O Brasil Após o Dia Seguinte ao 30 de Outubro

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Genecy Souza


Como imagino o Brasil em 2023 com Lula e sem Bolsonaro; ou, com Bolsonaro e sem Lula.

Constato, e não é de hoje: o brasileiro não é político, está político. Presumo que o brasileiro político ainda não é para agora, mas esse dia não deve estar longe de chegar. Os acontecimentos dos últimos quatro anos deixaram bem claro essa constatação. Talvez (pois há na História do Brasil movimentos políticos importantes que não vem ao caso mencionar aqui) fenômeno semelhante só tenha ocorrido na campanha das Diretas Já, nos anos de 1983 e 1984, na qual se pedia o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República, pois foi o que acompanhei, embora sem tanto interesse, confesso. Na época, minha formação política ainda estava em formação. O Movimento, entre outros fatores, acelerou o fim do regime militar, que acabou ocorrendo em 1985. O resto é História, e da boa.

Nascido de uma ideia do governador do estado de Alagoas Teotônio Vilela, a campanha evoluiu na forma de comícios, passeatas e debates largamente divulgada por todas as formas de mídia então existentes. Obviamente, além dos políticos, intelectuais, juristas, empresários, profissionais liberais, jornalistas, lideranças religiosas, formadores de opinião e grande parte da classe artística aderiram de forma maciça. A popularíssima cantora Fafá de Belém foi a musa das Diretas Já. Junto a ela – ou sem – nos palanques, estavam nomes importantes como: Chico Buarque, Beth Carvalho, Mário Lago, Martinho da Vila, Ziraldo, Gianfrancesco Guarnieri, Maitê Proença, entre outros. Os palanques também contaram com a presença de lideranças diversas, como: Leonel Brizola, Orestes Quércia, Ulysses Guimarães, Eduardo Suplicy, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, Miguel Arraes, Luiz Carlos Prestes e, claro, ele, Luís Inácio Lula da Silva. Não há dúvida que o movimento Diretas Já foi um sucesso, e rendeu bons e maus frutos. Detalhe: a cor oficial da campanha era o amarelo. Decorridos já quase quarenta anos, várias das personalidades citadas bateram as botas, enquanto outras tantas ainda estão presentes na vida nacional.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Diretas_J%C3%A1#:~:text=Diretas%20J%C3%A1%20foi%20um%20movimento,durante%20a%20ditadura%20militar%20brasileira.

Em 1985 o Brasil voltou a ter um presidente civil – Tancredo Neves –, que não assumiu o poder em razão de sua morte, sendo sucedido por seu vice José Sarney. Cabe ressaltar que Tancredo foi o eleito ainda pelo sistema de eleição indireta. No entanto, sua eleição foi bastante simbólica, cujos reflexos se fazem sentir até hoje. Em 1988 foi promulgada uma nova Constituição, a qual, muitas vezes (r)emendada, e recentemente vilipendiada por aqueles que deveriam guardá-la e defendê-la, ainda está em vigor. E é inspirado nela que os donos dos nossos destinos conduzirão a nação pelos próximos e difíceis quatro anos. E, sob as luzes da Constituição Cidadã, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva foram eleitos e reeleitos presidentes da República. O primeiro realizou mudanças importantes, sobretudo na economia. O segundo herdou o legado de FHC e, noves foram alguns acertos, conduziu o país rumo ao caos. Após um período na prisão e manobras judiciais que lhe devolveram a liberdade, Lula está de volta ao páreo, e pretende mais uma eleição para presidente da República. No entanto, o ex-presidiário tem um grande obstáculo a sua frente: o atual presidente Jair Bolsonaro, responsável, presumo, por suas crises de insônia, para não citar outros distúrbios físicos e emocionais.

