O Arco e a Flecha

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Walter Possibom


O mundo evolui, mesmo que muita gente faça o impossível para evitar que isso aconteça não tem jeito, mesmo com elas insistindo e forçando a barra o mundo evolui. Dentro dessa evolução está a evolução do conhecimento, que nos vem através da ciência, impulsionado por Espíritos elevados que chegam ao nosso planeta para causar transformações, e com elas melhorias em nossos padrões existenciais.

Isso é muito claro, para comprovar isso basta que nos recordemos de como era a Medicina na Antiguidade, isso não faz tanto tempo assim, talvez uns quinhentos anos (o que são quinhentos anos para um planeta que tem aproximadamente quatro bilhões e quinhentos milhões de anos? Isso não é nada!).

Na Antiguidade prevalecia a visão de que a doença era o resultado de castigo dos deuses, de maldição ou de feitiçaria (demoramos alguns séculos para sairmos das cavernas, mas levamos muito mais para abandonarmos essas ideias tão primitivas, embora ainda a vejamos em alguns lugares em nosso pequeno e lindo planeta nos dias atuais).

A queda do Império Romano deu início à Idade Média, o cristianismo passa a ser a religião da maioria da população, com isso os pobres e os menos favorecidos ganham uma explicação simples para os seus problemas, e com isso ganham o conforto espiritual necessário nessa época em que tanto se sofria.

O cristianismo acusa as doenças como sendo resultado do pecado, ele se baseia, por exemplo, sobre a maldição bíblica para a lepra, pois no Levítico está escrito: Quem quer que tenha lepra será pronunciado impuro e deverá morar sozinho. Assim nasceram os leprosários.

Mas uma pergunta interessante: quantos diagnósticos errados se fizeram com pessoas que tiveram outros problemas de pele e que foram imputados como sendo leprosos? O poder do diagnóstico podia acabar com uma vida!

As epidemias eram consideradas um castigo divino para os pecados do mundo (se isso fosse verdade atualmente estaríamos todos perdidos).

As práticas médicas e científicas eram vistas com desconfiança, quando não com franca hostilidade, Tertuliano dizia que a existência do Evangelho tornava desnecessária a especulação científica (hoje em dia muita gente radicalizou e se diz certos de que o Evangelho não mais é necessário, com isso vemos tanta promiscuidade, tanta indecência e tantos ataques à instituição família).

Os médicos eram discriminados, as escolas médicas só surgiriam ao final dessa época, o aprendizado, portanto, era empírico. As raras cirurgias, sempre sem anestesia e sem qualquer assepsia, eram feitas por barbeiros. Incrível não?

Até hoje existe, diante de antigas barbearias inglesas, uma espécie de mastro com listras brancas e vermelhas, lembrando essa antiga atividade: o vermelho simboliza o sangue e o branco as bandagens usadas nos operados (vocês sabiam disso?).

Os barbeiros faziam a sangria, procedimento dos mais comuns à época, John Ardene que era o médico dos Reis da Inglaterra, tratava cólicas renais com um emplastro quente untado com mel e fezes de pombo. Meu Deus! Além da dor o cheiro!

Evidente que a ineficácia dos procedimentos “mágicos e religiosos” era compensada com muita caridade, e foi assim que surgiram os primeiros hospitais (eles eram chamados de xenodochia), onde os doentes recebiam conforto espiritual.

Após esse período a medicina começou a evoluir, a cirurgia passou a ser praticada com bastante frequência em Salerno (um local onde a medicina sofre avanços importantes), mas quem a realizava devia seguir algumas regras: evitar o coito, o contato com mulheres menstruadas e alimentos cujo cheiro pudesse corromper o ar, tal como a cebola.

Para quem deseja conhecer mais dessa história eu recomendo entusiasticamente o livro “O Século dos Cirurgiões” escrito por Jurgen Thorwald, onde ele narra uma série de casos do avô materno dele, Henrique Estevão Hartmann, que demonstram o trabalho desenvolvido por médicos, dentistas e enfermeiros durante os anos de 1800 e 1900 para a evolução da medicina cirúrgica.

Em que pese a evolução do conhecimento, quando eu era criança (e antes que alguém fale o contrário isso não faz tanto tempo assim), nós vivíamos imersos em muitas “crendices” as quais beiravam o ridículo, mas àquela época nós, como crianças, tínhamos que obedecer cegamente.

Algumas crianças retiveram essas crendices e passaram-nas adiante, outras, dentre as quais eu me incluo, sempre as questionou e buscou as devidas explicações para os eventos que se diziam ocorrer caso não obedecêssemos às ordens.

Em diversas situações a ciência era simplesmente ignorada e se tomava decisões com base em crenças vindas de há muito tempo, sem que se tivesse explicação alguma sobre elas. Uma delas é bastante conhecida: o tal leite com manga!

