O Mundo de Cada Um

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Walter Possibom


Certa vez eu estava fazendo uma pesquisa para montar uma de minhas palestras, quando me deparei com um site que falava sobre as Unidades de Medida ao Longo da História da Humanidade.

Evidentemente que esse assunto me deixou muito interessado, e como tinha muito a ver com o assunto que eu estava pesquisando eu acabei incorporando algumas coisas dele na palestra, abaixo dou algumas impressões sobre o tema:

Num determinado momento, tocados pela necessidade da busca de melhores alimentos, nós nos separamos da linhagem dos primatas, então resolvemos descer das árvores, as mudanças climáticas estavam castigando as florestas e causando escassez de alimentos.
Nesse momento nós nos transformamos na primeira linhagem de seres pré-hominídeos bastante primitivos ainda, porém esses seres foram evoluindo numa velocidade superior à dos primatas que ficaram nas árvores, distanciando as duas linhagens evolutivas.
Após séculos de evolução, já andando sobre dois pés, essa leva primitiva deu origem ao Homem de Neanderthal, o nosso ancestral mais antigo conhecido, até o momento.
Nessa fase de nossa evolução nós ficávamos basicamente nas cavernas, então o nosso “mundo” era muito pequeno, ele ficava limitado às paredes das cavernas, os nossos olhos a tudo alcançavam, então não precisávamos de medida alguma. Bastava apontar.
Ao sairmos das cavernas nos reunimos em grupos, formando pequenos povoados, mas ficávamos sempre dentro de pequenos perímetros, o nosso “mundo” havia aumentado além das cavernas, mas não muito, os nossos olhos ainda conseguiam enxergar os seus limites, embora maiores, então um sistema métrico simples era suficiente.
Mas daí nós resolvemos explorar outros lugares, começamos a migrar de nosso pequeno “mundo” e “expandi-lo”, as unidades de medidas começaram a sofrer mudanças, pois aquelas medidas anteriores se mostravam com números muito volumosos para as distâncias caminhadas.
No Egito, por exemplo, cerca de quatro mil anos atrás, o “cúbito” era uma unidade muito utilizada, ela consistia na distância do cotovelo até a ponta do dedo médio do Faraó. O “palmo” também foi utilizado por eles, essa medida consistia na utilização e quatro dedos juntos e correspondia a sétima parte do cúbito.
A “expansão” de nosso “mundo” atingiu todo o globo, nos trazendo inúmeras unidades de Medida na dependência do lugar onde estávamos, a Inglaterra e os Estados Unidos utilizam a jarda como medida de comprimento, ela corresponde a distância entre o nariz e a ponta do polegar, com o braço esticado.
Hoje o nosso “mundo” vai bem além do que os nossos olhos conseguem enxergar, por isso foram criadas unidades de medida que fossem mais fáceis de manipular, se nós formos falar em distâncias na Astronomia jamais poderemos nos utilizar de quilômetros, por exemplo, os números seriam astronômicos (perdoem o trocadilho).
Para isso foram criadas medidas maiores, como por exemplo, o Ano-Luz, que é a distância que a luz atravessa no vácuo durante o período de um ano no calendário Juliano (na Astronomia um ano juliano é a unidade de tempo definida como exatos 365,25 dias).
Essa distância corresponde a aproximadamente 10 trilhões de quilômetros!
Conseguem imaginar essa distância? Nem eu!
Mas para termos ideia, a estrela mais próxima de nosso sistema planetário é a Alfa do Centauro, e ela está a cerca de 4.253 Anos-Luz de nosso planeta. Nossa, que longe!
Por isso, se não criarmos mecanismos mais avançado para as viagens espaciais, nós jamais conseguiremos explorar, pessoalmente, nada fora de nosso sistema planetário.
Tudo é muito distante, e somente os nossos esqueletos chegarão ao destino.

Interessante notar que o homem sempre vem ampliando o seu “mundo”, desde os tempos da caverna, e essa busca parece tão infinita quanto a infinita busca por outros sistemas planetários e estrelas. A nossa sede de expansão é insaciável.

Certa vez eu estava conversando com um amigo meu de faculdade, nascido na cidade de Castilho, sobre as possibilidades de diversão em cada uma de nossas cidades.

A cidade de Castilho fica a noroeste no estado de São Paulo, ela tem cerca de vinte e dois mil habitantes, ou seja, ela é uma cidade bem pequena, certamente menor que muitos barros aqui em nossa linda cidade. Ele me dizia que eu deveria me divertir muito mais do que ele, em virtude do tamanho das cidades e de suas possibilidades de diversão. Realmente São Paulo é uma cidade que apresenta infinitas possibilidades de diversão, mas isso pode se mostrar relativo.

