O Garoto

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Barata Cichetto


“... Mais algumas músicas e Dudu sobe ao palco, empunha sua guitarra e solta “Arrepiado” e “Depois das 11”. Como é bom ver Dudu Chermont de volta ao palco! “Como é bom tocar”, ele diz quando eu o abraço numa reverência…“.

O trecho acima é do Diário de Bordo da Patrulha do Espaço, algo que eu sempre edito quando acompanho a banda em alguma apresentação.

A imagem: um “garoto” pequenino, magro, inchado por remédios, mas que exalou naquele momento uma felicidade por estar pisando em um palco e empunhado uma guitarra e um microfone. Parecia mesmo uma criança naquele momento o Dudu Chermont. Uma criança de recém completados 45 anos (a mesma idade que a minha…). Uma criança alegre, contente com a oportunidade de estar tocando, por estar cantando.

Naquele dia, a apresentação da Patrulha do Espaço na Led Slay era para ter inúmeros outros convidados… Mas apenas tínhamos conseguido a presença da Alexandra. Passamos a tarde na casa arrumando as coisas, a banda passando som e às 8 da noite retornei a minha casa, próxima dali e Júnior e os outros músicos rumaram para suas casa para se prepararem. Quando saia do banho, recebi uma ligação dele: “Barata anota ai: o Dudu vai tocar com a gente hoje!”. “Porra, du caralho, mano!” Eu gritei. “Há uma porrada de anos que eu não vejo o Dudu ao vivo.”. Desliguei o telefone, acabei de colocar a roupa e corri para o computador tentando comunicar o maior número de pessoas da presença do Dudu.

Meia noite e pouco a Patrulha no palco e num determinado momento, Júnior chama Dudu Chermont ao palco. Aquele “garoto” empunhando sua guitarra é transformado pelos Deuses do Rock num semideus. Claro que muitas pessoas ali presentes sequer sabiam quem era aquele “garoto”, mas os deuses nunca erram e ele estava ali, “Me deu a mão, fiquei arrepiado…”. Terminada sua participação foi isso que aconteceu. Ele repetiu duas ou três vezes: ” Como é bom tocar, cara!”.

O show acabou e fomos embora, mas aquela imagem, não saiu da minha cabeça. Sabia que Dudu tinha passados maus momentos, com a saúde debilitada e vê-lo ali de novo, exultante e vivo era fantástico. Cerca de quatro meses depois, encontrei Dudu novamente no centro Cultural, quando ele tocou junto com outra surpresa, o Percy Weiss… O amigo Cebola registrou o encontro em uma foto no camarim. Foi a última vez que o encontrei e agora, ao acordar em 12 de setembro de 2003, com um telefonema do Júnior contando que Dudu fora encontrado morto na tarde anterior, caído no banheiro, sozinho…

Tristes histórias tem o Rock’n’ Roll… A Globo não noticiou e nenhum jornal deu matéria. O Rock no Brasil não tem história porque ninguém se preocupa em escrevê-la, o Rock no Brasil não tem apelo (ao menos o Rock verdadeiro, não essas bandinhas de pseudopop…). Figuras como o Dudu Chermont, Sérgio Santana, também integrante da Patrulha que morreu há um bom tempo, e outras, ninguém noticiou, ninguém falou. Ninguém falou porque não rende IBOPE? Ninguém falou porque ninguém sabia? Ninguém sabia porque ninguém comunicou? O certo é que bandas e músicos que arrebentaram a porta e enfiaram guitarras e baixos e baterias goela abaixo do Monstro Sist, hoje estão no ostracismo e quando conseguem um show, amargam baixo público, quando lançam um disco – sempre de forma independente, amargam pouquíssimas cópias vendidas. E quando morrem amargam, simplesmente o total desconhecimento e anonimato.

Preferi não contar a história de Dudu Chermont, pois a história daquele “garoto”, pode mesmo ser a história de quase todos os roqueiros de verdade neste país, a história de Dudu pode ser a sua ou a minha, que embora nunca tenha sido músico, sempre tive o Rock como modo de vida. Alguém onde andam os músicos do Casa das Máquinas, do Terço? Onde anda Arnaldo Baptista? Onde andará a turma do Sindicato? Do Joelho de Porco? Cadê o pessoal do Ave de Veludo? Por que terras caminham os músicos do Ave Sangria, do Bixo da Seda, do Neblina? Em que mares navegam os caras do Mar Revolto? E o Veludo? E A Bolha? E…? E…? E tanto e tantos, que desapareceram depois de plantar sementes que, por uma estranha ironia frutificou frutos um tanto adocicados ou podre…

Mas, Dudu, “garoto”: “Como é bom tocar!” Aquela imagem irá ficar, não em uma fotografia, não em um filme, mas em minha memória trasladada neste texto. Abraço, irmão!

14/9/2003

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e Livre Pensador.

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