Lu Genez [Nessa poesia de instante]

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Lu Genez


Nessa poesia de instante, anoto o que sobrou de mim, o que esperneia, remexe, o que gargalha ao espelho e carrega incômodos e ruídos salientes, que depois desabam no silêncio, nas valas da carne, correm e acabam ao final de um ponto, o que perde a rota, o que não é mais caminho, não tem a umidade dos lábios, não é selo nem signo, não é som nem fonema, só leva o nome que lembro, e amanhã esqueço.

Talvez devesse escrever em um caderno as letras da tua voz e depois a minha, juntaríamos as cordas, os cantos da selvageria, é que já não tenho tons rubros, não sou mais animal, só a parte dos fiapos me chegam aos dedos, sem o calor das peles ao sol, sem os suores das montas, sem os acasos de um coito.

Talvez devesse contar abscessos e cicatrizes, reminiscências que jazem no frio das lápides, sussurram desgastes, se liquefazem em outros versos, que circundam os ossos, que é mortalha -semáforo-esquina, que mudam o gozo de cama, amortecem as conveniências das horas nossas de cada dia.

Talvez devesse abortar a poesia que um dia ousei escrever, e faria noite escura, esquecimento, areia, sem lua, estrela, sem pó, máscara, dentes, sem as genitálias desse poema de instante, aparente, que escorre rente ao rio, ao riso de um louco, ao que não mais recordo em lucidez, ao que me debato, Ao fim.

O papel é jaula de todas as linhas.

Lu Genez, Curitiba, é poeta escritora…

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