Lu Genez – [Leio o obsoleto obituário de segunda feira]

Lu Genez


Leio o obsoleto obituário de segunda feira
Como das salivas quotidianas da cidade avarenta
Derrubo os olhos em um espelho cego
Empresto meu rosto ao primeiro estranho passante
Perco-me entre os gritos de uma noite escura.

Se cabe a nota e o nome em um rodapé perdido,
Entre o verso, a rima e o desassossego.

Absorvo a parte da ladainha que me cabe
Ao resto, cedo ao tempo dos pobres pecadores
Pois minha carne, servida de alimento aos lobos
Dissolve-se no apuro estético, entre os dentes.

Já absolvido diante das paredes cruas,
Abençoa-me a vida, como num quadro de Dali,
Em seus devaneios de tintas cítricas, de o grande masturbador.

Quando tudo é perturbador diante do silêncio
Quando a voz se ausenta da garganta
E o medo faz secura nas cordas vocais.
As ondas se arremetem com bravura, contra as rochas ígneas,
E os rios seguem seus perenes traçados sinuosos.

Sigo o rito fúnebre dos aborígenes australianos,
A eles, meu empalhamento.
Um sem-fim de estratagemas infelizes
Sobre a solitária lápide fria cinzenta,
Os vocábulos e desígnios autônomos de um fim.

Quanto de adeus me dei ontem.
Se amanhece na manhã de amanhã.

Julho 2021

Lu Genez, Curitiba, PR, é poeta escritora, e Livre Pensadora.

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