma criança ganha uma boneca, ela muda de mãos cerca de oito vezes por ano, de criança para criança.
Todos os dias é Natal para o povo Sioux. A vida diária é centrada no espírito de dar e caminhar na “Estrada Vermelha”. Caminhar pela Estrada Vermelha significa tornar tudo o que você faz um ato espiritual. Se o seu vizinho precisa de um espremedor de batatas e você tem um que não está usando, você oferece o seu a ele no espírito de dar. Não importa se é Natal ou não.
Se vizinhos ou mesmo estranhos param para visitar sua casa, você oferece o jantar. Trazemos o bife T-bone, não o feijão. Se não tivermos o suficiente, mandamos alguém da família buscar um pouco mais, e não mencionamos o inconveniente aos nossos hóspedes. Quanto mais alguém dá, mais espiritual ela se torna. A consciência daquele que vocês chamam de Cristo, o mesmo espírito de doação que está presente na época do Natal, está presente todos os dias nos lares tradicionais Sioux.
É muito importante que esses caminhos nunca se percam. Não devemos perder o significado da palavra “tribo” (A definição do Webster para tribo é: Grupo de pessoas composto de várias aldeias, distritos ou outros grupos que compartilham uma língua, cultura e nome comuns).

Pois é, esse povo já falava isso há séculos atrás, e nós ainda não conseguimos compreender todo o significado de sua cultura e a profundidade de sua filosofia e religião, tanto quanto ainda não entendemos e nos afastamos cada vez mais do real significado do Natal.

Ainda temos esperança de um dia chegarmos a esse nível de consciência, mas isso levará vários séculos, várias gerações, a Terra passará por inúmeras transformações físicas até que isso se concretize e se torne realidade.

Talvez aí esteja os sete ciclos das sete cores das sete gerações que os Sioux tanto falam em suas “profecias”.

O Grande Chefe Crazy Horse, enquanto fumava o Cachimbo da Paz pela última vez, nos deixou palavras lindas e emocionantes, as quais deveriam servir de guia para as futuras gerações:

Mesmo com sofrimentos além dos sofrimentos, a Nação Vermelha se elevará e será uma benção para um mundo doente. Um mundo cheio de promessas quebradas, egoísmo e separações. Um mundo ansiando novamente por Luz. Eu vejo um tempo de Sete Gerações quando todas as cores da humanidade se reunirão sob a Árvore Sagrada da Vida e toda a Terra tornar-se-á um círculo novamente. Nesse dia, haverá aqueles entre os Lakota que terão conhecimento e compreensão da unidade entre todas as coisas vivas e as crianças brancas virão para estes do meu povo e pedirão por essa sabedoria. Eu saúdo a Luz em seus olhos, onde habita todo o Universo. Pois, quando você estiver naquele centro dentro de você mesmo e eu estiver nesse centro dentro de mim, nós seremos UM.

Que todos tenham um Natal abençoado pela Luz da Sabedoria, sob um clima de paz, amor e alegria, e que tracem os seus destinos dentro da linha reta da vida, assim todos nós caminharemos juntos e seremos verdadeiramente felizes.

Dessa forma um dia todos nós estaremos juntos dentro da Casa de Nosso Pai festejando a Nova Vida quando não haverá mais dor, angústia, separação e medo, só haverá amor e felicidade.

Do Livro:
Crônicas de Uma Alma Perplexa

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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