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O Cachorro, o Cavalo e o Homem Caramelo

Genecy Souza


Tem muito cachorro no Brasil. Melhor dizendo: tem muito cachorro de rua no Brasil. São milhões deles a vagar pelas ruas e praças de qualquer cidade brasileira. Nenhum deles possui um ser humano para chamá-lo de seu. E é possível que uma parte dessa cachorrada toda já tenha tido alguma vez um dono, e ter vivido em uma casa. Talvez tenham fugido em razão de maus tratos, da morte do dono, ou até mesmo que, por causa de seu espírito aventureiro tenha ido muito além da casa em que vivia e não encontrou o caminho de volta. Acontece. O cachorro de rua está, perfeita ou imperfeitamente, adaptado ao meio em que vive – as ruas –. Come quase qualquer coisa que encontra, mata sua sede na primeira “fonte” disponível. Vira e mexe, alguma alma bondosa lhes dá ração e água. Dormem em qualquer lugar, desde que se sintam seguros. Os mais sortudos podem ser acolhidos em um abrigo, ou, quem sabe, serem adotados. Podem andar em matilhas ou sozinhos, e se reproduzem conforme a disponibilidade de fêmeas. Brincam e se divertem a sua maneira. E, sim, infelizmente morrem ainda jovens, seja em razão de doenças, sob as rodas de um veículo conduzido por um estúpido motorizado; e, também: pelos atos de um maníaco criminoso que odeia cães. O cachorro de rua é um dependente da sorte, e cada dia na vida dele é um dia conquistado.

Entre os cachorros de rua, uma “espécie” se destaca dos demais: o cachorro caramelo, uma denominação relativamente recente, em razão da cor da sua pelagem: castanho-claro ou um pouco mais escuro, resultante dos inúmeros cruzamentos entre diferentes raças. Vem daí a expressão moderna SRD (sem raça definida), substituindo a velha “vira-latas”, hoje considerada pejorativa. Quando adultos, exceções à parte, os cachorros caramelo possuem praticamente o mesmo tamanho. O cachorro caramelo é normalmente sociável, comportamento que o ajuda a conquistar a simpatia das pessoas, sendo recompensado com comida, abrigo ou um lar.

Cachorros caramelo à parte, recentemente, no decorrer da tragédia das chuvas no Rio Grande do Sul – Sim, aquela que a Rede Globo deixou em segundo plano, em razão do show “gratuito” da cantora Madonna, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro) –. Entre bens públicos, estradas, plantações, casas, animais e vidas humanas perdidas, o noticiário chama a atenção para um cavalo ilhado sobre o telhado de uma casa inundada na cidade de (atenção para a ironia involuntária) Canoas. O pobre animal fora avistado pela equipe de reportagem da TV Globo (a qual já não estava mais concentrada no show da cantora Madonna, pois a estrela da música pop já havia recebido seus dólares dos pagadores de impostos e retornado ao seu país), o qual estava naquela condição há pelo menos quatro dias. Convenhamos, a situação do equino era dramática:

“O cavalo que ficou ilhado em um telhado na cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul, foi resgatado na manhã desta quinta-feira (09.05.2024). Inicialmente tratado como um cavalo, o animal ganhou o apelido de Caramelo e causou comoção nas redes sociais. Após ser resgatado, bombeiros informaram que se tratava, na verdade, de uma égua. No entanto, veterinários que atenderam o animal disseram em seguida que o equino é, de fato, um cavalo”.
https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/05/09/resgate-do-cavalo-caramelo-entenda-como-animal-foi-retirado-de-cima-do-telhado-no-rs.ghtml

Ok. O cavalo que era uma égua voltou a ser um cavalo após uma constatação óbvia. Além do mais, o equino ganhou um nome: Caramelo, certamente por causa da cor da sua pelagem. A propósito, no Brasil, até as tragédias possuem desdobramentos que alcançam e até ultrapassam os limites do ridículo, pois o drama do animal serviu de palanque para as mais diversas manifestações do mais baixo oportunismo, sobretudo o de natureza política:

