O Ditador de Andador

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Barata Cichetto

O homem sempre fora um escroto, um ser abjeto, incapaz até de poder ser definido como homem, e mesmo como humano dado à maldade com que sempre tratara a todos os que cruzavam seu caminho, mas agora, aos quase cem anos, sem poder movimentar as pernas, acreditava que a velhice e a doença o tinha transformado em santo, e embora continuasse a ser uma pessoa desprezível, ainda assim considerava a si mesmo como uma pessoa boa, injustiça por todos, fato que aumentava ainda mais a sua arrogância e prepotência, transformando apenas em um ditador de andador.

G., a quem me refiro apenas uma por inicial, por ser— me absolutamente doloroso pronunciar o nome, e para que também não haja qualquer ofensa aos portadores de nomes iguais, e que estes não se envergonhe de terem sido batizados por seus pais com o nome igual ao desse monstro, sempre foi uma pessoa maligna, desde a infância, quando afogava gatos e cães nos riachos e cachoeiras da cidade onde morava, além de roubar esmolas de um cego que ficava a porta da igreja aos domingos. Igreja que por sinal era também alvo de sua maldade, já que ele sempre estava dentro dela, seja para pedir perdão por seus pecados, como para, em seguida, roubar dinheiro dos donativos e depredar obras sacras.

Era um demônio aquele menino, segundo era acusado tanto pelo padre da cidade quanto por todas as senhoras e senhores, assim como pelos professores e alunos do colégio, e especialmente pelos governantes e políticos, que nele viam além de seu próprio passado uma ameaça futura.

E todas essas pessoas tinham razão em seu ódio, já que, assim que se tornou adulto, G. foi preso, acusado e condenado pela morte de dois cavalos e uma égua de uma fazenda, além de ter esfaqueado o fazendeiro e ter “feito mal” a duas filhas do homem, que depois do julgamento ainda prometeu que o mataria assim que saísse da cadeia, fato que não demorou a acontecer, pois usando da influência que acabara por exercer sobre o prefeito, que apesar dos esforços da justiça local o libertaram em poucos meses. Ao fazendeiro restou apenas uma cova, no cemitério da cidade.

Em pouco tempo, G. se tornaria vereador, e logo prefeito da cidade, e como quanto mais poder uma pessoa tem, pior ela se torna, não tardou para que ele se tornasse um verdadeiro gângster, temido e odiado pela maior parte da cidade, mas amado pela pequena parcela que era capaz de decidir quem seria alçado ao poder e, claro às mulheres interesseiras e casadoiras, filhas dos poderosos e ricos, que viam nele a possibilidade de se tornarem o poder por detrás do poder, ampliando assim a corrente. E assim em breve casado com a filha do maior latifundiário, e tendo por amante além da esposa do mesmo, além de outras duas filhas de outros dois fazendeiros, G. se tornaria o Governador do Estado por breve período, e Senador da República por muitos mandatos.

O que mantinha G., todos sabiam, eram o trafico de drogas e de influências, dentro e principalmente fora do Congresso Nacional, principalmente pelos segredos de alcova que lhe eram confidenciados nos ouvidos por esposas de deputados e senadores influentes, por ele tomadas como amantes. G. não tinha limites à sua fome, tanto de comidas caras, como de mulheres baratas, como ele mesmo se referia a todas elas, e muito menos seu apetite pelo poder era menos intenso, na mesma intensidade que sua falta de respeito e de piedade para quaisquer dos símbolos pátrios e de honra. Não tinha amigos e se vangloriava disso em particular, mas quando em publico tratava, especialmente aos que lhe podiam oferecer algum beneficio, como irmãos. E assim foi G. se tornando tão forte e poderoso, que nem os mais fortes e poderosos ousavam confrontar, assim, naturalmente, aumentando o diâmetro de sua esfera de poder.

G. não tinha medo, diziam todos. E ele se arvorara de sua coragem, enfrentando os inimigos de peito aberto, embora usando coletes à prova de balas e dois seguranças armados ao lado; e afrontando os desafetos com a força da palavra, segundo afirmava de boca cheia perante aos microfones, mas também com a dos socos nos estômagos dados por seus correligionários mais fiéis. Sua vida era um livro aberto, como costumava sempre dizer, embora todos soubessem mas não ousavam dizer, que tudo que fora escrito em seu desagravo, fossem simplesmente suprimido das prensas de jornais e endereços virtuais, tendo seus autores destinos desconhecidos, ou nem tanto, já que muitos tinham mortes causadas instantânea e misteriosamente causadas por doenças fatais.

