Lu Genez [Deram-me a orfandade neste dia]

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Lu Genez


Deram-me a orfandade neste dia, veredicto fatal, atestado e protocolado nos autos,nos ossos, nas vísceras e nos resquícios de um dia de domingo.

Decretado o óbito, a urgência da carne a se enrijecer paulatinamente, para dar tempo ao cérebro, a nódoa que fica, até que se fixe o decreto, até que o sacramento termine, até que a fase final se complete, até o concreto da lápide. É só o tempo da argamassa, da seca das juntas, é só um tempo de lábios mortos.

Deram-me um estado de coisas de uma impermetida ausência, no silêncio que se estabelece, o frio que se espalha, num latente abandono de face, enquanto a tua, serena e mansa, descansa, e como se toma o próximo passo, e a escada, e a porta do quarto, e a ida que não cessa.

Decretado o fim, enquanto meu sobrenome acende, enquanto resisto no dia, enquanto preparo a janta, enquanto penso se a noite se estenderá até amanhã, enquanto amanhã, sei do que aconteceu ontem.

Enquanto me sinto só, descoberta das mãos e reza, de mãe e pai.
Enquanto rogo aos céus, alento e caminho
Enquanto os olhos pesam.

Lu Genez, Curitiba, é poeta escritora…

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