“A primeira-dama Janja Lula Silva se emocionou ao ver o resgate do cavalo que estava preso no telhado de uma casa cercada pela água no Rio Grande do Sul. O animal, chamado de Caramelo, foi salvo por uma equipe do Corpo de Bombeiros de São Paulo após mobilização em redes sociais. Quatro botes foram ao local e o cavalo precisou ser sedada”.
https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2024/05/6854140-janja-chora-e-comemora-resgate-de-cavalo-caramelo-no-rs.html

 

“A primeira-dama Janja Lula da Silva agradeceu às equipes envolvidas no resgate do cavalo que estava no telhado de uma casa em Canoas (RS) nesta 5ª feira (9.mai.2024). A mulher do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também declarou se “sentir parte disso”. “Agora tem nome composto, Valente Caramelo! Obrigada a todos os envolvidos nesse resgate. Sim, eu tô feliz pra caramba e me sinto parte disso”, disse Janja em seu perfil no X (ex-Twitter)”.
https://www.poder360.com.br/poder-gente/me-sinto-parte-disso-diz-janja-sobre-resgate-de-cavalo/

Terminado o drama do cavalo Caramelo, fico feliz em saber que ele está muito bem, obrigado. E que seja deixado em paz pelos oportunistas que pastam por aí. Espero que não haja um boi caramelo à espera de um lugar sob os holofotes, ou que o cavalo que foi objeto de tanta comoção não se transforme em uma nova variedade de equino.

Bem, até aqui cheguei após essa longa introdução para falar de um outro tipo de animal caramelo: o ser humano caramelo.

E tem isso?!

Guardadas as devidas (des)proporções, tem, sim.

A princípio, eu preferiria utilizar a expressão “homem caramelo”. Contudo, para evitar interpretações ideologicamente enviesadas, que me tomariam muito tempo para explicá-las, farei uso do “ser humano caramelo”, por abranger o homo sapiens de maneira mais geral. Sigamos nessa linha de raciocínio. Cabe lembrar que não existe a mulher sapiens, como declarou certa vez uma potranca descerebrada que vestiu a faixa presidencial por intermináveis seis anos.

O ser humano caramelo existe aos milhões no Brasil. Ele está presente em todas as regiões do país. Evidentemente, o ser humano caramelo não possui essa cor. Ele é o resultado de um longo processo de miscigenação que tornou o Brasil um país único. Pode-se dizer que, graças à mistura de raças temos hoje uma rica diversidade de tipos que reúnem o negro, o branco, o indígena, o asiático, entre outros, o que nos faz crer que temos uma democracia racial na prática. Ou seja: não há conflitos de natureza étnica em terras brasileiras, apesar de haver idiotas que creem na existência de uma raça superior. A esses se deve aplicar a força da lei de forma rigorosa e sem recuo.

Esclarecimento feito, vamos, pois, ao ser humano caramelo. Trata-se do imenso contingente de seres humanos relegados ao posto de meros coadjuvantes em um cruel sistema de exclusão social (só para não citar outras mazelas brasileiras) que os reduz a meros instrumentos de manipulação política que os relega a uma posição de eterna passividade, não apenas sócio-econômica, mas política. O ser humano caramelo – ao contrário do cachorro e do cavalo, que não falam e não possuem vontade própria, além de não possuírem capacidade de análise do meio em que vivem – possui plena noção do espaço em que vive, além de saber vocalizar seus anseios quando necessário, também não possuem, salvo em situações específicas, vontade própria. Entenda-se: vontade política. O que isso quer dizer? Bem, são várias as definições, sigo pela mais genéricas. E não vou expor estatísticas. Quem quiser saber dos números, eles estão disponíveis no Google.

