Lu Genez – [Extirpado o seio direito do alimento]

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Lu Genez


Extirpado o seio direito do alimento, sem a necessidade intrínseca da mastectomia
Um ato falho, um deslize dos dedos em embaraço na carne
O corte grotesco, a cicatriz aparente, as dores que não sangram
Só latejam e gritam sobre o pedaço desaparecido
E a incômoda sensação de que se existe um leite coalhado, cheirando a azedo, apodrecendo,
Se tornando pedra, sólido, frio, amorfo, empretecendo a teta seca.
Reconstituições mamárias são cirurgias estéticas,
Encobrem o rasgo danoso, raivoso ao espelho.

O pedaço do implante cosido em linha preta, em pontos de cruz,
Como se o tecido bordado conferisse a pele, um desenho menos repulsivo
E todo o corpo pudesse se aquietar no aceite do agressor.
Afinal, o tempo se encarrega de dissipar os temores das glândulas dissecadas
Trancafiando-as num quarto escuro, sob o abrigo do breu.

E aos filhos desnutridos, desmamados do mamilo rachado
Na dor aguda, na fome dos órfãos mudos, nos dentes.
Se valem das águas do que se resta no corpo.
Amenizam a febre, no ponto exato, para se manter a sanidade cristã.
São os acenos que se perdem no final dos abismos.

Não há vestígio de oferendas nas mãos dos infiéis e nos punhais e punhos do abate.
Todo o bisturi e o corpo mutilado, conhecem sobre os cortes, os afagos e as marcas de um silêncio.

Junho 21

Lu Genez, Curitiba, PR, é poeta escritora, e Livre Pensadora.

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