Quando G. foi eleito Presidente da Republica, numa eleição em todos os órgãos internacionais davam como matematicamente impossível, muita gente tentou defender a ideia de fraude gigantesca, baseada em corrupção, mas única coisa que conseguiram provar foi que, havia alguma coisa errada era justamente com o sistema democrático. E assim, para que não houvesse mais algum problema relativo a isso, G. foi deposto como Presidente, mas empossado imediatamente como Ditador Absoluto e Vitalício, sendo que todas as garantias constitucionais individuais fossem eliminadas, e ele passasse a ser ovacionado como o único a deter o poder.

E assim foi durante décadas, com centenas de milhares de mortos, e outras quantias idênticas de presos jogados pelas masmorras oficiais, que G. exerceu seu governo. Pelas praças eram erguidas estátuas por sua ordem e em sua homenagem, as escolas tinham todas o seu nome, e até mesmo ruas e cidades inteiras eram batizadas visando agradá-lo espontaneamente, mas debaixo de decretos ameaçadores. As crianças do sexo masculino recebiam seu nome diretamente, e as do feminino o ostentavam com o gênero vertido. Na data de seu aniversário, transformada em data nacional, o exército se perfilava diante de seu palácio e ele desfilava perante a ele e a multidão que o ovacionava incentivada pela mira dos fuzis, e as bandeirolas com seu rosto eram brandidas na frente de sorridentes, porém desdentadas crianças.

Assim, G. se tornara quase um deus, mas ainda assim não se sentia completo, pois ser um semideus não era o bastante. E foi assim que ele mandou retirar todas as imagens sacras das igrejas e até mesmo dos livros sagrados e escolares, e estampar no lugar o seu retrato. Todos os cultos dedicados a quaisquer outros deuses foram proibidos, adotando— se assim um monoteísmo pleno. E não bastante foi tudo isso, que todas as notas de dinheiro, não importando o valor que representassem, estampavam seu rosto, sendo que a única forma de distinção era pela posição de seu rosto na cédula: G. de frente tinha mais valor que G. de perfil, por exemplo, mas nenhuma delas o exibia de costas.

E enquanto os cemitérios se enchiam de corpos anônimos, todos relatados como inimigos do regime pela imprensa oficial, que era a única a existir, e como mártires da resistência e heróis da liberdade por ninguém, já que ninguém ousava usar tais termos, a robustez tanto física quanto militar de G. cresciam. Não havia limites para sua obesidade e muito menos para terror que ele impunha aos exércitos inimigos. E assim, muito além dos sonhos de qualquer outro ditador lunático que o mundo tinha conhecido, e até das mais absurdas previsões de escritores de ficção cientifica, G. se tornou imperador absoluto do mundo, devastando e conquistando países e mais países, até que todos os governos se curvaram perante a ele. A partir daí, todas as mulheres do mundo eram obrigadas a servi-lo escravas sexuais e cozinheiras, fartando seus maiores apetites; bem como os homens todos do planeta se tornaram seus soldados e carregadores, já que passou a ser necessário um verdadeiro exército para locomovê-lo de um lado para o outro, dado ao seu imenso peso e volume, que aumentavam a cada dia.

O mundo padeceu com a fome, pois todo alimento produzido lhe era destinado, e também com a sede, e todas as pragas assolaram a humanidade, matando rapidamente todas as pessoas, que depois de algum tempo, com a falta de alimentos passaram a serem devoradas por G., que não parava nem assim de se tornar mais e mais obeso e enorme. Não havia mais guerras, e enfim G. declarou— se rei do planeta inteiro, e alçou seus olhares em direção às estrelas, pretendendo que seu próximo império fosse todo o universo. Mas de que forma poderia ele voar até as estrelas para dominá-las, já que não podia sair do chão, e não havia mais ser vivo que o pudesse carregar? E, ademais, G. estava tão idoso que não poderia mesmo mais caminhar, mesmo que agora sua gordura, por falta de alimento o tivesse abandonado, transformando— o apenas em um velho esquelético.

E assim, G., que podia tudo, mas não podia voar; que podia tudo, mas não podia esperar, e que tudo queria, tudo teve e tudo destruiu, ainda perseguia o universo querendo o conquistar, construiu para si um andador e passou a vagar pelo mundo devastado em busca de alguém que lhe pudesse escutar, alguém que tivesse piedade de um velho cansado e doente sofredor, que era no fundo apenas um velho ditador de andador.

24/05/2019

Do Livro:
O Homem Que Fotografava Sonhos e Outros 99 Contos

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e co-fundador da Editora Poetura. Um Livre Pensador.
Contato: (16) 99248-0091

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