Na verdade, o ser humano caramelo existe desde que o Brasil é Brasil. Exceções à parte, ele não possui independência de decisões. Suas escolhas estão limitadas quase que exclusivamente ao voto, esse instrumento do exercício democrático que lhe dá uma suposta superioridade sobre aqueles que ele escolhe para representá-lo e fazer valer suas vontades. Na prática, não é assim que acontece. A cada quatro anos ele é tapeado, e todos os seus anseios são prorrogados para a eleição seguinte. Por pura falta de educação política, o ser humano caramelo esquece o que lhe fora prometido na campanha eleitoral anterior, e ele acaba repetindo o erro de eleger as mesmas pessoas que lhes passaram a perna. Trata-se de um círculo viciado e vicioso difícil de superar.

Em qualquer grande cidade brasileira, vemos seres humanos caramelo enquadrados nas castas mais baixas da sociedade. Basicamente estão divididos em dois grupos: aqueles que sobrevivem à custa de empregos mal remunerados devido à baixa ou nenhuma qualificação profissional; e aqueles que nem trabalho possuem. Vivem, guardadas as devidas proporções, quase que à semelhança dos cachorros caramelo: muitos não possuem sequer um barraco para chamar de seus; adoecem ou vivem doentes, comem mal, nível baixíssimo de higiene; andam em grupos ou solitariamente; dormem em qualquer lugar onde se sintam minimamente seguros. E, sim, são vítimas da violência e da dependência das drogas. Para eles, o futuro se resume ao dia seguinte. O horizonte é o equivalente a zero. É óbvio que há entidades e pessoas de bom coração que os ajuda de alguma forma, mas não é o suficiente.

O ser humano caramelo é ensinado a se contentar com pouco. É muito fácil e barato agradá-lo, inclusive com promessas de um futuro melhor que nunca chegará. Ele gosta de se divertir e de graça. Às vezes, ele até se mistura com aqueles que habitam as camadas mais altas da pirâmide. Um exemplo claro disso é o show da Madonna, que levou uma multidão à praia carioca enquanto um dilúvio caía sobre os gaúchos. Estando ele imerso nesse processo de encantamento, ele esquece do hospital sem médicos, das escolas caindo aos pedaços, da doutrinação ideológica praticada por professores politicamente mal intencionados, do transporte público super lotado, do tráfico de drogas, da corrupção desenfreada e, claro, da violência urbana onipresente nas quebradas em que vive.

Vale observar que, vira e mexe, alguns seres humanos caramelo se revoltam por acharem que estão sendo tapeados por seus representantes eleitos. Entretanto, estes se cercam de instrumentos legais criados para protege-los da turba enfurecida. Alguém aí já ouviu falar do Inquérito do Fim do Mundo? Do crime de opinião? Da censura? Da Lei das Fake News?… Nos dias que correm, duvidar é uma atividade de risco.

Um outro fator que vale mencionar foi a pandemia do vírus chinês. Esse flagelo foi uma mão na roda como experimento de dominação pelo medo. Sim. O medo também é um método de dominação. Pudemos observar que as castas mais altas se deram muito bem, ao contrário da casta dos seres humanos caramelo, obrigados a ficarem confinados dentro de casa, praticamente impedidos de trabalhar. Aqueles que ousavam desafiar o Fique em casa, a economia a gente vê depois”, recebiam o carinho da polícia. Só não houve uma epidemia de fome graças às medidas emergenciais adotadas pelo governo anterior. Ou era daquele jeito, ou era a bancarrota.

De um modo ou de outro, o ser humano caramelo é a mercadoria perfeita para os negociantes do voto: é farta e barata. A alta taxa de natalidade garante uma permanente ‘renovação de estoque’. Para que esse deplorável status quo se mantenha do jeito que está, afinal, uma parte considerável da elite política depende dela para sobreviver. É perfeitamente possível quebrá-lo por meio de uma educação de qualidade, que ensine a ele o direito e a propriedade de dizer “não”.

E o “não” resolve muita coisa.

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.

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