O Grito da Caverna

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Barata Cichetto


Disseram que eu não posso falar buceta, tem que ser vagina. E então, a punheta, como fica? E pica, então? E também não pode ser caralho nem pinto, tem que ser pênis ou falo. E se falo filho da puta então, caio em contradição. E ao falar em putas, penso em condição, e em filhos a palavra é perdição. Mas tudo isso também é palavrão, palavras em vão. Vejo palavras dançando à sombra de uma vela na parede do fundo da caverna. Peripatético, saio para caminhar, dar uma volta ao redor da caverna, onde ursos polares e porcos de colares brigam por um pedaço de pão, de pano, ou de cérebro humano. Vejo palavras coloridas, e algumas são azul-céu, rosa-choque ou amarelo-esperança; outras são vermelho-sangue, roxo-defunto ou verde-vômito. Vejo as minhas próprias palavras bailando no ar, feito bailarinas nuas, fedorentas e doces. E sinto cheiros, que as palavras têm odores; algumas cheiram a flores, talco ou perfume; outras a carniça, a sujeira ou a bosta: é o cheiro de quem gosta. As palavras têm sabores, e algumas tem gosto de pudim, de buceta ou de hortelã; outras o sabor é de esterco, de veneno ou de fome: a gosto de quem come. E disseram que não posso cagar, disseram que não posso foder, disseram que não posso trepar. E o que faço então com as coisas? Coisas não existem se não existem palavras, e disseram que não posso dizer as minhas. E se não posso usar minhas palavras, e não posso falar de mim, então eu não existo; portanto, não sou Cristo, nas palavras dos profetas; sou apenas Barata, nos palavrões dos poetas.

4/11/2018

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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