No momento em que redijo este texto, a campanha eleitoral para presidente da República e para governadores de 12 estados, segue em ritmo de Fla-Flu, provocando o acirramento de ânimos, batalhas de fake news, intensificação do ativismo judicial (com notável preferência pelo candidato Lula e abertamente hostil a Bolsonaro), a vergonhosa atuação de grande parte da imprensa, que mandou o equilíbrio informacional às favas, omitindo fatos e ignorando outros, dando apoio velado a produtores de notícias falsas. Não é errado que a imprensa tome parte do candidato A ou B. O que não pode acontecer é a prática da desonestidade que desinforma o eleitor e o induz à tomada de decisões equivocadas. Some a isso tudo, a vergonhosa atuação dos institutos de pesquisa (ao menos os mais famosos), que produzem e produziram pesquisas pra lá de tendenciosas, como ficou bastante evidente no resultado das apurações do primeiro turno. O eleitor brasileiro está envolvido, ativa ou passivamente, no cruel jogo político do momento. O futuro após 30 de outubro é incerto, ou nem tanto. Basta olhar em volta e tirar conclusões e, quem sabe, fazer apostas. O que se pode deduzir é que os próximos quatro anos não serão fáceis para ninguém.

Como se sabe, o segundo turno significa uma nova eleição. É como se o placar voltasse ao zero. E é nessa nova eleição que Lula e Bolsonaro apostam suas fichas e refazem suas estratégias. Naturalmente, há um intenso tráfico de mentiras e meias verdades (ou meias mentiras). De ambas as partes. Isso é o eixo desse Fla-Flu eleitoral. Eis o futuro próximo vindouro, segundo minha modesta opinião:

Lula vencendo: Se Jair Bolsonaro aceitar a vitória do ex-presidiário – isto é, se não houver um fator surpresa –, Luiz Inácio enfrentará, logo de imediato, uma crise interna no PT, haja visto a enorme lista de cobranças de aliados fiéis e de ocasião. Como é absolutamente normal em campanhas eleitorais, em especial aquelas em que os postulantes disputam corações e mentes com todas as armas, manhas e artimanhas de que dispõem, o ex-presidiário terá que honrar os compromissos firmados com seus apoiadores. Haverá entre esses apoiadores de primeira e última hora gente insatisfeita e gente que irá cobrar e/ou pedir favores, especialmente os de natureza financeira. No momento oportuno, o vice Geraldo Alckmin será tratado como um bibelô, e cada vez mais perdendo espaço dentro do novo/velho governo. Duvido muito que as pautas do ex-tucano sejam incorporaradas no programa do PT, haja visto que o outrora respeitado político nunca foi – tampouco será — bem aceito pelo partido. Na melhor das hipóteses, o Picolé de Chuchu será uma espécie de Michel Temer.

O novo/velho presidente encontrará um Senado e uma Câmara dos Deputados semirrenovado e abertamente pró-Bolsonaro. Em outras palavras, as pautas defendidas por Lula enfrentarão forte resistência, e pouca coisa deverá ser posta em prática. Sabe-se que Lula é um poço até aqui de mágoas. E sabe-se, também, que Luiz Inácio tem sede de vingança. Não é à toa que em seus discursos a bile do petista ferve, de maneira que ele distribui ameaças a torto e a direito. Sim. O velho sindicalista quer revanche. Para isso, ele irá contar com uma parte considerável do Poder Judiciário, seja por simpatia, seja por lhe dever favores. Ou, quem sabe, até mesmo por gratidão. Para vencer resistências de senadores e deputados federais, Lula terá que reinventar as táticas aplicadas no mensalão – não se pode desprezar essa possibilidade, pois parlamentares venais é mercadoria farta na política brasileira. Entre as pautas defendidas por Lula é o controle da mídia, abertamente divulgada em seus inúmeros discursos e declarações. Em outras palavras, esse controle tem o nome de censura. Escandalosamente, a grande imprensa finge que não é com ela. Outras pautas defendidas pelo ex-presidiário são a abolição do teto de gastos, a revogação da reforma trabalhista, a legalização do aborto, a reaproximação com ditaduras latino-americanas, bem como a aproximação com países cujos presidentes foram eleitos seguindo pautas de esquerda.

