Artigo: Everton Coraça – Gene Simmons não errou ou quase acertou? O rock não morreu mas virou um zumbi – Parte 1: Fatores Mercadológicos

Eis o que vos fala o roqueiro do interior que há um ano descobriu mais uma vez que o jingle do Tiririca para se eleger estava errado de novo. O assunto de hoje é a polêmica frase que Gene Simmons do KISS voltou a repetir de que o rock estava morto. Arrepiando os cabelos dos mais radicais que entram em histeria com quem contradiz qualquer coisa que eles pensam e sabendo que conseguiria espaço na mídia, Simmons de tempo em tempo volta com sua frase chavão, como se o KISS produzisse algo relevante desde o Psycho Circus(1998). Fato é que o Brasil nunca foi o paraíso para o rock, desde passeatas contra a guitarra, passando por produtores que tiravam o peso das guitarras nos anos 80, indo para composições babacas nos anos 90, a ascensão de bandas covers empesteando casas de shows e chegando ao seu final melancólico com o Fresno e Detonautas, bandas que apresentam um conteúdo tão rasteiro quanto uma minhoca bêbada.

 

 Até pouco antes do desmonte das grandes gravadoras, agora falando em um aspecto mundial, a política de mercado era o produto de venda com uma velocidade média, ou seja, a mídia ainda era o CD e era preciso respeitar um tempo para que ele pudesse sair das prateleiras. Porém com o fim dos CDs e a chegada da internet a produção em massa se intensificou e agora os concorrentes não eram mais regionais e sim mundiais para quem produzia música autoral.

 

No caso do rock: ora tentavam se enquadrar misturando música eletrônica, Hip Hop, baladas horrorosas e em um momento em que nada disso vendia mais, tiveram que forçadamente voltar às raízes para aqueles que ainda lhes davam alguma atenção: os fãs.

 

Para ficar ainda mais interessante vamos imaginar um jogo de futebol.

 

De um lado do campo bandas como o Metallica, The Offspring, KISS, Ratt e Judas Priest fazendo o caminho inverso da criatividade para sobreviverem do que restou. Hoje se mantém acorrentadas em compor exatamente coisas parecidas com o que faziam nos anos 80/90, com trabalhos que vão do excelente Death Magnetic ao lixo do Sonic Boom. O problema é esses  senhores beirando os 60 se vestindo igual em sua época de “fama” e tentando debutantes anacrônicos e trazendo um tsunami de constrangimento para quem assiste, a exemplo da banda Dokken com o Don Dokken tentando fazer dancinha sexy e além das baixarias de Stephen Pearcy(Ratt) bebum no palco. Não, não sou moralista, acho bem louca a figura Willie Nelson fumando maconha pra todo lado com seu copo de whisky na mão, porém não soa decadente, nem forçado e muito menos um bandidinho nóia de periferia.

 

No outro lado do campo, bandas e artistas que tentaram se afastar do mais do mesmo como Bon Jovi(que não lança um álbum que presta desde o These Days), Skid Row(com trabalhos interessantes pós-Bach, mas ignorados pela mídia), Dee Snider, Queen (com Paul Rodgers) e uma lista infinita de artistas que pelo menos mostram certa ousadia, mas morrem na praia com seus trabalhos solos por não conseguirem atingir um patamar eficiente de divulgação(não no caso do Bon Jovi que se tornou tão decepcionante a cada trabalho quanto lata de salsicha em cesta de Natal).

 

E na reserva bandas de alto calibre como: Opeth, Mastodom, H.E.A.T., Airbourne, Crucified Barbara e mais um milhão de outras bandas que só os curiosos e desacomodados que realmente gostam de ouvir coisas novas, ou seja, uma minoria, vão saber que elas existem.

 

A dura realidade é que mercado virou as costas para os novos gênios e astros da música e nada próximo a ACDC provavelmente irá surgir em um mundo sem que se possa encontrar uma forma arrecadar capital para poder reinvestir.

 

Mas quem ganhou esse jogo? Ninguém, todos perderam. Se não perderam em aspectos financeiros, perderam em aspectos criativos.

 

O fator renovação no rock, aquilo que ocorreu nos anos 70, 80, e 90 não ocorre há mais de 25 anos e nisso Gene está coberto de razão, porém vale ressaltar que bandas novas e com alta qualidade e potencial surgem o tempo todo, mas a intenção e a dificuldade do mercado em torná-las produtos altamente rentáveis como nos anos do LP e dos CDs não faz sentido para os investidores devido ao formato em que as coisas se encontram nos dias atuais. É quase impossível saber onde investir em um mundo interligado onde o monopólio da mídia não consegue sustentar uma música nas paradas ou com views por mais de 3 semanas, ou vocês acham que November Rain entrou no inconsciente coletivo por acaso? A música citada ficou um ano tocando em todas as rádios e TVs do mundo entre as 10 mais, ou seja, um ano de propaganda e exposição intensa. Onde você vê isso hoje?

 

A banalização dos produtos de áudio e vídeo com a  sua produção excessiva,  trouxe por um lado o acesso a tais ferramentas de formatação e por outro a quebra da surpresa do consumidor e a intenção de aquisição do produto através da compra, uma vez que o vídeo com produção e efeitos lançado hoje por um artista com algum pouco destaque de inovação facilmente será copiado exaustivamente tendo seu formato explorado em tempo recorde por outros, sendo algo banal em menos de um mês, e o banal é pouco valorizado.

 

Interessante é lembrar de  André Matos dizendo: “(…) pra que o Angra vai fazer vídeo clipe se não vai passar em lugar nenhum?”. E veja hoje o conceito simplesmente se inverteu.Você tem centenas de plataformas implorando por seu vídeo para divulgá-lo, mas ninguém dá atenção, o que gera vídeos com produção, elaboração e criatividade toscas, baixo orçamento e alta definição de vídeo como os últimos do ACDC.

 

Mas diante de tais dificuldades logísticas o rock vai lá perambulando pelo mundo em festivais, eventos, produtos e mídias que ainda conseguem atenção suficiente para manter um cenário que tem em seu maior predador a questão cultural, assunto da semana que vem.

 

Everton Coraça: Músico. Atualmente em carreira solo com produções próprias e covers acústicos nos bares da região do Circúito das Águas. Organizador de eventos. Ex-colunista do “Gazeta Rocks”, apresentador e idealizador do programa no You Tube “1 Minuto de Rock And Roll”, e do programa de rádio “Filé do Rock”. Formado em História com base intensa em sociologia, filosofia literatura clássica. Amante do som de bandas clássicas e desconhecidas do Blues ao Trash Metal.

 
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