Lu Genez – [Ainda sangro em algumas horas fatais]

Compartilhe!

Lu Genez


Ainda sangro em algumas horas fatais, na memória de um dia inacabado,
Dançam as sombras, sobre a silhueta da pobre dama de honra e seu vestido de coragens.
Não, não se trata de um processo físico e hormonal que acomete humanos de útero fértil,
Que desemboca em ciclos lunares, nos descascamentos das sementes,
Do que se é previsível e vermelho.

É só um sangramento, nenhuma hemorragia letal, que leve ao passamento.
É só um tanto de camada expelida e despejada, é só um tanto de pedaços de mim,
E de alguma promessa de futuro imprevisível e indizível.
O acaso se serve das mãos de um artesão, na delicadeza tátil do barro.

No derramamento e no delírio de um sonho de uma noite sem fim.
um domingo lunático, de se andar de pés descalços e de se estremecer de frio.
Nem sempre onde se pisa, é sólido e tem concretude aparente,
às vezes tudo rangido, areia, som, pântano, fala, vento, verbo.

Um ato suicida, um grito de histeria, o sol se pondo no lugar previsto
Nada que atrapalhe o tráfego e o movimento das marés
Do que foi decapitado e deliberadamente esquecido,
Das conveniências do silêncio hostil, ao pé da forca e das cerimônias sacras do carrasco.

Vestidos de justiça, os homens matam outros homens, rezam sobre seus corpos e os jogam nus, aos vermes, em valas improvisadas, no chão dos mundos,
depois lhe cobrem com terra e riem sobre as suas estórias.
Qualquer lápide carrega mais que a frase de alguém, seus olhos e ossos.
A odisseia entre chegada e partida, entre as águas, o pó e o sangue.

07.09.2021

Lu Genez, Curitiba, PR, é poeta escritora, e Livre Pensadora.

5 1 Vote
Avaliação do Artigo
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários