O Castelo da Felicidade

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Walter Possibom


Quando eu ainda morava numa casa que ficava numa rua de terra, numa determinada ocasião, meu pai chamou um amigo dele para fazer um trabalho de alvenaria em nossa simples casa.

Ele era uma pessoa de uma simplicidade incrível, se mostrava uma pessoa muito respeitosa, te olhava sempre nos olhos e não tirava um imenso sorriso do rosto que me fazia pensar que ele devia ser a pessoa mais feliz do mundo.

As suas roupas eram visivelmente surradas, tanto a camisa como a calça continham alguns remendos, mas elas eram extremamente limpas, embora um tanto quanto amassadas.

As suas mãos eram constituídas por uma pele grosseira, fruto de tanto trabalho manual pesado e pelo contato com substâncias agressivas como o cimento e a cal.

Ele entendia muito do trabalho a que se propunha fazer, pois ele já havia feito outro serviço em casa com resultados muito bons.

Meu pai acertou com ele o trabalho para o próximo sábado, e esse trabalho deveria durar o dia todo.

Naquele sábado, quando o Sol ainda estava parcialmente coberto ele chegou a minha casa, acordando a todos nós, para dar início ao seu trabalho, ele tinha vindo de bicicleta, uma bicicleta que visivelmente fora muito usada e que devia ser muito velha.

As ferragens daquela bicicleta estavam todas oxidadas e o assento todo rasgado, mas lá estava ele diante do portão de casa portando aquele sorriso irremovível.

Minha mãe levantou da cama e foi fazer café, enquanto meu pai foi receber o seu amigo, a família toda estava de pé e com fome.

Assim que minha mãe terminou de preparar o simples desjejum nos sentamos à mesa, o simples homem foi o último assentar, nem sem antes lavar as mãos e o rosto, e assim que recebeu uma xícara cheia de café com leite e um pão com margarina ele se deliciou com aquilo como se fosse um manjar dos Deuses. Após terminar olhou para minha mãe e disse:
– Estava delicioso, muito obrigado.
Em seguida olhou para nós e disse:
– Com licença, preciso trabalhar.

Ele então se levantou e foi fazer o seu trabalho.

Eu era muito jovem, devia ter uma idade próxima aos dez anos, mas as imagens daquele dia ficaram indeléveis para sempre em minha memória, sendo que as lições que tirei nesse dia me foram reavivadas em várias circunstâncias diferentes dessa.

Eu fiquei perto dele observando aquele trabalhador tão humilde trabalhar, vez ou outra ele olhava para mim e aumentava o seu sorriso, mas até a hora do almoço ele não parou um instante sequer de fazer o seu labor, e que era bastante pesado e intenso.

A hora do almoço chegou, minha mãe chamou todos à mesa, o homem então lavou suas mãos e seus braços, em seguida lavou seu rosto, se aproximou da mesa e esperou que minha mãe dissesse a ele onde podia sentar-se.

Após sentar minha mãe lhe entregou um prato de comida, para o qual ele avançou assim que todos receberam os seus pratos (eu me recordo claramente que comemos arroz, feijão e frango cozido naquele dia).

Assim como no café da manhã, no exato momento que ele terminou a sua refeição ele pediu licença e novamente voltou ao seu trabalho, não sem antes elogiar a comida para minha mãe e agradecê-la por ela.

O dia passou, a noite chegou, e o homem finalmente conseguiu terminar o seu exaustivo trabalho, ele não parou um minuto sequer de fazer as tarefas. Ele estava todo banhado de suor, coberto pela poeira causada pelo trabalho, sua respiração estava ofegante, mas ele não tirava aquele sorriso do rosto.

Eu estava impressionado com aquilo, ele olhou para mim e percebeu o quanto eu estava espantado, ele então aumentou o sorriso e disse:
– O trabalho é a coisa mais importante que o homem tem.
– O homem que tem trabalho tem tudo.
– E como eu tenho tudo eu sou feliz.

Aquelas palavras me deixaram perplexo, claro que eu não conseguia compreender a extensão e sequer a profundidade daquele ensinamento, mas ele ficou fixo em minha mente e quando eu desanimava de meu trabalho eu me lembrava dele.

Como era tarde meu pai se prestou e leva-lo para casa, e só conseguiu convencer o simples homem após várias tentativas, ele dizia que não queria atrapalhar o descanso de meu pai mais do que já havia feito.

Vejam bem: ele estava incomodado em ter incomodado o meu pai num sábado de descanso, mas ele trabalhou o dia todo!

Naquela época meu pai trabalhava com uma Kombi, o que garantia que a bicicleta seria levada junto sem problema algum.

Evidente que eu pedi ao meu pai para ir junto, no que ele concordou sem problema.
Antes de irmos minha mãe quis fazer um lanche para o homem, mas desta vez ele gentilmente recusou dizendo:
– Não quero mais causar trabalho a vocês.

Ele recusou o lanche, mas o sorriso sempre acompanhou tudo isso. Lá fomos nós levar o gentil e feliz homem.

Eu me recordo que demoramos para chegar, embora eu não tenha recordações de quanto tempo levou, apenas que considerei o caminho bastante longo, então, quando estávamos perto do local onde ele morava me veio a ideia de que ele devia ter levantado muito cedo para ter chegado em minha casa à hora que ele chegou pela manhã.

Além do que ele já devia ter chegado cansado, pois pedalou muito até chegar em casa.
Para aquele homem não havia barreiras para ele fazer o seu trabalho, e sempre com felicidade no rosto e docilidade nas palavras.

Em determinado momento chegamos a um terreno que me parecia baldio, cheio de mato e algumas plantas um pouco mais altas ao lado de umas árvores, ali meu pai estacionou a Kombi e desceu, junto ao homem.

Meu pai foi à lateral do carro abriu a porta e tirou a bicicleta de dentro dele, me pediu para que trouxesse a maleta de ferramentas até a porta e, meu Deus, que coisa mais pesada! E aquele homem à trouxe amarrada às suas costas!

Eu desci em seguida e olhei para o terreno e não via nenhuma casa ali, cheguei a pensar que o homem morasse do outro lado da rua, mas meu pai pegou a maleta de ferramentas e adentrou o terreno e eu fui atrás dele.

Eis que por detrás daquelas árvores havia um pequeno barraco, o homem se aproximou dele, pois estava mais à frente de nós, abriu a porta e acendeu uma lâmpada que produzia uma iluminação muito fraca.

Em seguida fomos nós dois e eu entrei no barraco.

Ali havia uma cama feita rusticamente e ao lado dela um pequeno fogão de uma boca, ao lado dele uma prateleira com algumas panelas. Mais ao lado havia um baú cuja tampa estava aberta mostrando que ali era onde ele guardava as suas roupas.Mais ao lado havia uma pequena mesa, o homem então pegou uma pequena bacia e a colocou sobre a mesa, da parede ele pegou uma mangueira e após mexer na ponta dela (eu não consegui ver o que ele fez ali) logo saiu um fino fio de água com a qual ele encheu a bacia pela metade.Em seguida ele lavou seu rosto e suas mãos.

Virou para o meu pai e o agradeceu pelo trabalho, olhou para mim com um sorriso que me pareceu mais intenso e me disse:
– Este é o meu castelo da felicidade.

Não me recordo da volta para casa, mas me lembro que fiquei com os acontecimentos desse dia em minha mente por vários dias sem compreender como ele podia ser feliz naquela casa tão simples.

Eu era muito jovem, e entendia muito pouco da vida. Hoje eu tenho uma vida boa, fruto dos anos que passei estudando, eu troquei os melhores anos da vida de um jovem (dos dezenove aos vinte e cinco anos) para me formar e fazer o melhor para os meus pacientes. Mas essa história nunca saiu de minha cabeça, a minha experiência profissional tem mais de três décadas e eu já vi de tudo, mas uma coisa que sempre vejo e que me faz lembrar dessa história é trabalhadores que laboram arduamente, muitas vezes em condições precárias, mas que ao final do dia sentem-se felizes por assegurarem o alimento à boca de seus dependentes.

Muitos me contam suas experiências de trabalho, antes de ali estarem, em locais afastados dos grandes centros onde laboravam em condições quase escravas.

Então eu olho para a outra extremidade, e vejo pessoas trabalhando em condições ótimas, com ar condicionado – com isso nem chegam a suar – e que tem em suas mãos o poder de mudar um pouco a história desses sofridos trabalhadores. Mas não o fazem.