Nem preciso me delongar muito nisso, isso é tão estúpido que é melhor nem discutir. Mas outras coisas eram mais sinistras e que causavam “frisson” nas crianças.

Eu me lembro que quando eu era criança eu tinha Bronquite Asmatiforme e que quando eu ficava resfriado eu tinha que fazer incontáveis inalações com uma substância chamada Tergentol (nunca me esqueci desse nome pois ele dava um aroma agradável na inalação e porque ele vinha num frasco de vidro grande que a enfermeira aspirava o líquido dele com uma seringa bem de frente para mim e eu via o nome dele impresso no rótulo).

Em determinada ocasião, eu devia ter perto de sete ou oito anos, um tio meu veio a desencarnar, ele era irmão de minha mãe, naquela época o velório se fazia dentro da casa da pessoa que havia morrido.

Eu achava isso uma coisa horrível, e pensava: Como uma pessoa consegue viver naquela casa depois de saber que uma pessoa morta ficou ali exposta a todos? E se essa pessoa resolver voltar depois para assombrar a todos? Esses pensamentos me davam calafrios.

Eu me lembro que no dia do velório eu almocei na casa de minha avó, me recordo perfeitamente que comi um pedaço de lagarto assado recheado (nossa memória é algo fabuloso e misterioso, pois como explicar certas cenas que ficam indeléveis em nossa memória mesmo após anos se passarem? Qual o objetivo disso?), e após terminar a refeição minha avó pegou um pedaço de pão e fomos até a casa do morto, no final da rua, onde meu tio estava sendo velado.

Durante o caminho eu estava apavorado, pois eu iria ver uma pessoa morta, e eu não desejava ver aquilo, mas minha avó me segurava firmemente a minha mão, assim que chegamos à casa nós subimos cerca de quatro degraus parta adentrar a uma pequena sala onde havia o caixão e algumas pessoas ao seu redor.

Logo que entrei naquele cômodo eu dei de cara com a parte do caixão onde ficam os pés do morto. Meu Deus, que medo! Ali eu resolvi segurar a mão de minha avó com mais força.

Eu estava num nível que eu conseguia olhar apenas até a metade da lateral do caixão do lado onde ficam os pés do morto, eu não via o corpo que ali estava, então minha avó me deu o pão, pediu que eu mordesse um pedaço dele, eu o fiz, mas com dificuldade, eu estava apavorado e sem fome.

Ela então me ergueu, com isso eu fiquei de frente, cerca de uns vinte centímetros, da sola do sapato do defunto e notei que o sapato era preto e novinho em folha (essa imagem ficou em minha mente por alguns dias), então minha vó me disse que era para que eu jogasse o restante do pão dentro do caixão.

Eu o fiz rapidamente, e ela me colocou de volta no chão. E saímos dali rapidamente. Só depois que eu fiquei sabendo que aquilo era uma simpatia, feita com o intuito de acabar com a minha bronquite. A simpatia era fraca, eu continuei tendo bronquite por mais alguns anos.

Eu já contei isso em outra crônica minha, mas vale a pena repetir aqui novamente o caso dos limões cravos que eu e meu primo adorávamos degustar. Eu me lembro com clareza que a árvores onde esses limões cresciam era cheia de espinhos compridos (cerca de dois a três centímetros) e cheia de taturanas (ou lagartas se preferirem) cheias de espinhos os quais tinham uma substância química que causava queimaduras bastante dolorosas. Mas é claro que nada disso impedia que eu e meu primo subíssemos na árvore com muita vontade e pegássemos vários desses frutos para escondidos, devorarmos todos eles.

Eu disse que nós comíamos os frutos escondidos, pois se minha vó pegasse qualquer um de nós dois “comendo” esses frutos ela corria atrás de nós desesperada e nos obrigava a passar água nos pulsos antes de comermos eles, pois ela nos dizia que se não fizéssemos isso o limão “cortaria o nosso sangue”!

Eu me lembro com clareza de que o meu primo ficava quieto, mas eu sempre perguntava a ela: O que é isso de cortar o sangue?

E eu ainda piorava as coisas: Eu já chupei o limão sem molhar os pulsos e ainda estou vivo.

Claro que a minha avó ficava irritada com a minha petulância, ela me respondia com duras repreensões e com a famosa frase: Apenas faça o que eu estou te mandando fazer. Eu me divertia com isso, e minha avó sempre ficava brava comigo. Mas nós nos amávamos muito.

Claro que esses são apenas dois “conceitos” (prefiro chamar assim) dentre uma grande quantidade deles, eu não ficarei aqui falando sobre todos, pois não é o objetivo desta crônica, mas é evidente que mesmo sendo conceitos equivocados eles eram ditos a nós por amor dos mais velhos por nós.

