Arte: Barata

O General e a Matrix

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Áureo Alessandri Neto

Há cerca de quatro anos publiquei um livro de ficção cientifica, o que supostamente me transforma num escritor desse estilo.

Sempre gostei de histórias que misturavam ficção científica, espionagem e ação além de outros ingredientes que nos transportam para uma realidade inexistente, porém próxima o suficiente do mundo em que vivemos para nos convencer que aquilo tudo é possível ou ao menos será.

Apesar de não ser exatamente o estilo de ficção científica que mais me agrada, poucos filmes me impactaram tanto como MATRIX e os subsequentes filmes que compuseram sua trilogia.

Nesses filmes, todo o mundo como conhecemos é uma simulação de computador implantada nas mentes dos seres humanos que na verdade estão escravizados em estado vegetativo por máquinas super avançadas. Lá pelas tantas, descobre-se um grupo de rebeldes salvadores que escapou da escravidão, que liberta os escravos e junta os poucos libertos em uma cidade subterrânea, cuja única esperança de vitória está no “escolhido”, uma espécie de Messias que vencerá as máquinas, destruirá o sistema e libertará toda a humanidade.

Ocorre que no desenrolar dos filmes, fica claro que na verdade o “Messias” é também um programa de computador e que a cidade subterrânea é na verdade mais uma simulação implantada. Não existem de fato pessoas libertas, nem salvadores, nem a tal cidade e muito menos o “Messias”. Tudo isso é simulado pelas máquinas para dar (falsa) esperança aos humanos escravizados – um ingrediente indispensável à manutenção da vida.

Só recentemente, depois de muito observar e analisar, é que cheguei à conclusão de que o Brasil e sua mórbida realidade política é a reprodução fiel do que Hollywood previu em Matrix.

Embora eu tenha tateado na penumbra (não no escuro) desde o ano de 2014, faltava-me a conclusão, o senso de que eu tinha reunido, num único raciocínio, tudo o que acontecia no país em face de sua situação política e geopolítica. Hoje, graças a uma postagem do General Paulo Chagas no Facebook, acredito ter chegado à conclusão e ela é parecida com o enredo de Matrix.

Nessa tal postagem, o mencionado general afirma que “Aliados de Lula citam o General Santos Cruz para integrar uma chapa” o que ele entende ser a revelação de que “uma terceira via impõe mais medo do que o Bolsonarismo” para então concluir orgulhoso que o PT prefere se juntar aos militares do que ficar sozinho numa chapa à presidência da República.

Nota: Isso foi postado por um General no dia seguinte a várias manifestações populares ocorridas em portas de quartéis de todo o país clamando por ajuda das FFAA e duvido que seja uma coincidência.

A notícia foi desmentida, mas para pior: Santos Cruz afirmou em nota que na verdade quer uma terceira via não radical e não polarizante: Nem Lula nem Bolsonaro. Sugestão minha a ele: faça uma chapa não radical como vice do Felipe Neto ou do Luciano Huck.

Mas por que as palavras do General me remetem a Matrix? Explico-me: tal como no filme também nos achamos escravizados por um sistema vil que hoje já nos nega o direito ao sustento e à locomoção. Aqui também achávamos que havia um grupo de salvadores, que detém a prerrogativa do uso legal da força em prol da defesa da nação e do mesmo modo como no filme, nós também depositamos esperanças num “messias” capaz de vencer o sistema e nos libertar.

Mas, exatamente como na ficção hollywoodiana de Matrix, nossa realidade nunca passou de uma mentira plantada para nos dar esperanças: Não existe nenhuma guerra contra o sistema que não seja puramente imaginária. De real apenas o estado de escravidão. No Brasil, assim como em Matrix, fomos ludibriados para servir ao sistema enquanto estávamos esperançosos em acabar com ele.

Tal como ocorre no filme, nosso “Messias” é incapaz de sequer arranhar o sistema por mais fortes que sejam as esperanças depositadas nele. Suas ações causam pirotecnia, estardalhaço, barulho, mas sem efeito prático. Como se tentássemos matar a fome com biscoito de polvilho. A diferença crucial é que o nosso “escolhido” talvez já soubesse de antemão que seria impossível derrotar o sistema e que sua missão na vida era apenas a de renovar as combalidas esperanças do povo em uma vitória que não chegará nunca.

Quanto ao grupo de salvadores, aqueles que usam estrelas nos ombros, estes existem na nossa realidade. Na verdade, eles são muito reais. Tanto que até almejam fazer parte do sistema. Sonham com uma aliança que lhes traga a estabilidade de trabalhar para o poder dominante e absoluto, tirar partido dele e se abster de combates inoportunos que só lhes traria a derrota. A nossa Matrix de eterna republiqueta terceiro-mundista se resumiria, portanto, a três grupos: O primeiro é o dos escravizados que alimentam esperanças vãs.

O segundo é o sistema escravizante seguido pelo terceiro, formado pelos que querem fazer parte do sistema. Perdido no meio destes três grupos temos o “Messias”, nosso escolhido, incapaz de mudar o enredo da história cujo final fatalmente é trágico – mas apenas para os que estão escravizados.

Publicado Originalmente em 23/03/2021

Áureo Alessandri Neto é engenheiro, escritor e músico da banda La Societá, e, também um Livre Pensador.

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