O desenho de um eventual governo Lula já está pronto. Na prática, é uma enorme arapuca em que muitos cairão nela sabendo que que se trata de uma arapuca. Farão isso em nome da causa, que torna qualquer sacrifício válido. É certo que as conquistas ocorridas no governo Bolsonaro virarão pó em pouco tempo. Já aqueles que descobrirão a arapuca, chegarão à conclusão que será tarde demais para reclamar.

Voltando ao fator Senado/Câmara dos Deputados. Se a maioria eleita sob as asas de Jair Bolsonaro se mantiver coesa, Lula poderá não terminar seu mandato, pois, no primeiro escândalo, ele vai dançar.

https://www.dw.com/pt-br/quais-s%C3%A3o-as-propostas-de-governo-de-lula/a-62213399

Bolsonaro vencendo: Contando com maioria forte no Senado e na Câmara dos Deputados, o presidente reeleito terá mais facilidade para dar andamento aos projetos de seu interesse. E isso é um mau sinal para o “establishment”, empenhado, desde a campanha eleitoral de 2018, em tirar o ex-capitão do Exército e ex-deputado federal do jogo político. Embora as tentativas não tenham sido poucas, Bolsonaro conseguiu sair fortalecido. O atual presidente é o maior símbolo da volta da direita ao cenário político, para desespero da esquerda, que ocupou esse cenário desde o evento das Diretas Já. Não vai longe o tempo em que se cogitou que a direita estava extinta, ou fraca demais para agir.

Nesse segundo turno das eleições, por uma simples questão de estratégia e, ao mesmo tempo, por não poder desprezar apoios, a campanha de Jair Bolsonaro abriu a porteira para entrada de apoiadores, entre eles, oportunistas de plantão, os quais, a exemplo dos apoiadores de Lula, cobrarão esse favor. Certamente receberão um “não” do presidente, e daí os traíras se revelarão. Noves fora isso, Bolsonaro vem recebendo apoios expressivos, os quais serão fundamentais para possível vitória do “genocida”.

O segundo mandato de Jair Bolsonaro, acredita-se, fortalecerá as chamadas pautas conservadoras, a redução do tamanho do estado, a ampliação das privatizações, a reforma do ensino (envolvendo, obviamente, o combate à doutrinação ideológica nas escolas), aplicação de uma carga tributária menos pesada, entre tantas outras.

Seguindo essa linha, e pelas evidências, Bolsonaro fará um ajuste de contas, dentro do que ele chama de quatro linhas da Constituição, com membros do Poder Judiciário, do Supremo Tribunal Federal e do Supremo Tribunal de Justiça. Fiando-se na nova composição do Senado, as pautas que tratam do impeachment de ministros do STF passarão com extrema facilidade. Nisso, aquele ministro calvo e audacioso, que tanto atrapalha o governo Bolsonaro não terá sono tranquilo.

É infantil pensar que Jair Bolsonaro reeleito terá um governo mais fácil que o primeiro. Muito pelo contrário, tudo será tentado contra ele e sua família. Por outro lado, é certo pensar que Jair Bolsonaro já deixou sua marca, e partidários bons de briga.

A reeleição de Jair Bolsonaro poderá, a julgar pelos movimentos da política, torná-lo referência para novas lideranças de direita América Latina a fora. Presumo que, de todos os medos, esse seja o maior que a esquerda tem. A conferir.

https://www.dw.com/pt-br/quais-s%C3%A3o-as-propostas-no-programa-de-governo-de-bolsonaro/a-62861830


Por fim, todos os acontecimentos ocorridos no Brasil nos últimos quatro anos deixam um forte recado, especialmente aos isentões: ninguém tem mais o direito de dizer “eu não sabia”. O preço a pagar será muito alto.

16/10/2022

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.

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