E o pior é que quando a empresa sofre qualquer oscilação em suas contas (muitas vezes em decorrência de desvarios e desvios desses mesmos indivíduos sem suor), esses trabalhadores mais humildes são os primeiros a sofrerem as restrições que tendem a equilibrar as finanças da empresa. E o que dizer do poder daqueles que ocupam cargos públicos, então?

Esses trabalhadores pertencem a uma classe à qual recebe os menores salários dentro da composição de cargos da empresa.

Pode-se dizer que eles são trabalhadores sem qualificação específica, mas também pode-se dizer que são seres humanos e que tem os mesmos desejos que nós de subirem na vida e terem mais condições de melhorar o padrão de existência deles e de seus dependentes.

Sem eles a engrenagem da grande máquina industrial quebra e nada é produzido, de nada adiantando a engenhosidade da criação se o labor simples não se faz, cada pequena peça é importante para o funcionamento do todo.

Se olharmos ao nosso redor veremos que tudo, ou quase tudo, teve uma mão simples, porém extremamente dedicada envolvida em sua produção. Se as empresas fecham essas pessoas simples ficam sem trabalho, com isso elas não conseguem o necessário sustento. Por isso devemos cuidar de nossas fábricas e de nossas empresas, pois delas dependem a nossa vida na modernidade. Nossos governantes têm essa obrigação como alvo.

Me lembro certa vez, quando trabalhava numa indústria metalúrgica famosa em Guarulhos, que solicitei à manutenção que apertasse alguns parafusos debaixo de minha cadeira, pois o assento estava solto.

Um senhor de cabelos e barba branca, caminhando calmamente e com as costas encurvada pelo tempo e pelo trabalho pesado, portanto um enorme sorriso, chegou ao consultório e examinou a cadeira, e após um tempo ele me disse:
– Preciso levar a cadeira para a oficina.

Ele então se levantou foi até a Enfermaria e voltou com outra cadeira, colocou ela diante de mim e disse:
– Fique com essa enquanto eu conserto a sua cadeira.
E levou minha cadeira para sua oficina.

Após cerca de uma hora lá estava o senhor com minha cadeira de volta, mas desta vez eu me antecipei e peguei a minha cadeira após levar a outra a qual eu estava usando.

Eu o agradeci ele aumentou o sorriso se virou e saiu do ambulatório, eu sentei na cadeira e ela estava ótima, estranhamente ótima, então eu me abaixei para olhar e, para meu espanto, havia uma enorme marca de solda recém-feita.

Eu ainda ouvia a voz daquele senhor próximo à entrada do serviço médico, então corri para fora e fui até ele e lhe perguntei sobre a solda, eis que ele me respondeu:
– Os parafusos realmente estavam um pouco frouxos. Eu os apertei.
– Mas uma parte da estrutura que segura a cadeira estava rachada.
– Certamente ela iria durar algum tempo, mas você poderia se ferir com ela.
– Mesmo eu estando sozinho no setor e cheio de trabalho resolvi fazer o trabalho certo.
– Se você se machucasse eu me sentiria muito mal.

Ele me disse aquilo demonstrando estar extremamente feliz por ter feito o trabalho simples, mas que me traria benefícios. Evidente que a memória de fatos passados foi estimulada naquele momento me deixando muito emocionado.

Eu me sinto triste ao ver a dificuldade que essas simples pessoas têm em levar a sua vida, eu não consigo imaginar como eles conseguem viver com tão pouco, mas eu jamais deixo de ver o sorriso no rosto deles. Isso é incrível!

Já ouvi histórias as mais diversas possíveis de vida difícil de homens que lutam bravamente para conseguirem levar um pouco de comida para casa, muitas vezes trabalhando em condições muito pouco dignificantes.

Quanto mais eu convivo com essas pessoas simples e humildes eu descubro o quanto eu estou longe de entender o significado real sobre o que é felicidade.
E compreendo cada vez mais que estamos ainda muito longes da real felicidade, que essas pessoas simples conseguem sentir.

Acho que felicidade não é “ter”, mas sim “ser”.
Nós devemos respeitar a todas as pessoas, não sabemos por quantas tempestades ela passou e o que restou disso.

Eu entendo que para sermos felizes temos que fazer de nossas vidas o nosso castelo de felicidade.

Do Livro:
Crônicas de Uma Alma Perplexa

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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