É claro também que elas foram instruídas por seus pais, eram coisas que se passavam de pais para filhos, naquela época os conhecimentos eram de difícil acesso, então as pessoas ficavam com o conhecimento que lhes eram passados por seus pais sem questionamentos.

Embora hoje tenhamos esses conhecimentos à nossa mão e muita gente o despreza. Se elas apenas desprezassem o conhecimento e ficassem em seu mundo, até certo ponto tudo bem, é uma escolha delas e que afetaria apenas a vida dela. Porém, muitas dessas pessoas se prestam ao desserviço de criar bagunça e desorientação divulgando falsos conhecimentos. Aí a coisa fica feia, pois com isso elas acabam influenciando muitas pessoas que acabam se deixando levar por eles.

Aqui podemos dar como exemplo disso as pessoas que acreditam que a Terra seja plana (eu fico me perguntando como que pode essas pessoas pensarem nisso com toda evidência que temos sobre o assunto, eu fico em dúvida se elas realmente acreditam nisso ou se querem apenas criar confusão). E o que dizer das superstições e crendices? O dicionário Houaiss define a superstição e a crendice como a crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associados.

As crendices e superstições são vestígios de um passado em que o ser humano tinha uma visão mágica do mundo, acreditando que diversos fatores sobrenaturais podiam interferir diretamente no seu dia-a-dia (eu falei sobre o “Mito da Caverna” numa de minhas crônicas cujo título é “O mundo de cada um” e que fala muito disto).

Essas “crendices” acabam sendo transmitidas de geração a geração, em especial nas pessoas mais simples que foram mantidas à margem da evolução do conhecimento científico, e acabam incorporando isso no seu dia-a-dia.

Mas a história nos mostra que mesmo as pessoas mais inteligentes podem se curvar a uma superstição, o cientista dinamarquês Niels Bohr, ganhador do Prêmio Nobel de Física, mantinha uma ferradura pregada acima da porta de sua casa.

Muita gente acredita que passar debaixo de uma escada dá azar, assim como quebrar um espelho dá sete anos de azar, que cruzar com gato preto na rua pode não ser um bom negócio e que agosto é mês de cachorro louco.

Eu fico imaginando como uma pata de coelho pode trazer sorte, pois certamente trouxe muito azar ao coelho que a tinha.

Pois é, são tantas crendices que é melhor pararmos por aqui. Mas o que devemos fazer, sempre, é agir conforme a ciência nos determina, assim não caímos no erro do equívoco.

Passamos por um momento definido como uma Pandemia, eu leio todos os dias coisas absolutamente fantasiosas sobre a doença e sobre a vacina, no meio de discussões sérias.

Eu vejo pessoas discutindo fervorosamente, defendendo pontos de vista completamente falhos sobre o assunto, sem serem profissionais da área. Numa dessas vezes eu ousei corrigir o interlocutor, imediatamente ele se dirigiu a mim com palavras de baixíssimo calão as quais eu nem ouso em reproduzir aqui, imediatamente apaguei o meu comentário e sai do grupo.

As pessoas, muitas vezes, se sentem absolutas donas da razão e da verdade. Comentam e compartilham notícias muitas vezes falsas, com risco de causar problemas a outras pessoas, temos que ter esse crivo.

Muitas vezes leio que determinado medicamento causa câncer, e que todos devem parar de toma-lo, porém eu, como médico, jamais tive a informação sobre esse medicamento causar tudo aquilo que essa pessoa escreveu ali.

Eu vi inúmeros pacientes abandonarem as terapias convencionais prescritas por médico, e passarem a usar terapias alternativas que não apresentam comprovação nenhuma de eficácia, e terminarem muito mal essa história (vocês se lembram do Marcelo Rezende, apresentador da TV Record?).

Eu vejo muitas pessoas indicarem tratamentos a outras pessoas, sem terem o menor conhecimento de medicina.

Num mundo como este aonde as informações chegam a todos os cantos a todas as pessoas, quer sejam elas simples ou detentoras de títulos, devemos ter muita consciência no que falamos e escrevemos. As crianças também as estão lendo.

As nossas palavras e os nossos pensamentos são como armas, e podem ferir a nós e aos outros.

O arco e a flecha, para os índios Sioux, são mais que um instrumento de caça e de defesa, quando o guerreiro ainda é jovem lhe é ensinado a simbologia desses instrumentos criados pelos Seres Divinos: o arco (nossa força e inteligência) é o elemento que impulsiona o crescimento e a flecha (nossos objetivos e destino) é o elemento que nos faz chegar ao alvo.
Há um ditado secular os Índios Sioux que diz:

“Os pensamentos são como flechas, uma vez lançadas alcançam o seu alvo.
Seja cauteloso ou poderá um dia ser sua própria vítima.”

Do Livro:
Crônicas de Uma Alma Perplexa

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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