Lu Genez [Merece saber quem sou]

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Lu Genez


Merece saber quem sou, antes que um emaranhado de teias me tome o ventre, as mãos, o dia de hoje, antes que eu conte mentiras de amor ou me debata diante da lápide, e peça aos infernos minha absolvição, antes que a meia noite nos cale a voz, além das colinas e dos átrios, além das beiradas e precipícios, além dos reflexos e ruídos .

Sou um amontoado de células e delírios, pesadelos permanentes, o grito travado na garganta seca, o poema sem nexo, enquanto o sangue escorregue lentamente pelo meu sexo, nos ciclos lunares. Tenho velhos pelos pubianos, um esbranquiçado inequívoco e insolente, resistente, resiliente aos dias e afagos, aos tropeços e a solidão de minha cama.

Um corpo gelado, esquecido de outras carícias, enquanto alguns olhos me banham de amor em horas inocentes, enquanto me convenço de importâncias indevidas e semeio um verso curto, de semântica dúbia, que não sobrevive ao final da página, que se encerra em pontos finais, sem que se deixe saudades aparentes.

Sou o que nego e aceito, o que carrego de ausências, uma fala dispar num colossal deserto de ontens, contradições e contrações sem que se nasça algo, sem semente derrubada em uma floresta primitiva, sem o amendoado de um olho verde.

Devo-me a verdade
Enquanto existir.

Lu Genez, Curitiba, é poeta escritora…

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