Até eu entrar na faculdade eu vivia num “mundo” muito pequeno. O meu “mundo” tinha o tamanho de uma casa muito pequena, um pequeno jardim com corredor estreito ao seu lado e um pequeno terreno baldio ao lado de minha casa. Esse era o meu “mundo”.Muito parecido com o “mundo” dos homens das cavernas.

Eu não saia de casa, eu não conhecia nada além do meu “mundo”, por isso ele era pequeno. Não que eu desejasse isso, muito pelo contrário, as circunstâncias é que foram determinantes e me obrigavam a ficar na “caverna”.Mas o meu amigo, ao contrário de mim, saia nas noites de sábado para alguns lugares de sua cidade junto de seus amigos.

O que me faz concluir que, apesar de meu amigo morar numa cidade extremamente pequena, e eu morar numa cidade extremamente grande, o “mundo” dele era muito maior que o meu. Isso chega a ser paradoxal.

Eu me lembro de quando voltávamos de férias no ginásio, me recordo claramente que esses dias de pós-férias era um pesadelo para mim, pois todos comentavam para onde tinham ido passar esse período, e eu, o tinha passado no meu “mundo”. Como sempre.
A minha vontade e curiosidade em conhecer o “mundo” deles era enorme, mas eu estava preso à minha caverna.

Interessante que isso me deixava muito triste, mas nunca senti revolta nenhuma por isso, embora eu achasse que jamais iria conseguir mudar o meu “mundo”, ao longo dos anos eu mudei esse pensamento e passei a considerar seriamente a possibilidade de expandir os meus horizontes e encontrar um “novo mundo” para mim.

O meu interesse pela leitura foi despertado muito cedo, minha mãe foi a responsável por isso, e eu usei os livros para “expandir” o meu “mundo”, mesmo que de forma “virtual”. Com os livros o meu “mundo” começou a crescer com as viagens que eu fazia em pensamento aos lugares descritos nesses livros, depois de um tempo ele já não tinha mais limites, e alcançava todo o universo. Ele deixou de ter limites.
A partir disso, quando eu voltava de férias e ouvia dos colegas onde eles tinham ido eu pensava comigo:

– Nestas férias eu fui para a Rússia dos Czares, depois fui para a França de Napoleão.

Eu criei uma forma de expandir o meu “mundo”, sem que houvesse uma real expansão física. Os nossos ancestrais jamais entenderiam isso!

Eu me lembro de uma ocasião em que um amigo meu de faculdade, que morava em Jundiaí, veio passar o final de semana em minha casa, e no sábado à noite, quando fomos sair para nos divertir na noite de São Paulo, eu simplesmente não sabia para onde ir, como ele conhecia alguns lugares aqui ele serviu de guia para mim.

Vejam que coisa estranha: uma pessoa que morava em outra cidade sabia mais das coisas de minha cidade, conhecia mais coisas daqui do que eu que sempre morei aqui. Ele foi o meu guia na minha cidade. Eu confesso que me senti envergonhado por isso.

O grande marco do início da expansão real de meu “mundo” foi quando eu me formei na faculdade e voltei para São Paulo, agora eu era independente e podia caminhar, finalmente, por minhas próprias pernas. Essa expansão de meu “mundo” me traz à mente uma alegoria que eu li num livro de Platão, quando eu tinha cerca de doze anos, e que me deixava sempre impressionado, ela se chamava “Alegoria da Caverna”.

Eu tinha uma vida muito simples, em todos os aspectos, mas a descrição que Platão faz nessa alegoria, de certa forma, se compara ao que eu vivia, e isso me deixava perplexo.
Eu me sentia como os homens naquela caverna, mas que os livros foram os responsáveis pela minha saída dela, ou seja, eu precisei deum estímulo externo para essa primeira mudança, embora internamente eu a desejasse. Platão nos descreveu isso de forma brilhante:

Sócrates fala para Glauco imaginar a existência de uma caverna onde pessoas vivessem desde a infância. Com as mãos amarradas em uma parede, eles podem avistar somente as sombras que são projetadas na parede situada à frente.
As sombras são ocasionadas por uma fogueira em cima de um tapume, situada na parte traseira da parede em que os homens estão presos. Homens passam ante a fogueira, fazem gestos e passam objetos, formando sombras que, de maneira distorcida, são todo o conhecimento que essas pessoas tinham do mundo. Aquela parede da caverna, aquelas sombras e os ecos dos sons que as pessoas de cima produziam era o “mundo” restrito dessas pessoas.
De repente uma dessas pessoas é libertada, e passa a andar pela caverna, ela então percebe que havia uma fogueira e pessoas projetando imagens nas paredes, os quais todos ali julgavam ser a totalidade do “mundo”.
Ao encontrar a saída da caverna ele leva um enorme susto ao perceber que havia um mundo além da caverna, havia um mundo além do seu “mundo”.
A luz solar ofusca a sua visão e ele sente-se muito mal, desamparado, desconfortável e deslocado.
Aos poucos a sua visão vai se acostumando com a luz, então ele percebe que esse “mundo” ia muito além de onde os seus olhos conseguiam enxergar, ele percebe a natureza que existe fora da caverna. Muito diferente daquela que havia dentro de sua caverna.
Ele então percebe que aquelas sombras, que ele julgava ser a realidade, na verdade eram cópias imperfeitas de uma pequena parcela da realidade.
O homem liberto tinha duas opções: retornar para a caverna e libertar os seus companheiros ou viver a sua liberdade.
Uma possível consequência da primeira possibilidade é o risco dos ataques que ele sofreria de seus companheiros, que o julgariam como louco (nada a ver com a nossa realidade atual, não é mesmo?), mas poderia ser uma atitude necessária, por ser a coisa mais justa a se fazer.

