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Não Há Mais Nada a Ser Dito

Renato Pittas

Em uma cidade que nunca dorme, onde os arranha-céus parecem perfurar o céu, vivia um homem. Ele era um escritor que já não encontrava inspiração em lugar algum. Sentia que não havia mais nada a ser dito, que todas as ideias já haviam sido tentadas. Sua mente estava esgotada, incapaz de criar algo novo. No entanto, ele não desistia. Ainda queria respirar e beber água, encontrar uma centelha de novidade em um mundo aparentemente saturado.

Em uma noite de verão, decidiu dar um passeio pelo parque central. O calor era sufocante, e ele precisava de ar fresco. Caminhou até o lago, onde as luzes da cidade se refletiam na água escura. Sentou-se em um banco e olhou ao redor. As árvores, iluminadas pelas luzes dos postes, pareciam sussurrar segredos antigos.
Enquanto observava, uma figura apareceu na beira do lago. Era uma mulher de cabelos longos e escuros, vestida com um vestido branco que parecia brilhar à luz da lua. Ela olhou diretamente para ele e sorriu. Seu sorriso era ao mesmo tempo reconfortante e misterioso.

“Você está perdido”, disse ela, sua voz suave como o vento noturno.

“Talvez”, respondeu, intrigado. “Não há mais nada a ser dito. Todas as ideias já foram tentadas.”

Ela riu suavemente e se aproximou. “Não há novas ideias, só imaginários. O que você procura não está lá fora, mas dentro de você.”

Ele franziu a testa. “O que quer dizer com isso?”

A mulher se sentou ao seu lado e olhou para o lago. “Há um mundo além do que os olhos podem ver. Um mundo onde a realidade e a fantasia se encontram. É um lugar onde os seus sonhos podem ganhar vida, se você permitir.”

“Mas como eu chego lá?” perguntou ele.

Ela pegou a mão e a colocou sobre o peito dele. “Respire e beba água. A fome… você vai matando aos poucos. Permita-se sonhar novamente, deixe sua imaginação fluir. Apenas feche os olhos e deixe a mágica acontecer.”

Fez o que ela disse. Fechou os olhos e respirou profundamente. Sentiu uma onda de calma invadir seu corpo. Quando abriu os olhos novamente, a mulher havia desaparecido, mas algo dentro dele havia mudado. Ele sentiu uma faísca de criatividade, uma nova ideia nascendo.

Levantou-se e voltou para casa. Naquela noite, escreveu como nunca antes. Palavras fluíam como um rio, e ele finalmente encontrou sua voz novamente. Percebeu que a chave para a inspiração estava dentro dele o tempo todo, esperando para ser descoberta.

Agora revitalizado, passou a viver entre dois mundos: o cotidiano da cidade movimentada e o universo mágico que descobrira dentro de si. Cada novo dia era uma oportunidade de explorar essas duas realidades, de encontrar inspiração nos pequenos detalhes da vida e transformar o ordinário em extraordinário.

Não só escrevia, mas também vivia suas histórias, deixando-se levar por aventuras inesperadas. Seus escritos se tornaram conhecidos, tocando as almas das pessoas que os liam. Seus leitores encontravam conforto e inspiração em suas palavras, reconhecendo nelas suas próprias lutas e esperanças.

Com o tempo, percebeu que não estava apenas matando sua fome criativa, mas alimentando o mundo com suas narrativas. Compreendeu que as ideias não se esgotam; elas se renovam, se transformam e ganham novas formas conforme são vividas e compartilhadas.

Assim, continuou a escrever, sempre lembrando das palavras da mulher misteriosa no parque. Ele respirava fundo, bebia água e permitia que sua imaginação florescesse, sabendo que, enquanto houvesse um coração para ouvir, haveria sempre algo novo a ser dito.

Tornou-se uma figura reconhecida na cidade. Seus livros, impregnados de uma mágica sutil e uma sabedoria profunda, começaram a atrair leitores de todos os cantos. Suas histórias ofereciam um refúgio, um lugar onde a realidade se entrelaçava com a fantasia de forma tão natural que os leitores sentiam como se pudessem encontrar aqueles mesmos elementos mágicos em suas próprias vidas.

Continuou a visitar o parque central, agora com um propósito renovado. Sentava-se no mesmo banco, observando o lago e esperando que, talvez, a mulher de cabelos longos e vestido branco voltasse a aparecer. Mas ela nunca mais retornou. No entanto, sabia que a sua presença estava sempre ali, em cada brisa que soprava, em cada reflexo na água.

Com o tempo, percebeu que a magia que procurava estava em cada pequeno momento da vida. Nos olhares trocados, nas palavras ditas e nas não ditas, nas esperanças e nos sonhos de cada pessoa que encontrava. Entendeu que sua verdadeira missão era capturar esses momentos e transformá-los em histórias, dando voz às emoções e aos desejos que muitas vezes permaneciam escondidos.

Continuou a escrever, vivendo cada dia com a mesma intensidade com que criava suas histórias. Ele descobriu que não há fim para a criatividade, pois ela é um ciclo interminável de renovação e descoberta. Seus livros continuaram a inspirar e a confortar, mostrando a todos que, mesmo quando parece que não há mais nada a ser dito, sempre há uma nova maneira de ver o mundo, uma nova história a ser contada.

Encontrou a paz em sua busca constante e a alegria em cada nova ideia que nascia. E, no coração da cidade que nunca dorme, ele continuou a iluminar o caminho para aqueles que buscavam a mesma magia, sabendo que, enquanto houvesse alguém disposto a sonhar, suas histórias nunca teriam fim.

Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador.
Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs
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