Platão nunca deixou de ser atual, o seu livro “A República”, é, talvez, a obra mais complexa e completa de Platão. Ela é composta por dez livros, ela fala de formas de governo e política para chegar ao modelo político ideal, mas os ensinamentos que ela contém podem ser aplicados ao cotidiano do mundo. A “Alegoria da Caverna” pode ser encontrada no livro seis.

Muitas pessoas se negam a sair de sua caverna, muitas por medo do desconhecido e por falta de coragem em enfrenta-los, com isso desconhecem o que o mundo lá fora possa lhes oferecer, causando nelas angústia, dor, isolamento social, fazendo com que essas pessoas vivam numa espécie de “mundo paralelo”.

Podemos perceber, por esta parábola, que muitas vezes não sabemos o que fazer com a realidade que tomamos conta, com o conhecimento que adquirimos pela experiência de estarmos “fora” da caverna e ao nos defrontarmos com alguém que ainda vive nela.
Muitas vezes nos propomos a mostras a elas a realidade, e muitas vezes nós somos mal interpretados por esse nosso ato. Neste caso a parábola é perfeita no entendimento do porque disso.

Outras vezes as pessoas simplesmente não aceitam a verdade, por terem uma verdade diferente, muitas vezes formada com base na dificuldade de interpretação das coisas, por questões mentais, ou outras questões de ordem mais abstrata.

Essas pessoas são candidatas a desenvolverem quadros de Transtornos de Humor, o que irá implicar numa deterioração ainda maior de seu estado mental, afastando-a cada vez mais para longe da saída da caverna.Uma pena isso, seus sonhos se vão, e sua família se sentirá derrotada.

Tenho uma paciente cujo filho não sai do quarto há anos, ao contrário do que possamos imaginar, no início ele não sofria de transtorno mental algum, pelo menos de forma aparente, mas por motivos quase insondáveis ele decidiu pelo seu confinamento.

Hoje ele é uma pessoa quase que incomunicável, se recusa terminantemente a fazer qualquer espécie de tratamento. Como que ela irá sair dessa situação se para isso ela depende de um fator externo de motivação? As suas correntes serão incorruptíveis.

Eu conheço muitas pessoas que vivem em sua caverna há muito tempo, e que ainda não se deram conta. Desde aquela mulher que é prisioneira dos seus afazeres domiciliares até o trabalhador que mantém uma rotina casa-trabalho e trabalho-casa, e no espaço de tempo entre um e outro fica inerte.

Temos casos de pessoas que se negam a sair da caverna, mas por outro lado temos pessoas que se recusam a ficar dentro da caverna.

Os nossos potenciais de expansão são ilimitados, não têm unidades de medida que o definam, todos nós nascemos com a vocação de expandir tudo ao nosso redor até o infinito, mas isso depende de nós. Depende de nosso equilíbrio.

Sinceramente eu acho que a modernidade, de certa forma, nos afasta de Deus, pois nos obcecamos por ela, nos deixando mais materialistas, com isso nos afastamos da fonte geradora de nossos instintos e força, com isso ficamos obcecados por “objetivos”, quando na realidade o que importa é a “estrada” que nos leva até eles.

Sinceramente eu acho que a modernidade, de certa forma, nos afasta de Deus, nos deixando mais materialistas, com isso nos afastamos da fonte geradora de nossos instintos e força, com isso ficamos obcecados por “objetivos”, quando na realidade o que importa é a “estrada” que nos leva até eles.

As descobertas são “dadas” a nós para a nossa evolução e progresso, e não para gerar em nós desconforto e desequilíbrio.

Isso causa frustração e desequilíbrio, além de nos desviar de nossos caminhos. Por isso temos tanta depressão e suicídio.

O Chefe John “Eagle Spirit”, um sábio Cherokee, nos deixou um pensamento maravilhoso:

Trace o seu caminho, sinta satisfação em saber que o final do arco-íris que você tem procurado pode ser encontrado no dedão do pé em seu mocassim, após perceber quem somos e o que temos.

PS: hoje o meu “mundo” tem o tamanho do infinito observável pelo homem.

Do Livro:
Crônicas de Uma Alma Perplexa

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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